Os 35 anos do Jornal Nacional; plogdopaulohenrique




             Os 35 anos do Jornal Nacional

 

             ou  Cadê o Comissário?

 

                          Paulo Henrique Amorim

     Nikolai Yezhov é quem aparece à direita, na primeira foto,  ao lado de Stalin.  Ele era Comissário para o Transporte Marítimo. Yezhov aderiu aos bolcheviques antes da Revolução de 1917, lutou no Exercito Vermelho e se tornou um colaborador próximo de Stalin. Chegou a chefe da NKVD, ou o Comissariado do Povo para os Assuntos Internos, que antecedeu a KGB. Foi Yezhov quem dirigiu o grande expurgo dos inimigos de Stalin, de 1936-38, conhecido como a “Yezhovschina”.

 

   Acontece que o Comissário Yezhov caiu na própria armadilha. Denunciado como trotskista, foi preso e executado provavelmente em 1939.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h16
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   Na segunda foto, em seu lugar aparecem as águas de um canal próximo de Moscou.

  

    O livro “Jornal Nacional – A notícia faz história”, da Jorge Zahar Editor, para comemorar os 35 anos do Jornal Nacional, não faz justiça a Roberto Marinho. 

 

   Eu apareço no livro mais do que ele. Trabalhei na Rede Globo de 1984 a 96. No entanto, fora o prefácio, onde Roberto Marinho aparece como o  empresário de visão, e o capítulo sobre a morte dele, meu nome aparece 23 vezes, e o dele, treze. Há duas fotos em que apareço. Ele, em uma só.

 

    Roberto Marinho era mais do que um empresário de visão. Ele era o “editor-at-large” do jornalismo da Rede Globo (e do jornal O Globo). Ou, como se dizia na redação, quando cheguei à TV, ele era “o nosso melhor repórter”. Ele e só ele decidia sobre o noticiário “sensível” de política e economia. Os editores de política e de economia (como fui) tinham a autonomia de vôo de uma barata.

 

    Em vários episódios que o livro reconstitui, Roberto Marinho, como o Comissário da fotografia, simplesmente “some” – quando, na verdade, desempenhou papel decisivo. O mais conspícuo é a edição do debate entre Collor e Lula, nas vésperas do segundo turno da eleição de 89.  A decisão foi de “pôr o pior do Lula e o melhor do Collor”. E, embora os profissionais Octavio Tostes e Francisco Tambasco (pág. 221) tenham fixado os pontos principais do episódio, “pôr o pior do Lula e o melhor do Collor” era uma decisão que só Roberto Marinho poderia tomar – e tomava. E ninguém, no livro, cogita dessa hipótese.      

 

    Creio, porém, que a minha melhor contribuição à crítica desse livro seja em relação à eleição para Governador do Rio, em 1982.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h14
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      Para preparar esse trabalho, minha empresa, a “PHA Comunicação e Serviços”, contratou a “Papier Produções e Editora” para produzir uma investigação que explorasse três hipóteses:

 

1)   Houve uma tentativa de fraude na eleição para Governador do Rio, em 1982, com o objetivo de roubar a eleição de Leonel Brizola e eleger Wellington Moreira Franco, do PDS;

2)   As organizações Globo (jornal e tevê) coonestaram a tentativa de fraude;

3)    Brizola lutou como uma fera e, com a ajuda do Jornal do Brasil (do qual eu era, na época, chefe da redação), da Radio Jornal do Brasil e da TV Bandeirantes, evitou a fraude.

 

     A equipe que contratei não teve acesso a uma peça importante da investigação: não pode assistir à fita com o programa “Show (sic) das Eleições”, exibido pela TV Globo, nas eleições de 82, pois “não temos em nosso acervo a matéria solicitada”, informou Maria Alice Fontes, gerente de operações do Centro de Documentação da Rede Globo.

     

     É uma pena. As referencias ao “Show” em outras fontes permitiram, porém, reconstituir trechos essenciais do programa.

 

      Os links abaixo; o trabalho da jornalista Maria Helena Passos, autora da reportagem “Cuidado ! Quem procura pode achar”, sobre a investigação frustrada na justiça e na polícia; além das entrevistas com César Maia, Pery Cotta e o Procurador Celso Fernando de Barros; o relato de Pedro do Couto e do analista de sistemas, Glauco Antonio Prado Lima; e a contribuição da “Papier” e de outros profissionais contratados pela “PHA” – tudo isso foi o que me permitiu preparar esse trabalho.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h13
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    Sobre a tentativa de fraude .

 

    Pouco antes da eleição, fiquei de orelha em pé por causa de duas informações que recebi. Primeiro, o repórter de política do Jornal do Brasil, Rogério Coelho Neto, me contou que o Deputado Léo Simões, do PDS do Rio e notoriamente ligado ao SNI e ao Presidente João Baptista Figueiredo, lhe tinha dito que o Brizola ia perder a eleição, porque ia ser muito grande o numero de brancos e nulos num dos maiores redutos dele, a Baixada, por causa da vinculação dos votos.

 

    Como se sabe, para o PDS ganhar a eleição, o regime militar impôs “a vinculação de votos”: o eleitor tinha que votar no mesmo partido de governador a prefeito.

 

    Também pouco antes da eleição, Wellington Moreira Franco foi ao prédio do Jornal do Brasil, na Avenida Brasil, dar uma entrevista à Radio. Passou na redação do Jornal e me disse a mesma coisa: o eleitor do Brizola não ia saber votar.

 

    A tentativa de fraude começou na escolha da empresa que ia contar os votos, a Proconsult. Até um órgão do Governo, o Serpro, se recusou a participar da concorrência: alegou que não podia dar conta da totalização de eleições majoritárias, estaduais e municipais, ao mesmo tempo.

 

    Foi a sopa no mel para a parceira SNI/Proconsult.

 

    Era para ser um passeio na raia. O bicheiro Castor de Andrade, sólido aliado de Wellington Moreira Franco e do Governo militar chegou a dizer:  “nunca pensei que fosse tão fácil ganhar uma eleição”.  

 

    A Proconsult tinha concebido um “diferencial Delta”, que seria “o grande eleitor” – os votos brancos e nulos que desfalcariam o Brizola.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h12
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    Uma apuração paralela do PDT, liderada por Cesar Maia, notou um fato singular: os primeiros boletins oficiais (e da Proconsult) eram divulgados sem os votos nulos e brancos.  O repórter Heraldo Dias, do Jornal do Brasil, uma semana depois, verificou em boletins do TRE, elaborados pela Proconsult, que os votos brancos e nulos diminuíam, embora o número total de votos aumentasse.

 

     Além do “diferencial Delta”, era importante que, primeiro,  entrassem no computador os votos de onde Wellington era forte – o interior do Estado. Para criar o clima de “já ganhou”, acostumar (ou “preparar”, como prefere Luis Carlos Cabral, diretor Regional da TV Globo, no Rio, na época) a opinião pública para a idéia de que Brizola ia perder.

 

     A entrevista do Procurador Celso Fernando de Barros a Maria Helena Passos demonstra que a Justiça não se empenhou em investigar a tentativa de  fraude. Muito menos a Polícia Federal. O JB investigou e o então repórter do Jornal do Brasil, Ronald Carvalho fez uma perícia da Proconsult.

 

     Como disse o ínclito General Golbery, que se recusou a criticar o que rapaziada do SNI fez na eleição do Rio. O que ele criticou foi a inépcia. “Então, você acha que roubar uma eleição através do sistema de computador é coisa fácil ? Eles simplesmente não sabem fazer isso”. Se soubessem, tudo bem …

 

    Inépcia por inépcia, ressalte-se que a intenção original do Governo deu com os burros n’água: nas eleições de 82, o numero de votos nulos e brancos diminuiu. Inclusive no Rio.

 

    Sobre o papel das Organizações Globo.

 

    Como demonstram os links abaixo, o jornal O Globo (que fornecia os dados à Rede Globo) cometeu todos os erros (?) da Proconsult.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h12
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      Como lembrou Brizola à Rede Globo, por um fenômeno de logística que merecia ser um case estudado pela Harvard Business School, os votos de Itaperuna, no interior do estado, chegavam mais rápido ao Globo do que os votos de Bonsucesso, um subúrbio da Zona Norte da cidade.

 

     Segundo o depoimento de Cabral e de Osvaldo Maneschy, então funcionários das Organizações Globo, no sistema de apuração do jornal O Globo os votos dos redutos de Moreira Franco entravam numa proporção maior e mais rápido do que os votos dos redutos de Brizola – embora estivessem disponíveis.

 

     Segundo o depoimento de Homero Icaza Sánchez, editor de analises e pesquisas da TV Globo, Roberto Irineu Marinho, filho de Roberto Marinho decidiu que ele e Roberto Medina (ligado a Wellington) elegeriam  Moreira Franco de qualquer jeito.

 

     Cabral chegou a dizer a Roberto Irineu Marinho que era preciso colocar no computador da Globo mais votos da capital, onde havia mais redutos de Brizola, porque, nas ruas do Rio, onde se bradava “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, as equipes da Globo não tinham condições de trabalhar. 

 

     A eleição foi na segunda-feira, dia 15 de novembro de 1982.

 

     Brizola, na verdade, só ganhou a eleição na quinta feira.

Naquele dia, 18 de novembro de 1982, a manchete do Jornal do Brasil era “Brizola deve vencer Moreira por 34,1% a 29,5%”. A manchete do Globo foi: “Decisão da eleição só com as últimas urnas”. Acima, em letras menores, ainda no Globo,  “diferença será inferior a 60 mil votos”. ( E não foi por acaso que Brizola ganhou. Na capa do Globo, ao lado, há um outro título: “(Ernani) Galvêas (ministro da Fazenda) confirma que Brasil vai recorrer ao FMI”.  Na página 10, o Globo informa: “Primeiro boletim oficial do TRE dá Moreira na frente”.

 

     No sábado, por telefone, Roberto Marinho repreendeu  Cabral: “Você me desobedeceu. Eu disse que não era para projetar e você passou dia inteiro projetando, dizendo que o Brizola ia ganhar. Você me desobedeceu.”

 

     Naquele mesmo sábado, um antigo repórter da Radio Globo disse a Maneschy, na redação do jornal: “o velho enlouqueceu. Ele mandou parar o computador”.

     

     No domingo, 21 de novembro de 1982, o titulo da primeira página do Globo é “Resultado final ainda indefinido”.

 

     Na sexta-feira, Boni já tinha mandado tirar do ar o “Show”  da Rede Globo.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h12
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        O que o livro “Jornal Nacional – A notícia faz história” se limita a fazer, a partir da página 104, é botar a culpa no sistema de apuração do jornal O Globo. E admite apenas um “problema metodológico”, que foi confiar o sistema de apuração de uma televisão, que tem que dar informação várias vezes ao dia, a um jornal – que sai uma vez por dia.

 

         O livro diz que o “escândalo Proconsult” dizia respeito à empresa contratada pelo Tribunal Eleitoral (e não tinha nada a ver com as Organizações Globo). E aceita a conclusão da Justiça de que os erros não foram intencionais.

 

         Porém, há um depoimento precioso. O de Alberico de Souza Cruz. Ele era, então, “um dos responsáveis pela Editoria de Números da Rede Globo”. Mais tarde, foi um dos responsáveis pela edição do debate Lula x Collor, da edição do Jornal Nacional propriamente dito, e Diretor de Jornalismo, em lugar de Armando Nogueira.

 

        Na página 116, Souza Cruz diz assim: “Aí, foi o famoso episódio da Proconsult, que não tem nada a ver com TV Globo. A Globo nem tinha conhecimento do complô que existia contra o Brizola. Hoje, eu estou convencido de que existia um complô. Mas, a Globo não participou dele, porque a gente até nem tinha competência para isso. Podia ser que algumas pessoas da Globo tivessem conhecimento desse complô contra o Brizola, mas nós não tínhamos. Nós, os profissionais, não tínhamos conhecimento nenhum. A Globo nunca participou de nenhum complô, a Globo que eu digo, os profissionais da Globo, nunca participaram de nenhum complô contra Brizola.”

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h11
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    Tenho todos os motivos para acreditar que muitos dos profissionais da TV Globo com quem tive a honra de trabalhar, de Armando Nogueira a Woile Guimarães, de Alice Maria a Luiz González – para falar dos que exerciam cargos de chefia  --,  não tinham conhecimento da operação para  coonestar a fraude. Porém, acima deles, “algumas pessoas” das Organizações Globo se dispuseram a ter um papel mais importante  para tirar a vitória de Brizola do que teve a Rede Fox de televisão para eleger George Bush presidente dos Estados Unidos, em 2000. O documentário de Michael Moore, “Farenheit 11/9”, que se tornou anátema para direita furiosa do mundo inteiro, deixou claro como a fraude eleitoral na Florida fomentou e desembocou num impasse. Esse tipo de impasse tem que acabar na Justiça. Nos Estados Unidos, acabou na Suprema Corte, controlada pelos republicanos. No Rio de 1982, acabaria num Tribunal Eleitoral que foi, no mínimo, omisso diante da tentativa de fraude contra Brizola. É o que fica claro com o levantamento dia-a-dia da cobertura das eleições, as entrevistas e as reportagens que se seguem. 

    

     Só que Brizola não fez o que os democratas fizeram em 2000, segundo Moore: os democratas assistiram à derrota. Brizola saiu da jaula e confirmou a eleição na batalha da opinião pública. Enfrentou o Globo dentro da Globo, denunciou a fraude aos jornalistas estrangeiros, saiu de redação em redação. E, mais tarde, teve papel decisivo – como lembra César Maia – na redemocratização do Brasil. Teria existido o comício das Diretas, na Candelária, se o governador do Rio fosse o Wellington ?

 

     Brizola não ficou sentado em cima das mãos. É bem verdade que Brizola tinha informações que vinham de dentro do sistema militar e da própria Rede Globo. E o senador do PDT, Saturnino Braga, soube que aliados de Wellington tramavam o golpe e denunciou as Organizações Globo da tribuna do Senado.

 

     O diabo as faz. No dia 14 de dezembro, O Globo e o Jornal do Brasil divulgaram o resultado oficial da eleição. E O Globo errou: tirou dez mil votos da diferença entre os dois candidatos mais votados divulgada pelo TRE: publicou 168 mil, quando a diferença a favor de Brizola foi 10 mil votos maior: 178 mil votos a mais que Wellington. O Globo também tirou 464 votos de Wellington ...

 

    E eu próprio redigi com irreproduzível prazer a nota de correção do JB:  “a projeção da Rádio e do JB estava errada: errou por 0,08%”.  

 

    Brizola ganhou a eleição duas vezes. Na lei e na marra.

 

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PS - Quero agradecer a gentil colaboração de Celso Fernando de Barros, Luis Carlos Cabral, Villas-Bôas Corrêa, Pery Cotta, Pedro do Couto, Glauco Antonio Prado Lima, César Maia, Oswaldo Maneschy e Xico Vargas. Evidentemente, eles não tem nada a ver com a minha opinião ou versão dos acontecimentos.     

 

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Veja a seguir os levantamentos e reportagens em que me fundamentei para apresentar essa crítica.  



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h10
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                                               A tentativa de fraude

 Os antecedentes

Em 1976, ainda vigorava o dispositivo da Constituição adotada década antes pelo regime militar, que impedia a eleição dos prefeitos das capitais brasileiras. Eles eram indicados pelos governadores. Porém, os prefeitos dos demais municípios do país, eleitos para um mandato de quatro anos, tiveram seu período espichado por mais dois anos. A idéia do governo federal, sob a presidência do general João Baptista Figueiredo, era a de que ao se juntar as eleições para todos os cargos em um único pleito, o PDS sairia favorecido.

 Não foi outro o motivo que levou à adoção legal do voto vinculado em 1982. Nele, o eleitor era obrigado a votar no mesmo partido para todos os cargos. O Executivo propôs o projeto com a justificativa de que o expediente fortaleceria os partidos e a fidelidade partidária. Mas na prática julgava que a vinculação do voto beneficiaria o PDS, já que este era o partido que, além do governo federal, governava a maioria dos estados e dos municípios do país. A oposição chiou forte. Mas não adiantou. A lei vingou, mas também não adiantou o lado do PDS. Nas eleições de 1982, o PMDB aumentou suas bancadas e, surpreendendo a todos, os votos nulos e brancos desabaram. Menos, como se verá a seguir, na contabilidade que a Proconsult tentou imprimir à apuração dos votos no Rio de Janeiro, como se verá a seguir. Naquela eleição, Wellington Moreira Franco, pelo PDS, Miro Teixeira, pelo PMDB, Sandra Cavalcanti, pelo PTB, Leonel Brizola, pelo PDT e Lysâneas Maciel, pelo PT, disputaram o governo fluminense. Os demais antecedentes, já em 1982, foram os seguintes, conforme registrou a imprensa da época:

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h09
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1) Em março de 1982, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro inicia o cadastramento das empresas de processamento de dados para licitação do serviço de computação dos votos durante o processo de apuração das eleições de 15 de novembro. Nelas, seriam eleitos governador, senador, deputado federal, deputado estadual, prefeitos dos municípios do interior e vereadores para todas as câmaras municipais do Estado. O Serpro, a Datamec, controlada pela Caixa Econômica Federal, e a Proconsult, criada em fevereiro de 1981 e fruto de três grupos empresariais, se inscrevem. (Em Playboy, março de 1985, Os Quinze Dias de Sabotagem para liquidar Brizola, por Hamilton de Almeida Filho e Ricardo Gontijo).

2) Em maio, o PDS, assustado com a baixa popularidade de seu candidato, Emílio Ibrahim, ex-secretário de Obras do governador Chagas Freitas, apadrinhado do ministro do Interior, Mário Andreazza, que acalentava candidatar-se à sucessão de Figueiredo, diante do risco do desastre eleitoral que isso poderia significar com a vinculação do voto e em um estado governado pelo PMDB, troca-o por Rubem Medina, deputado federal e dono de agência de publicidade. A decisão é fruto de pesquisas feitas pelo Serviço Nacional de Informações que previa a redução da bancada pedessista de 12 para 6 deputados federais, se não houvesse a troca. Na ocasião, Wellington Moreira Franco, genro do senador Amaral Peixoto, liderança do PDS fluminense, recusa a oferta. (Em Isto É, Vítima das pesquisas, de 23/05/1982). Meses depois, Wellington aceitaria.

3) A segunda troca foi acertada em maio mesmo, quando o senador Amaral Peixoto é chamado ao Planalto para empreender a tarefa de combater o PMDB, por conta da vinculação de voto e recuperar a massa falida do PDS fluminense, essencial para permitir maioria pedessista no Colégio Eleitoral que elegerá o sucessor de Figueiredo. Exige que Moreira Franco seja o candidato e toda ajuda do governo federal para ressuscitar as bases amaralistas do interior do estado, elegendo pelo menos seis deputados federais. Elegeria 14. Por conta disso e de outros fatos que se seguirão, Gustavo Silveira, assessor de imprensa do então ministro Delfim Netto, diria a Playboy (texto citado) que Brizola ganhou para governador, mas o partido vitorioso no Rio foi o PDS e o derrotado o PMDB. Miro Teixeira não sabe que mudou a História do Brasil _ elegeu Brizola e formou o Colégio Eleitoral que o PDS precisava para 84.

4) Em 4 de agosto, o resultado da licitação é anunciado. Mas Serpro e Datamec desistem antes que o Grupo de Trabalho do Tribunal conclua seu trabalho na primeira semana de setembro. Alega Carlos Eduardo Oberlaender Alvarez, gerente do projeto de modernização do Serpro, não concordar com o Plano das Apurações, elaborado pelo Juiz aposentado Dalpes Monsores, membro do grupo de licitação presidido pelo juiz corregedor do TRE fluminense, José Rodrigues Lema, e integrado pelos juízes Emilio do Carmo e José Danir Siqueira. Legalmente, o Serpro podia ser contratado sem concorrência por qualquer órgão público. Mas não poderia participar de uma. Seu sistema não se adaptava ao planejado para o Rio. A Datamec também se retirou por não ter mais interesse no projeto eleitoral. Alvarez, em março de 1983, disse que o presidente do TRE, desembargador Marcelo Santiago Costa, aos 70 anos, sentia-se pressionado por Monsores e a própria secretária, Marília, a aceitar a decisão do GT de licitação e contratar a Proconsult. O técnico do Serpro o interrogou, inclusive, no dia da decisão, para saber se a divergência do Serpro com Monsores era apenas técnica e se a Proconsult era mesmo capaz de totalizar o pleito fluminense. (Em Playboy, março de 1983, texto citado).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h08
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5) Em 10 de setembro, a TV Globo exibe o filme João, um brasileiro, o que é entendido como propaganda eleitoral para os candidatos do PDS. Estava-se às vésperas do início da propaganda eleitoral na televisão sob a égide da Lei Falcão que, desde 1976, quando fora decretada pelo governo Geisel, permitia aos candidatos apenas que mostrassem seu rosto e número no vídeo, como ocorreu em 1982 de 14 de setembro a 13 de novembro. (Em O Globo, setembro de 2004)

6) Realiza-se dia 13 de setembro o último debate pela TV Globo no Teatro Fênix, com os cinco candidatos: Sandra Cavalcanti (PTB), Miro Teixeira (PMDB), Wellington Moreira Franco (PDS), Lysâneas Maciel (PT) e Leonel Brizola (PDT). Perguntas de populares feitas em Madureira, Niterói, Nilópolis e Ipanema. A coordenação do debate pergunta-lhes em quem votariam se não fossem candidatos. Brizola disse que votaria em branco e Moreira Franco, que só não votaria em Miro. (Em O Globo, em 13 de setembro de 1982).

7) Brizola vai à TV Globo tratar da propaganda eleitoral gratuita e alguém lhe diz que Homero Icaza Sánchez, editor de análise e pesquisas da TV Globo, conhecido como o Bruxo e dono de empresa de prestação de serviços que tinha a emissora como cliente, possuía uma pesquisa que dava sua vitória. Era encomendada ao Ibope e indicava que 52% do eleitorado sem candidato diziam que, quem ganhara o debate fora Brizola.

O ex-governador gaúcho liga para o Bruxo. Este lhe diz que só poderia conversar com ele no sábado e convida-o a ir até sua casa. Sánchez avisa Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, que concorda com a visita.

Para acreditar na vitória de Brizola, Sánchez se baseava no forte crescimento do candidato entre os meses de agosto e setembro na pesquisa. E também em um levantamento por profissões que elaborara, onde Brizola era apontado predileto em várias delas. Antes de conversar com o candidato do PDT, Homero já tivera contacto com Miro, e em função de análises de pesquisas lhe deu sugestões para a campanha. Mas os luas pretas, grupo que orientava o candidato do PMDB, não deixou que as suas idéias emplacassem. O editor da TV Globo ainda tivera contacto com o chefe de campanha de Sandra Cavalcanti, do PDT, que rechaçou tudo o que ele propôs. Ainda, Homero Sánchez fora procurado por uma agência de publicidade que queria trabalhar com Moreira Franco. Mas, como o candidato não topou mudar de agência, o contacto entre o "Bruxo" e o candidato do PDS não se viabilizou.

A Brizola, Homero sugeriu que falasse dos aposentados em sua campanha, em um dos quatro contactos que teve com o candidato. O ex-governador gaúcho o obedeceu.

Homero lembra que, quando Brizola disparou nas pesquisas, Roberto Marinho já estava contrariado com o rumo da campanha, pois na condição de amigo de Chagas Freitas, Miro, que rompera com o governador carioca, era visto pelo dono da Globo como seu inimigo também.

Sem muito empenho na candidatura de Moreira Franco, Marinho viajou ao Japão. E passou o comando para Roberto Irineu Marinho, seu filho, que, segundo Homero, decidiu que ele e Roberto Medina elegeriam Moreira Franco de qualquer jeito. (Em Playboy de maio de 1982, entrevista com Homero Icaza Sánchez, concedida a Vitu do Carmo).

8) Em 22 de setembro, o Ibope dá Brizola na frente pela primeira vez na campanha, com 23,1% e Moreira Franco com 22,5%, em pesquisa realizada entre 16 e 20 de setembro. Em um só mês, Brizola subiu 13 pontos. O Globo atribui a seu desempenho no debate televisivo. Brizola diz que Moreira Franco tem uma prática política mais respeitável do que a de Miro Teixeira. (Em Isto é, A força do furacão gaúcho, em entrevista a Maria Helena Malta e Artur Xexéo)

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h07
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9) O governo se convenceu de que a municipalização do voto dará uma ampla vitória no país ao PDS, pois das 25 unidades da federação onde haverá eleições, só nove têm mais de 30% do eleitorado nas capitais. Entre elas, o Rio. (Em O Globo de 22/11/1982)

10) Em 15 de outubro, o Ibope afere 24,5% de intenção de voto vinculado para Brizola e 17,4% para Moreira Franco. Sem vinculação, os percentuais são de 35,3% e 21,1%. A vinculação impôs uma perda de 10 pontos nas respostas favoráveis a Brizola e de 3,7 pontos entre o eleitorado de Moreira Franco.

A pesquisa demonstra que o problema da vinculação não impede a vitória de Brizola, desmentindo previsão de Abi-Ackel, ministro da Justiça, que afirmara: A barca do Brizola vai afundar quando atravessar a baía de Guanabara. A vantagem de Brizola foi, ao contrário de seus adversários, não ter de se explicar. (Em Isto É de 20/10/1982, Brizola cruza a baía).

11) O PDT resolve formar um grupo de apuração da eleição. Chama César Maia para comandar que, com amigos forma, um sistema para fazer apuração eletrônica da eleição. Brizola acha caro e desmonta o grupo. (César Maia em depoimento anexo, julho de 2004).

12) Uma repórter da Rádio JB, que cobriu a Feira de Informática, realizada no Riocentro entre 18 e 24 de outubro, trouxe o recado de que e Proconsult tinha interesse em conversar com a Rádio para tratar de assuntos relacionados à apuração da eleição de 15 de novembro.

Procópio Mineiro, editor-chefe da emissora, conta que a Proconsult queria passar seus resultados para uma rádio, uma vez que um jornal e uma emissora de televisão já tinham combinado utilizar os números da Proconsult. O jornalista, que tinha seu esquema próprio de apuração, recusou. Respondeu ao interlocutor da Proconsult que não tinha nenhuma intenção de desacreditar o seu trabalho. E deixou a porta aberta: disse que, eventualmente, gostaria de contar com os boletins oficiais antecipados como dado de referência.

Na última semana de outubro, a Rádio procurou Joaquim Arcádio Vieira Filho, vice-presidente da Proconsult, para saber como obter os dados oficiais de modo que pudesse confirmar sua própria apuração. A solução de um terminal, instalado na Rádio JB, parecia a melhor forma para o abastecimento constante de informações oficiais à emissora. (Em Jornal do Brasil, 27/11/1982,Proconsult quis influir na apuração do JB).

13) Ao mesmo tempo, o Jornal do Brasil preparava seu sistema de apuração. Originalmente, todos os dados, candidato a candidato seriam processados. (Em Jornal do Brasil, 27/11/1982, texto citado).

14) Em 20 de outubro, Figueiredo sobe com Alzirinha Vargas, filha de Getúlio e sogra de Moreira Franco, em palanque no Rio. O presidente da República se vangloria de unir o trabalhismo getulista ao udenismo. Diz que Moreira Franco, no céu, terá os votos de seu pai, Euclydes, sua mãe e de Getúlio Vargas. (Em Isto É, Herança eleitoral, por Maria Helena Malta).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h06
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15) Fala-se em edição especial de uma revista que tinha enorme importância quando Assis Chateaubriand ainda ocupava o posto de capitão dos Associados. Diz-se também, que a principal cadeia de televisão prepara programa especial, destinado a relançar o ex-governador gaúcho como carbonário, cuja eleição alteraria o instável equilíbrio político de agora. (Em Folha de São Paulo, 21/10/1982, Tranqüilidade e medo por Newton Rodrigues. O artigo, republicado pela edição do Jornal do Brasil do dia seguinte, seria desmentido em 22/10/1982 por O Globo).

16) Um artigo denuncia a atividade de pessoas ligadas ao SNI em favor do PDS e do seu candidato, Moreira Franco. Diz que a articulação que isolou Chagas Freitas do PMDB e a exibição de armas disponíveis para atacar a maré brizolista são frutos estratégicos da ação do SNI ao orientar as forças conservadores em favor do PDS fluminense. E que, se o PDS perder, a fatura irá para Brasília. Se ganhar, será cobrada no Palácio Guanabara onde, caso seja honrada, não residirá parte da administração do Rio, mas sim em Brasília. Se não for honrada, como lhe parecia mais provável, os irregulares (agentes do SNI) ficarão na situação de quem ganhou em campo, mas perdeu na federação.

O artigo ainda condena a atribuição de articulações políticas ao SNI, dizendo que o órgão, desse modo, se candidata a tornar-se esquizofrênico. (Em Jornal do Brasil, 20/10/1982, seção Coisas da Política. Uma nova sigla eleitoral no Rio de Janeiro, por Elio Gaspari, diretor-adjunto de Veja).

17) Otoni Rocha, do PMDB de Itaguaí, onde é candidato a prefeito, a vinte dias das eleições é chamado à casa do presidente do diretório local do PDS para um encontro com o juiz eleitoral da região e dois cavaleiros de terno que vieram de cima. Eles lhe propõem que faça vistas grossas à anulação total de trinta urnas da cidade, o que permitiria o aumento de votos brancos e nulos, sem, no entanto, afetar sua eleição. Afinal, Rocha liderava as pesquisas com 5 mil votos entre 60 mil eleitores, bem à frente dos outros quatro candidatos.

Como ele seria o maior fiscal das urnas locais, era preciso que consentisse com o plano. Em troca, receberia vantagens na administração municipal. Otoni não aceita e denuncia ao partido. (Em Playboy de março 83, texto citado).

18) A quinze dias do pleito, o Ibope indica que Brizola tem 25,5% e Moreira Franco 22,3% das intenções de voto. Homero conta que as Organizações Globo, por contrato, eram obrigadas a dar o resultado das pesquisas. (Em Playboy, maio de 1983, entrevista citada).

19) Brizola cai e Moreira dispara é o título de O Globo de 30/10/1982. O jornal diz que, na pesquisa anterior, Brizola tinha 27,5% e Moreira Franco 16,7%, na escolha vinculada. Afirma também que o Ibope detectou no período, entre uma e outra enquete, que a vinculação prejudica mais a intenção de voto de Brizola do que de Moreira Franco.

20) Em 29 de outubro, Brizola está 16 pontos percentuais à frente de Moreira Franco, segundo o Gallup. Um quinto do eleitorado não se decidiu pelas siglas, mas, a despeito disso, nem Miro Teixeira nem o candidato do PDS têm fôlego para conquistar a diferença necessária para encostar no adversário do PDT. (Em Veja, 3/11/1982, Brizola não parou de crescer e está 16 pontos à frente de Moreira Franco").

21) Em 30 de outubro, o TRE notifica aos partidos que no Estado do Rio o total de urnas seria de 17.484 e o eleitorado seria de 6.260.160. (Em Playboy, março de 1983, texto citado).

22) Em 5 de novembro, Carlos Eduardo Meirelles Matheus, diretor do Gallup , diz que a divulgação das pesquisas não influencia o resultado das eleições. Brizola está 16 pontos percentuais à frente de Moreira Franco. (Em Veja, 10/11/1982, O sismógrafo das urnas, em entrevista a Almyr Gajardoni, e Brizola conquista o Rio.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h06
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23) Na primeira semana de novembro, o Jornal do Brasil procurou a Proconsult que, de modo diferente do que conduzia nas conversas com a Rádio, negou qualquer possibilidade de utilização dos boletins antes que o TRE os divulgasse. (Em Jornal do Brasil, 27/11/1982, texto citado).

24) Tadeu Lanes, gerente de sistemas e métodos do Jornal do Brasil, cancela, na quarta-feira, dia 10 de novembro, a reserva de aluguel dos microcomputadores nas firmas que se haviam comprometido a fornecê-los para o Jornal do Brasil para as apurações eleitorais (Em Playboy, março de 1982, texto citado).

25) Tadeu Lanes, de volta de Brasília, comunica aos editores do Jornal do Brasil que não conseguiu montar o projeto para as apurações, um ambicioso esquema que previa trinta microcomputadores a serem transportados em kombis acolchoadas para as juntas de apuração. De lá, já viriam para a sede do jornal, os discos com os resultados digitados para a totalização. O Jornal do Brasil só saberia que essa não era a verdade em 28 de novembro, quando Lanes, já demitido, dá uma entrevista a O Globo. ( Em Playboy, março de 1982, texto citado; e O Globo de 28/11/1982).

26) Lanes marca para essa mesma quinta-feira, 11 de novembro, um almoço com Arcádio Vieira, o vice-presidente da Proconsult. Do telefonema à redação do Jornal do Brasil teve a informação de que, talvez, pudesse obter a fita de computação da Proconsult. Como seu objetivo não era publicar os dados, mas apenas o controle dos seus números, decidiu prosseguir com seu esquema de apuração próprio. Arcádio Vieira não apareceu no almoço. (Em Jornal do Brasil, 27/11/1982, texto citado).

27) Só na sexta-feira, 12, Arcádio Vieira diz em almoço com Pery Cotta, editor de política e Procópio Mineiro, editor-chefe da Rádio Jornal do Brasil e mais alguém que acompanhava o diretor da Proconsult mas não se identificou, que o esquema de transferir informação não seria mais possível. Explica que uma moça havia contado tudo ao tenente-coronel Haroldo Lobão Barroso, o responsável pela computação na Proconsult. Mas poderia montar um sistema de disfarces através do qual a rádio receberia orientação. Lobão, como se saberia mais tarde, tinha ligações com o SNI. ( Em Jornal do Brasil de 27/11/1982, texto citado e Jornal do Brasil de 31/01/1983, Lobão da Proconsult e da Capemi").

28) Sorteado para discursar na Cinelândia, Brizola encerra campanha com comício de três horas batizado de Uma nova Briza, na noite de sexta-feira, 12 de novembro. Carrega nas tintas ao falar do poder econômico da máquina pública nas candidaturas adversárias. No comício do PDS, três pessoas que gritam Brizola, Brizola, são presas. (Em Arquive-se, documentário de Guy van de Beuque e Ângela Mascelani; Jornal do Brasil de 13/11/1983; e Veja de 17/11/1982, O grande vitorioso.

29) No sábado, 13, Arcádio. o vice-presidente da empresa Proconsult vai à Rádio JB. O jornal não toma conhecimento do fato. Quis saber como seria a apuração da emissora. Indagado pelo editor-chefe, Procópio Mineiro, e pelo editor de Política, Pery Cotta, sobre o sistema da Proconsult e particularmente, sobre sua confiabilidade, disse tudo era feito com o mais rígido critério. Antes disso, os dois radialistas tinham procurado Ardádio Vieira porque queriam saber a respeito de um comentário que corria no meio político, segundo o qual a empresa teria feito um acordo com a Globo para entregar-lhe o resultado antes de fazê-lo ao TRE. Arcádio Vieira não negou contacto com a TV Globo, mas também não afirmou que existisse um acordo com a emissora de televisão. (Em documentário Arquive-se, já citado; e em depoimento de Pery Cotta, em 2004)

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h06
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30) Depois de freqüentes chamadas na TV Globo, que burlam a legislação eleitoral, o presidente João Figueiredo é o astro principal da Festa da Abertura, no domingo, 14 de novembro, em um parque próximo ao Maracanã, na Quinta da Boa Vista. Reparte o palco com Alcione, The Fevers, a bateria da Portela, a Orquestra Sinfônica Brasileira e muita queima de fogos.

É o encerramento da campanha do PDS disfarçada. Dona Dulce, a primeira-dama, é apresentada pelo por Sérgio Mallandro, como uma tremenda gatinha. É vaiada no palco, às seis e meia da tarde. Figueiredo discursa, ganha alguns aplausos, mas interrompe a fala quando a multidão começa a gritar Brizola, Brizola!. Ele não consegue retomar a palavra e Moreira Franco assume o microfone, diante de vaias ensurdecedoras. De lá, Figueiredo segue para a Gávea Pequena com seus ministros, com os quais comenta Foi fogo.(Em Veja de 17/11/1982, O choque da vaia na festa do Rio de Janeiro).

31) De madrugada, uma voz de mulher liga para Brizola no apartamento pela primeira vez. Ela sempre lhe fornecia os dados quentinhos das pesquisas realizadas pelo SNI sobre as eleições do Rio. Desta vez, informa sobre um plano de sabotagem na totalização do pleito. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

32) Na mesma madrugada da véspera da eleição, César Maia, do PDT, recebe telefonema de Cibilis Viana, secretário-geral do partido, pedindo para passar pela casa dele às 5 horas, pegar Cr$ 5 mil (não dava para nada) e montar aquele seu sistema de apuração paralela Lá, Maia liga para o programador, seu amigo, que estava em Petrópolis e gasta o dinheiro todo para vir ao Rio de táxi. Montaram então, o esquema de apuração paralela do partido: no centro, chegariam os boletins das Juntas Eleitorais; em Botafogo, seria feita a digitação dos dados, e, em Ipanema, eles seriam processados na sede da imobiliária de Sergio Dourado. Maia acha que o telefonema de madrugada tinha sido fruto de informações que Brizola recebia das mesmas fontes de informação, de origem militar, que o jornalista Elio Gaspari tinha em seus artigos. Agora, as informações estavam sendo confirmadas. O que justificava a decisão de se fazer a apuração paralela. (Em depoimento anexo de César Maia, 2004).

33) Editorial de capa de O Globo recomenda voto em Moreira Franco no domingo, véspera da eleição. Diz que Brizola tem um encantamento pela retórica fácil do oposicionismo generalizado. Cita seu passado incendiário como dado de personalidade, atesta seu mau desempenho administrativo com o fato de não ter feito o sucessor no Rio Grande do Sul. Aproveita uma declaração desbocada de Darcy Ribeiro para mostrar que o partido de Brizola não tem quadros para constituir o governo, só tem candidatura. Já Moreira Franco é descrito como alguém com comprovada capacidade administrativa _ a qualidade-chave para a escolha, segundo o editorialista. O jornal diz que no Rio, PDS e PMDB equilibram as forças políticas do Estado. (Em O Globo de 14/11/1982).

34) O Globo anuncia que fará a maior cobertura eleitoral da história: 25 mil pessoas, 14 jornais e 24 emissoras. No Rio, 700 pessoas terão condições de prover os resultados antes mesmo do TRE, com equipes se revezando em cada uma das 86 juntas apuradoras da capital e das 151 do interior para enviar os dados aos cinco computadores do Centro de Processamento de Dados da TV Globo. Duas centrais telefônicas receberão os dados de qualquer ponto do estado. E afirma que os partidos acompanharão sem dificuldades a apuração e conhecerão os resultados antes do anúncio do TRE, previsto para sábado, dia 20. (Em O Globo de 14/11/1982).

(Clique aqui e veja o blog completo)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h06
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15 de novembro de 1982, segunda-feira, dia da eleição

1) Em Caxias, oito eleitores são presos com títulos falsos na 79ª zona eleitoral. (Em Playboy de março de 1982, texto citado.)

2) Brizola vota no Colégio Brasileiro de Almeida em Ipanema e leva 120 minutos para atravessar 50 metros do carro à urna. Na saída, festa nas ruas. Os demais candidatos não tiveram festa. (Em Playboy de março de 1983, texto citado.)

3) O presidente do TRE, Marcelo Santiago Costa, anuncia, às 18 horas do dia da eleição, que 6.292.265 eleitores votaram (32.105 a mais do anunciado aos partidos, equivalentes a uma diferença de 4,8%) em 17.560 urnas (76 a mais) em 15 de novembro, em pleito realizado em perfeita ordem. (Em Playboy de março de 1983, texto citado.)

4) Fiscal do PDT presencia urnas saindo abertas dos locais de votação. (Em Arquive-se, documentário citado)

5) Cédulas rubricadas em branco são encontradas nas ruas da periferia da capital fluminense. ( Em Playboy de março de 1983, texto citado)

6) Claudia Silveira vota na 214 seção da 17 zona, no Leblon e quando chega em casa com a caneta que ganhara na porta da seção para votar, descobre que a tinta desaparecia ao ser usada de novo. (Leia íntegra do discurso do senador Saturnino Braga, do PDT, no Senado, em 21/11/1982) (Em Playboy de março de 1983, texto citado.)

7) Brizola assiste ao anuncio da última pesquisa Ibope antes das eleições na casa de Homero Icaza Sánchez. Brindam juntos ao assistirem na TV Globo ao programa Prognóstico Eleitoral, que anuncia a vitória do candidato do PDT por 31,3% contra 26,8% de Moreira Franco. A fonte é o Ibope. No dia seguinte, a pesquisa está na manchete dos jornais cariocas. ( Em Playboy de maio de 1983, entrevista citada).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h05
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Discurso do Senador

Discurso do senador Roberto Saturnino Braga em 23/11/1982 na Tribuna do Senado Federal.

Sr. Presidente, Srs. Senadores.

Como é do conhecimento geral dos brasileiros, o PDT levou a melhor nas eleições do Estado do Rio de Janeiro e elegeu o governador Leonel Brizola. Resultado esse, Sr. Presidente, fruto de uma campanha que há de ficar na história daquele Estado, na memória de todos os fluminenses e cariocas, pela desproporção de recursos e meios com que enfrentamos os adversários. Creio que não terá havido, em toda a história política do País, uma desproporção tão grande em confronto, numa eleição de governador.

Levamos a melhor. O povo escolheu Leonel Brizola, não obstante as tentativas, por vezes bem sucedidas, de fraude, que nos levaram uma boa parcela de votos. Vamos vencer, ao final das apurações, com uma diferença de mais de 200 mil votos.

E quando me refiro a fraudes, Sr. Presidente, quero dizer que temos elementos de convicção para afirmar – e o faço assumindo a responsabilidade desta afirmação – que chegou a haver casos de extrema gravidade.

 

Houve um caso em Nova Iguaçu, em que o recinto onde estavam guardadas as urnas foi invadido. Há testemunhas do fato, que ocorreu com a cobertura da polícia. A guarnição da Policia Militar, que guardava as urnas, foi trocada para que pudesse a nova guarnição permitir a entrada de pessoas, que foram vistas chegar num carro particular, e com traje civil, entraram no recinto e lá permaneceram por cerca de 3 horas.

E o resultado foi violação de urnas e anulação de um grande número de votos do PDT, com uma caneta de tinta que era a mesma, com duas caligrafias semelhantes, constatando claramente a ocorrência daquela fraude. O que levou o nosso candidato a dar uma entrevista declarando que só a fraude poderia lhe tirar a eleição.

Mas, isso não foi tudo. Enfrentamos, também, na apuração, coisas extremamente preocupantes para nós: do que se passou na divulgação dos resultados no Rio de Janeiro também não há precedentes, pelo menos na história dos últimos tempos. Não há precedentes de uma manipulação da apresentação dos resultados, não há precedentes de uma campanha de desinformação da opinião publica a respeito dos resultados da eleição como esta que foi feita pela Rede Globo, pelo Sistema Globo, Rede Globo de Televisão, Rádio Globo e jornal O Globo.

O que esse Sistema Globo fez no Rio de Janeiro é uma vergonha para o jornalismo brasileiro; é uma vergonha porque computava só os resultados que favoreciam ao candidato do PDS e guardava nas gavetas, os boletins que favoreciam ao candidato do PDT, para que o candidato do PDS pudesse sempre ser apresentado na frente.

Distorciam as proporções, nas diversas regiões, dos votos que iam ser apurados, para que pudessem fazer projeções que davam, praticamente, um empate ao resultado final, uma vitória que poderia ser vitória ou derrota de Leonel Brizola por 4 ou 5 mil votos. Eu vi isso, durante dias seguidos, de propósito.

Não pode ter havido um simples equívoco durante tanto tempo e, afinal de contas, cometido por uma equipe ato numerosa. Não! Havia um propósito, e felizmente esse propósito se frustou. Eu não sei qual seria esse propósito, não tenho idéia, não quero especular sobre ele, mas havia, porque seria inconcebível tornar-se o que foi, feito em matéria de desinformação e distorção pelo Sistema Globo, como um mero equívoco ou algo que tenha ocorrido por uma coincidência. Enfrentamos isso também, Sr. Presidente.

Mas, agora, ainda surgem, depois de tudo isso, algumas declarações de chefes militares que nós não podemos deixar de lamentar, Sr. Presidente.

Não quero me estender sobre esse assunto, não quero polemizar sobre estas declarações que tenho lido nos jornais, a culminar com a declaração, que li na imprensa do General Euclydes Figueiredo.

Só quero dizer, Sr. Presidente e Srs. Senadores, que a Nação está observando tudo isso. Que a sociedade brasileira está observando e está percebendo onde está a boa intenção e onde está a má intenção. A Nação está percebendo bem de onde vem a serenidade e de onde vem a proporção. O povo deste País está sabendo muito bem onde está o bom senso e onde está o disparate.

Era o que tinha a dizer, Sr. Presidente. Muito obrigado.

 



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h02
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Discurso do Senador

Discurso do senador Roberto Saturnino Braga da tribuna do Senado Federal em 25/11/1982

O Sr. Roberto Saturnino (como Líder, pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador)

Sr. Presidente, Srs. Senadores:

Finalmente, o meu nome retorna às paginas de O Globo, numa evidência que chega até a me assustar, Sr. Presidente. Seria a glória aparecer na primeira pagina de O Globo, na terceira pagina, na quinta pagina, ser mencionado, ao que parece, no jornal da TV Globo, depois de quase vinte anos de exílio, depois de quase vinte anos de um boicote rigoroso cujas razões, creio que todos sabem, mas não custa recordar.

Era eu um jovem deputado e fui escolhido para presidir uma CPI que investigava as operações de contrato da Rede Globo com o grupo Time Life. Os trabalhos da Comissão chegavam ao fim e a sessão legislativa também, se aproximava do final, quando recebi um desses mensageiros com um recado do Sr. Roberto Marinho, fazendo um apelo para que eu prorrogasse um pouco os trabalhos da Comissão, para que a sessão legislativa se encerrasse sem a apresentação das conclusões e, naturalmente, sugerindo que eu teria o beneplácito eterno do poderoso Sistema Globo.

Eu, jovem deputado, tive a ousadia de repelir esse recado e esse mensageiro. Eu ganhei, então, o exílio. Ganhei a execração eterna e permanente do Sistema Globo.

Mas, Sr. Presidente, na verdade, esse boicote nunca me atingiu. Depois disso, elegi-me duas vezes. Senador, pelo meu Estado, sem ter o meu nome mencionado nunca, em hipótese alguma, em qualquer dos órgãos do Sistema Globo, o que revela por si só, a pouca influência que esta rede, tida como poderosa, tem na informação da opinião pública, pelo menos do meu Estado.

Mas, hoje, Sr. Presidente, como eu dizia, apareço na primeira, na terceira e na quinta pagina de O Globo. Na primeira, no editorial, recebo ataques, ataques pessoais que também não me atingem.

Sr. Presidente, Srs. Senadores,

Uma organização, um conglomerado de empresas que chega ao seu apogeu valendo-se de recursos de origem ilícita, como esse do contrato Time-Life. Porque é claro que aquela comissão, a que me referi, chegou às suas conclusões, aprovou um parecer magistral do saudoso e então deputado Djalma Marinho, onde se caracteriza a ilegalidade das operações da Globo com o Time Life.

E foram exatamente esses recursos que propiciaram o grande desenvolvimento da Rede Globo e o apogeu que aí está, fora favores mil do Estado, fora favores mil do Governo, que a rede Globo recebe, recursos para a Fundação Roberto Marinho e isenções fiscais de varias naturezas.

Foi desta forma, e fazendo este tipo de jornalismo vergonhoso, que ficou caracterizado na semana passada, que este Sistema chegou ao apogeu. Mas, Sr. Presidente, felizmente para mim, sem idoneidade para me atacar, seja a mim, seja a qualquer pessoa, porque, antes de tudo, para se fazer certos tipos de acusação é necessário ter um mínimo de idoneidade, um mínimo de substrato da natureza moral.

Mais adiante, na terceira pagina, O Globo pretende me lançar um repto, para que eu prove as acusações, prove a evidência que grita por si mesma. E devo dizer, Sr. Presidente, que toda a ira vem exatamente do fato de eu ter revelado uma verdade, revelado esta evidência que o povo já havia observado por si mesmo. A opinião pública do meu Estado já havia observado, era comentário geral, ouve nota até do Sindicato dos Jornalistas a esse respeito.

Mas faltava uma declaração formal, e foi o que fiz aqui na tribuna, porque achei que era do meu dever fazê-lo em beneficio do jornalismo brasileiro, em benefício da verdade política deste País.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h01
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O que eu disse, sustento. O que eu disse, repito e sustento: Houve, efetivamente, distorção e distorção propositada dos dados da apuração para mostrar ao povo do meu Estado que a eleição ainda estava indefinida, que havia uma hipótese de vitória para o candidato do PDS, quando todo mundo já sabia que aquilo não era verdade.

Com o argumento de que essa distorção teria sido resultado de uma incompetência na coleta dos dados, que é apresentada na pagina 5, em uma enorme matéria assinada pelo Sr. Iram Frejat, mostrando que, na verdade, não houve má fé, houve erro na coleta, uma certa incompetência na coleta dos dados, que teria resultado naquela apresentação deformada. A mim, não convence.

Que o Sr. Iram Frejat tenha sido iludido pelos seus superiores, que lhe traziam aqueles dados, eu aceito, mas que não haja, que não tenha havido um propósito, uma intenção de deformar, isto definitivamente nem eu, nem ninguém aceita, Sr. Presidente, porque não é possível; na tarde do segundo dia de apuração, na tarde do dia 17, na quarta-feira, nos já tínhamos dados provenientes das diversas regiões do Estado, do interior, da periferia e da capital, que nos davam proporções, amostragem suficiente para se fazerem as proporções, como fizemos as projeções que apontavam claramente a vitória de Leonel Brizola sobre Moreira Franco, numa ordem de 4 a 5% dos votos apurados, isto é, com uma diferença mínima de 200 mil votos.

A proporção que fizemos, o PMDB fez e o Sr. Miro Teixeira reconheceu a vitória de Leonel Brizola; o PTB fez e o Sr. Paiva Muniz e o Senador Hugo Ramos passaram telegrama reconhecendo a vitória; o Jornal do Brasil fez e apresentou a sua edição matutina da quinta-feira, exatamente com esses percentuais dando uma diferença de 4 a 5% para Leonel Brizola. Enfim, todas as outras emissoras: a Rede Bandeirantes fez um excelente trabalho, a Rádio Jornal do Brasil, a Rádio Tupi, as emissoras, os jornais, os Partidos, todos tinham os resultados.

No entanto, a Rede Globo teimava e assim procedeu da quarta-feira até domingo, apresentando projeções baseadas em percentuais falsos, porque a apuração já se processava então, no interior, na periferia e na capital, mostrando que havia um virtual empate e Leonel Brizola poderia eventualmente vencer, mas com uma diferença de 4 a 5 mil votos, se chegasse a ocorrer esta vitória.

Assim procedeu a Rede Globo, para indignação geral de toda a população do Estado do Rio de Janeiro, que observava aquele procedimento e para indignação também dos jornalistas do meu Estado, que elaboraram uma nota protestando contra aquele procedimento.

De forma, Sr. Presidente e Srs. Senadores, que eu não tenho nada o que retificar ao meu pronunciamento, não tenho nada a acrescentar. A evidência é tão grande que dispensa maiores comentários e dispensa acréscimos de qualquer data.

É só recolher as edições dos jornais daquela semana de O Globo, do Jornal do Brasil. Infelizmente, não sei se há gravações para testemunhar, para documentar isto. Mas o fato é que todos se lembram, nas apresentações daquele "Show das Eleições", na TV Globo, que o Chefe do Departamento de Processamento de Dados apresentava aquelas projeções, e mais: incorreram ainda na falsidade de declarar – porque eu ouvi isso – que a Assessoria do PDT dava uma vitória para Brizola, de apenas 7 mil votos.

Eu ouvi isso, esta notícia falsa, veiculada pelo jornal, aquele "Show das Eleições", quanto à nossa projeção. E nós declarávamos a todos os técnicos da Globo que nos consultavam que a nossa projeção era de uma vitória de 200 mil votos. Pois eles levaram ao conhecimento público, através do seu jornal que a própria Assessoria do PDT projetava uma vitória de apenas sete mil votos.

Não, Sr. Presidente, isto não pode ficar sem aquelas observações, aquelas denúncias que fiz aqui ontem e que repito hoje: foi uma vergonha para o jornalismo brasileiro o procedimento do Sistema Globo na apuração, durante a semana passada.

Nós sabemos muito bem que isso tem razões profundas, esta subserviência, esse serviço que o Sistema Globo sempre prestou ao governo em troca dos favores gordos que recebe. E o fato é que caracterizou bem o tipo de jornalismo que faz esse Sistema. Agora, os seus ataques e os seus reptos não me atingem. Essa empresa e esses senhores não têm autoridade moral nem para me atacar, nem para me lançar desafio qualquer. Desconheço e não tomo qualquer conhecimento, apenas repito tudo o que disse e sustento que é uma verdade que não podia ficar sem ser revelada.

Era tudo o que tinha a dizer Sr. Presidente.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 14h00
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Veja a seguir reprodução de trechos de entrevista de Homero Sánchez à revista "Playboy"

 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h58
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h57
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h56
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h56
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h55
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h55
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Veja a seguir reprodução de trecho da reportagem "Os 15 dias de sabotagem para liquidar Brizola", de Hamilton de Almeida Filho e Ricardo Gontijo, na revista "Playboy"

 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h54
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h52
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h52
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A apuração paralela do PDT

O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia era um jovem quadro do PDT em 1982. Coordenou, então, a apuração paralela do partido de Leonel Brizola.

Economista, ele foi peça-chave para embasar os reclamos do partido junto ao Tribunal Regional Eleitoral quanto aos erros na totalização dos votos realizada pela Proconsult. Mais de duas décadas depois, Maia, hoje candidato à reeleição pelo PFL, dá aqui sua versão dos fatos acontecidos então.

"O PDT coletava os mapas oficiais nas juntas e no escritório de um amigo do Brizola, o gaúcho Rafael Peres Borges, presidente da PDRio, na Av. Presidente Vargas, no centro da cidade. Lá, fazíamos uma amostragem com base em nossas pesquisas anteriores e projetávamos um resultado. Mandávamos os mapas para digitação em Botafogo, na Sysin, do Eduardo de Meneses. E, depois, levávamos todos para processamento em Ipanema, no escritório do Sérgio Dourado."

"Isso implicava uma certa defasagem de tempo porque a estrutura era pequena. Já processados, os dados resultavam em listagem e não batiam com o que a TV Globo nem o que o TRE divulgavam. Teoricamente, o Tribunal poderia ter resultados muito mais rapidamente do que nós, no partido. Mas acontecia exatamente o contrário. Ele é que foi divulgando muito mais lentamente."

"Quando o PDT já divulgava dados de apuração mesmo (e não projeções decorrentes das amostras extraídas dos mapas antes da digitação), o Arcádio Vieira procurou um analista nosso e começou com a investida do Diferencial Delta. O nosso analista ficou impressionado. O Arcádio Vieira me telefonou e disse que eu não podia continuar com aquelas projeções, porque estavam erradas, não consideravam a margem correta de votos nulos e em branco. Eu lhe respondi que não tinha projeções, mas sim listagem de apuração, urna a urna, e que logo eu teria uma relativa ao total delas. E que aí, não cabia equação nenhuma."

"O Diferencial Delta não era conceito matemático, mas sim a idéia de que a ignorância do eleitor da Baixada provocaria nulos e brancos permitindo transferência de votos a Brizola. Ele estimava o efeito em 25%. O resultado era que Moreira Franco ganharia por uma diferença de 70 mil votos, a mesma que o próprio Moreira Franco diria pouco depois."

"O PDT detectou uma passagem errada de resultados em algumas zonas eleitorais. Em uma delas, cujo resultado já estava em um patamar estabilizado, embora não concluída totalmente a apuração, havia alterações nas colunas dos votos nulos e na de Brizola, enquanto que as de Moreira Franco se mantinham intactas. Apresentamos representação ao TRE, que impressionou o desembargador Costa, mas ficou só nisso. Outra representação, enviada logo depois, acusava o mesmo erro em outra junta eleitoral e levou o TRE a fazer uma acareação entre a Proconsult e o PDT".

"Lá estava o coronel Lobão, todo mundo. Nessa acareação pedimos para ter acesso a todos os mapas originais de cada seção da zona eleitoral para poder conferir com os do partido e fazer a conta novamente. O Lobão alegou, então, uma pane na programação do computador para não poder fornecer o mapa original. Diante da ordem do juiz para trazer os mapas originais, disse que o problema na programação implicava ter que contar tudo de novo. Foi quando o TRE suspendeu a apuração, até que a Proconsult entregasse o mapa original urna a urna ao PDT."

"Os mapas foram entregues e aí, todos os números começaram a bater, tanto os da zona em questão como os da apuração da eleição, dali em diante. O problema com os deputados foi mais complicado: o candidato José Colagrossi me disse que os juízes estavam deixando de eleger quem estava eleito. Queria recontar o original de cada urna. Eu disse que não podia conferir os mapas para todos e decidi conferir o caso de dois. Ele escolheu então, que fizéssemos Nova Iguaçu, onde uma candidata de nome Luci, cujo sobrenome não me recordo, tinha sido roubada em 20 mil votos e o prefeito Leone estava sendo derrotado, quando na verdade tinha sido eleito."

"Em resposta ao requerimento, o TRE me disse para o PDT levar os mapas, que eles aceitavam a recontagem. Levei e o TRE ratificou os cálculos do PDT, salvando os candidatos da derrota. Imagine quantos outros candidatos não tiveram a mesma sorte... Acho que foram muitos. A razão de isso acontecer só poderia ser explicada com acesso ao programa-fonte da Proconsult. Mas eles já tinham deletado o programa-fonte durante a pane referida."

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h51
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Onde houve fraude

“Houve fraude na totalização para governador e na apuração para os cargos proporcionais. Mas neste último caso, sempre houve fraude. Sempre houve fraude no papel. Sempre. Mas a fraude não é definitiva. Deputado fulano de tal 14, lança 12 e passa mais três para cá. Fulano de tal, 10, passa 13. Mapeou acabou.”

“Sempre houve porque no caso do proporcional a fiscalização é muito mais complicada para os fiscais. È muito mais difícil algum dado cantado errado passar pelo fiscal, quando se apura votos para cargos proporcionais, que não são coletados seguidamente, ao contrário dos votos para este ou aquele parlamentar.”

Brizola e suas fontes 

 “O mais grave de tudo já acontecia durante a campanha. O Brizola recebia informações que batiam com as que o (Elio) Gaspari noticiou em outubro, sobre a presença do SNI na articulação política do PDS e outras atividades de campanha. Por essa razão, no dia seguinte à publicação matéria, ele me pediu através do Cibilis (Viana, secretário-geral do PDT, que montasse uma apuração paralela. As fontes de Gaspari, eu suponho que fossem  as mesmas de Brizola.”

 

 

 O Brizola sempre foi muito bem informado e sempre teve fontes militares. O coronel Lobão era o Chefe do Centro de Processamento de Dados do Exército. Um tempo brabo. Ele operava informações dentro do CPD do Exército. E foi esse quem a Proconsult contratou, terceirizou”.

 

“Muitas vezes, a pessoa tem informação do outro, do conhecido, do irmão, do primo, do amigo.... Ás vezes, a fonte do Brizola podia não ser a primária, mas era segura. Ele teve informação de que haveria fraude, senão não me mobilizaria na véspera. Já teria feito o esquema de apuração paralela há muito tempo ou não faria nunca.”

 

“Para mim, o desembargador Marcelo Santiago Costa, presidente do TRE, nada sabia quanto à tentativa de fraude. Não me esqueço da expressão dele naquele dia, pondo a mão da cabeça e dizendo “Meu Deus, o que é isso! Não pode ser!”. No máximo, alguma assessoria do Tribunal, que tinha muitas...pode ter agido de má fé”.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h49
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As contas da Globo

 

Me pediram para fazer uma auditagem comparada dos dados da TV Globo com os nossos. Nenhum dado que o Sistema Globo publicou deixou de ser dado real do TRE. Eles não tiveram nenhum tipo de dado que não tivessem sido copiado do TRE. O Brizola me chamou indignado. Disse:“César, isso é conta de chegar. É política. Como é que você pode se envolver dessa maneira??? Isso não é tecnocracia, César?”. Ele foi muito duro comigo. Eu disse: governador, eu fiz uma auditoria e disse o que eu vi. “Mas César você...”, daquele jeito dele, falava muitas vezes chorando, ....”. Mas eu disse o que comprovei.”

 

“Eu me coloco no lugar do executivo. Tem aqui em cima, um gestor da fraude que tem que atuar através do TRE. E ele precisa imobilizar os meios de comunicação. Então, ele pode ter dito: não apure. Fique com os dados do TRE. Essa é uma eleição muito confusa. E alguém pode ter dito: vamos sair dessa. Não vamos apurar esse troço, pelo amor de Deus!. isso é uma eleição complicada, é difícil, vocês vão se meter em uma eleição que vai ser decidida por dez mil, trinta mil votos. O que pode acontecer em matéria de imagem... Na eleição seguinte, em 1985, a Globo fez uma grande cobertura.”

 

“A primeira vez que entrei na Globo, entrei acompanhando o Brizola para uma entrevista de estúdio que ele deu para Armando Nogueira e todos os funcionários, no corredor, aplaudiam o Brizola. Eu me lembro que Ana Maria, minha irmã, disse assim: se você encontrar o Léo Batista pode dizer: você votou na Sandra, hein! Quando eu passei, eu disse o que ela mandou. Ele: não, não , não! Depois eu contava rindo essa história... Então, eu não tinha nenhum contacto com essa gente. Era um professor modesto da universidade, um técnico da Klabin, não conhecia ninguém. Só passei a conhecer as pessoas depois que fui secretário de Fazenda. Em 85, houve a campanha eleitoral e a Globo ia fazer a apuração paralela e me chamou para fazer auditoria do sistema dela. E eu trabalhei na Globo durante a apuração, coisa que o Brizola também não gostou”.

 

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h48
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Por trás da fraude

 

“Por que razão o Brizola se indignou? Ele me chama na casa dele, onde estava um grupo grande, e pergunta: existe alguma possibilidade de que os mapas do interior tivessem chegado na frente do que os da capital? Eu respondi que, na nossa apuração, entrava tudo junto. Não tem como dizer o interior entrou, a capital não entrou. Na hora que o mapa sai para nós, sai para eles. Na hora em que eles fixam o mapa, o deles já está sendo enviado.  Aí o Brizola ficou indignado, porque viu que estavam manipulando a entrada dos votos. Agora, quem estava manipulando, era a Proconsult. Ela fazia isso para a gente ter a sensação da derrota.”

 

“O partido deixou de se interessar em esclarecer a fraude desde que a vitória de Brizola ficou assegurada com a suspensão da apuração e o fato de que na retomada, os dados estavam dando a sua vitória. Na hora que veio a vitória, ninguém quer saber. Eu era quadro político...imagine!”

 

Se você colocar o Brizola como governador e avaliar o que teria sido o processo de redemocratização sem o Brizola governador, o que teria sido o movimento das diretas _ com o Moreira Franco aqui, será que teríamos uma concentração de um milhão de pessoas que foram 600 mil aqui na Candelária nas Diretas? “

 

“Tem que avaliar o que significa o triângulo das Bermudas completo, com Montoro, Tancredo e Brizola, sendo que Brizola era sempre o mais combativo. Se imaginar que o processo de redemocratização poderia ter passado por um período Maluf e que isso poderia ter conseqüências na frente, diferentes das que tivemos em termos de Constituinte e da redemocratização institucional que o país teve, que foi profunda...  Só se você trabalhar com a hipótese de que tanto fazia Moreira ou Brizola, para o processo de redemocratização, aí será certo dizer que ele salvou a eleição dele.”

 

“Vamos imaginar que a agregação que o Brizola fez não tivesse sido feita, inclusive de votos. Fui ao Palácio Guanabara junto com o Juruna e o Aguinaldo. Brizola conseguiu mudar o voto do Juruna, o do Aguinaldo não. O que significaria a mobilização da esquerda toda contra o Tancredo sem Brizola governador, falando na rua?. Isso levaria o Tancredo ao colégio eleitoral? Levaria a uma tendência de vitória que permitiria o PDS se partir ao meio?  Criando-se o PFL ou não? Se a gente imaginar que o processo de redemocratização passou pela vitória do Brizola, certamente ele evitou um golpe na democracia.”



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h48
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"A VERDADEIRA APURAÇÃO DO VOTO DO ELEITOR NUNCA EXISTIU"

O jornalista Pery Cotta foi quem concebeu a valente cobertura feita pela Rádio Jornal do Brasil nas eleições do Rio de Janeiro em 1982. Uma mesa comprida, 40 repórteres e 20 estagiários, centenas de fichas telefônicas, pouco mais que uma dezena de calculadoras, trabalho sem hora para terminar.

A cobertura explodiu os índices de audiência da emissora, calçou as bases para as projeções feitas pelo Jornal do Brasil e, encerrada quando 70% dos votos haviam sido apurados, lavrou um tento inesperado: os resultados do TRE praticamente empataram com as projeções feitas a partir da apuração da equipe de jornalistas da Rádio JB. Suas experiências prévias na cobertura das apurações das eleições de 1966 e 1970, respectivamente no Correio da Manhã e em O Globo, o credenciavam para a tarefa, como editor de política Rádio JB em 1982.

Em 1997, Cotta escreveu "Calandra – O sufoco da imprensa nos anos de chumbo", em que relata os limites impostos ao Correio da Manhã, o principal jornal político da época, e traz à luz fatos novos sobre o caso Para-Sar, no qual o governo federal, às vésperas do AI-5, previa jogar no mar, de helicóptero, lideranças políticas da oposição e assassinar estudantes. Abaixo, suas conclusões, 22 anos depois, daquilo que foi o caso Proconsult.

A Fraude

"Um dos fatores básicos que facilitaram a idéia de promover uma fraude foi o fato de o voto ser vinculado, pela primeira vez, naquela eleição, a primeira para governador do Estado no regime militar pós-AI-5. A fraude consistia em jogar votos em brancos e nulos na conta do Brizola, de modo a provocar um batimento de cerca de 500 mil votos. Isso, naquela época, era voto à beça. Suficiente para derrotar um candidato."

"Os votos anulados de todos os candidatos a governador eram contabilizados como sendo votos anulados a serem deduzidos da conta do Brizola. O argumento, falso, era o de que o eleitorado do Brizola era ignorante e não sabia votar. Mas o que aconteceu foi que, na Baixada Fluminense e nos bairros mais pobres do Rio de Janeiro, onde os fraudadores apostavam mais que isso aconteceria, deu-se o contrário. Houve ali, um voto muito consciente. Os eleitores votaram direitinho exatamente onde eles pensavam que todos iam errar. Erros, você teve na zona sul do Rio de Janeiro, em Copacabana, no Leblon, onde a porcentagem de nulos era maior. Acho que foi assim porque o voto no Brizola era ideológico".

"O mecanismo da fraude era o seguinte: tinha uma parte da contabilização dos votos, que era feita pela Proconsult e, depois, esses dados eram jogados no computador. Mas antes de irem para o computador, passavam pelo SNI."

"Na época, havia uma questão eleitoral braba para o governo federal que explica porque era importante para ele que o Brizola perdesse a eleição no Rio. O governo estava dividido, o que resultava em um candidato à presidência da República do SNI e em um outro, que era o Andreazza (Mário, ministro do Interior). De qualquer modo, era importante ter uma base no Rio para ambas as alas. E, como se sabe, no episódio de 1982, havia dois coronéis do SNI na Proconsult. Eu disse isso em meu depoimento à Assembléia Legislativa que abriu uma CPI, presidida pelo deputado estadual Lizst Vieira, à época da ala verde do PT, mas que não deu em nada."

O trabalho da Rádio JB

"A Rádio JB trabalhava com uma mesa comprida, no meio da redação. Nela, vinte pessoas atendiam ao telefone. Quarenta repórteres cobriam a eleição nos municípios do interior e na cidade do Rio. Vinte deles, copiavam os mapas na hora em que eram afixados nas juntas apuradoras da capital. Os mapas do interior vinham através de parcerias, pois a Rádio contava com o apoio de outras emissoras. O que facilitava é que tínhamos decidido só apurar votação para governador e senador. E para a legenda, a fim de que pudéssemos projetar a votação para Câmara Federal e Assembléia Legislativa. Foi isso que eu propus quando fui contratado e Procópio Mineiro, editor-chefe da Rádio, me incumbiu da tarefa de planejar a apuração paralela."

"Os dados das urnas eram colocados em ponderação com base no perfil das zonas. Só assim, conseguimos fazer os cálculos da apuração e projetar direito. Quando chegamos a 70% dos votos apurados, paramos com a apuração paralela. Isto porque, durante toda a apuração havia mapas rasgados e rasurados, faltando pedaço, que não permitia a conclusão. A Bandeirantes retransmitia nossos dados e, várias vezes, nós fomos entrevistados para interpretá-los".

A Rádio e o sistema JB

Durante a apuração, Arcádio Vieira, sócio da Proconsult, ligava insistentemente para Procópio dizendo que estavávamos trabalhando com dados errados. Um dia, o Procópio me apertou. Cheguei em casa de madrugada, voltando da emissora, e logo tive que retornar à Rádio para uma reunião com a diretoria do Jornal do Brasil. Dela, participou o Tadeu Lanes, que gerenciava sistemas no jornal. Ele invocou os votos nulos e em branco de Brizola para dizer que os dados da Rádio estavam errados. Eu contra-argumentei com meus dados. A direção do Sistema Jornal do Brasil decidiu manter a apuração paralela e, a partir daí, o jornal começou a dar projeções em cima dos números da Rádio."

"Lembro-me de que, no primeiro dia de apuração, o Jornal do Brasil não publicou quase nada. Deu os dados da Rádio e não fez projeção. Os primeiros votos eram do interior porque a apuração, em suas cidades pequenas, terminava mais rápido. Um dia, o Saturnino Braga, que era candidato ao Senado Federal pelo PDT me disse que, quando a Rádio, no primeiro dia, deu o Moreira Franco na frente, ele quase morreu do coração."

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h47
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Os partidos

"Quando nós descobrimos a fraude na Rádio JB, eu propus que ela fosse mostrada a todos os partidos. O Miro Teixeira aceitou e imediatamente reconheceu a vitória do Brizola. Cobrei no ar, do Moreira Franco, uma posição a respeito. Ele se esquivou dizendo que isso era uma questão da Justiça Eleitoral. Já o César Maia não queria se convencer da fraude. Ele estava na do Arcádio, no dia em que fomos falar com ele. E mais tarde, se fez de autor da descoberta. Depois que a fraude foi obstada e os resultados começaram a apontar o Brizola como novo governador, não houve interesse de mais ninguém em apurar o caso devidamente. O PDT não queria mais incomodar o governo federal nem o sistema".

Conversa com Arcádio Vieira

"Fomos conversar com Arcádio Vieira, da Proconsult, ainda durante a campanha, porque no meio político circulava que a empresa fizesse um acordo com a TV Globo para entregar-lhe o resultado antes de passar para o TRE. A Rádio JB queria que a Proconsult não passasse para ninguém. Arcádio não negou o contacto com a TV Globo e disse que não ia passar nada para a Rádio JB. Mais tarde, ao depor no inquérito da Polícia Federal, ele inverteu a história: disse que eu e o Procópio (Mineiro, editor chefe da Rádio JB) tentamos suborná-lo."

Globo

"Não posso garantir se o processo de envio dos dados do Arcádio para a TV Globo funcionou. Dizem que a TV Globo trabalhou com dados do jornal, mas não sei se é verdade. ATV Globo não tinha apuração paralela. E o jornal só montou um esquema de acompanhamento eleitoral.

Coincidência suspeita

"Refleti muito depois do episódio da Proconsult e, hoje, acho que a verdadeira apuração não existiu. Houve fraude antes de as urnas serem abertas nas juntas. Votos eram anulados com a inscrição "Abaixo a Ditadura" inscrita sobre eles e urnas foram violadas para trocar votos em Brizola por votos em branco. Só não houve fraude na junta apuradora. Mas houve fraude também ao longo de todo o processo depois da afixação do mapa. Tanto na digitação como na totalização, pois no programa da Proconsult exisita o diferencial Delta. Era um processo que acentuava a fraude inicial no sentido de respaldar o resultado pretendido."

"A tendência dos votos foi realmente apurada e está certa no resultado divulgado pelo TRE. Mas, o total de votos não. Dentro do PDT, na época, chegou-se a calcular que o Brizola teria perdido 300 mil votos."

"O que me dá mais certeza de que a verdadeira apuração nunca aconteceu é o fato de que, depois que concluiu as suas apurações, a Rádio JB fez uma projeção de 70% dos votos apurados para o resultado final. Comparada com o resultado oficial anunciado pelo Tribunal, quando a apuração da Proconsult já havia sido retomada, a diferença não chegava a meio por cento, o que é humanamente impossível de acontecer. Nenhuma pesquisa trabalha com esse nível de margem de erro"

"Para mim, o TRE deu um jeito de aproximar o resultado oficial daquele projetado pelo Jornal do Brasil para não haver mais problemas".

"Na Rádio, eu fiz uma projeção correta em função da tendência por região. Cobri os 30% restantes não aleatoriamente, mas área por área. Zona por zona. Mesmo assim, jamais daria um erro tão pequeno. Se desse um erro de 5%, vá lá...! Então, eu acho que houve duas Proconsults. Uma foi a da influência do SNI e a outra, a do TRE, que para dar uma satisfação à opinião pública, seguiu a nossa apuração. Porque nunca daria esse resultado. Eles se basearam demais nas tendências que nós verificamos em torno da eleição. E para mim, eles foram mais realistas do que o rei porque não chegaria a essa diferença. Nunca."



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h47
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Veja a seguir reprodução do texto "A Volta de Brizola", de Pedro do Coutto, no livro "Crônica Política do Rio de Janeiro"

 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h44
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h43
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h43
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h41
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h41
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h40
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h40
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h40
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h39
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A fraude na apuração

Dia 16 de novembro, terça-feira

1) À uma hora da madrugada, no Esporte Clube Iguaçu, em Nova Iguaçu, 30 soldados guardam 217 urnas da 83 zona eleitoral. Uma Rádio Patrulha chama o Centro de Operações do 20 Batalhão da Polícia Militar por estranhar a presença de um camburão da polícia civil e um opala escuro rondando a área. O cel. Manoel Elísio dos Santos Filho informa aos policiais que se trata de pessoas amigas. E que eles não devem tomar qualquer atitude.

Em seguida, os policiais vão embora, quatro civis saltam dos dois veículos na porta do clube carregando sacolas. Um deles é ex-delegado: Juarez Lisboa, militante político de Nova Iguaçu, onde tentou legenda para deputado federal pelo PMDB e PTB sem êxito. Saem duas horas e meia depois e os soldados retornam. Uma testemunha passa o relato aos advogados do PDT. (Em Playboy, março de 1983, texto citado e no documentário Arquive-se, de autoria citada). (Leia íntegra anexa do discurso do senador Saturnino Braga no Senado em 23/11/1982).

2) O Jornal do Brasil, em manchete: Ibope dá vitória a Brizola no Rio afirma, na primeira linha,que Leonel Brizola é o novo governador do Rio, com 31,3% dos votos. Tal é o prognóstico do Ibope divulgado pela Rede Globo, que indica Moreira Franco com 26,8%. O general Golbery Couto e Silva, ministro-chefe da Casa Civil, disse que Brizola é um nome polêmico, muito conhecido e que sua vitória, no Rio, um dos estados mais importantes enquanto centro de opinião pública, será evidentemente levada em conta nas discussões para a sucessão do Presidente Figueiredo. Em texto do caderno Eleições afirma que o prognóstico final do Ibope só confirma, com algumas alterações, a colocação dos candidatos na pesquisa anterior. A vinculação somou mais votos para Moreira Franco na reta de chegada da campanha.

3) O Globo sai com a manchete Ibope aponta vitória de Brizola. Sustenta que além dos percentuais de Brizola e Moreira, outro ponto relevante da sondagem é que há 9,7% de indecisos, o que era capaz de provocar alguma disparidade entre os números estabelecidos pela sondagem e os resultados da eleição. "Note-se que o percentual é suficiente para permitir eventual inversão de resultado".

O jornal diz que há um detalhe: a expectativa de nulidades é de 6,2%, segundo o Ibope. E comenta que, sendo assim, apesar da vinculação, a nulidade tende a ficar abaixo do que foi em 1978, quando alcançou 10%. Informa que o TRE divulgará o primeiro boletim às 22 horas, com cerca de 1.500 das 17.484 urnas dos 64 municípios fluminenses. E que o Tribunal calcula 10 a 15% de abstenção no estado. Os primeiros números da eleição, recebidos pela secretaria do TRE às 19 horas do dia 15 confirmam essa previsão. Na eleição de Negrão de Lima, em 1965, a abstenção foi de 14%.

4) Às 8 horas, o presidente do TRE, Marcelo Santiago Costa, abre a primeira das urnas das 237 juntas onde atuam de quatro a cinco turmas de escrutinadores, com seis pessoas cada. O primeiro voto é de Brizola. Dalpes Monsores, juiz aposentado responsável pela apuração no Tribunal, diz que o primeiro dia será lento, mas no segundo já haverá resultados finais de municípios do interior (Em Jornal do Brasil de 17/11/82, "Primeiro voto foi do PDT").

5) A Rádio JB inicia sua cobertura de resultados às 9 e meia. Em seu primeiro boletim, Brizola saía na frente com 1124 votos, contra 827 para Moreira Franco. No início da tarde, Moreira Franco ultrapassava Brizola. Cotta conta que Saturnino Braga, mais tarde, diria a ele que quase morreu do coração ao ouvir a emissora a essa altura da cobertura. O resultado favorável à Moreira Franco derivava do fato de que, naquele dia, o interior liquidava mais rápido a contagem de votos e os boletins da capital demoravam mais a chegar, segundo o editor de política da emissora. (Em Arquive-se, documentário citado e depoimento de Pery Cotta, em julho de 2004).

6) No segundo andar do edifício de O Globo, à Rua Irineu Marinho, 35, começa a funcionar o Centro de Processamento de Dados do jornal, para onde os dados dos boletins das juntas apuradoras, copiados por estagiários, deveriam afluir. Era o início do processo de apuração paralela da publicação.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h37
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7) Às 16 horas, Iram Frejat, editor de Cidades de O Globo e coordenador das apurações no jornal, se preocupa com a falta de boletins da capital para alimentar o computador, conforme afirmaria oito dias depois. Manda repórteres percorreram Juntas Apuradoras nas imediações da sede do jornal. Às 19 horas, João Roberto Marinho, vice-presidente do diário, o convoca para uma reunião, em companhia do gerente de sistemas do CPD de O Globo, Adilson Rodrigues da Silva. O assunto era os boletins da capital. O que acontecia com eles? Frejat respondeu que os boletins não eram afixados. (Em O Globo de 25/11/1982, Editor do Globo envia carta a senador do PDT).

Meses mais tarde, Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo, diria que o erro que a cobertura da televisão cometeu foi ter apoiado a coleta de seus números relativos às eleições do Rio de Janeiro, no sistema de computadores do O Globo. (Em O Globo, 25/11/1982, Editor do Globo envia carta a senador do PDT e Beyond Citizen Kane, documetário de 1992 sobre a Rede Globo dirigido Simon Hartog, que também o produziu, na Large Door para o canal britânico de televisão Channel Four).

8) No PDT, César Maia, coordenador da apuração do partido, inicia o dia na Presidente Vargas, no escritório de um amigo de Brizola. Ali, ele coletava os mapas oficiais das juntas e fazia uma amostragem com base em pesquisas anteriores. A partir daí, projetava resultados. Depois, despacharia os primeiros mapas para digitação em Botafogo, onde o partido tinha seis digitadores e, em uma sala ao dado, um armário verde guardaria todos os mapas oficiais que o TRE entregava ao partido. De lá, os dados seguiriam para o Centro de Processamento de Dados, em Ipanema, no escritório imobiliário de Sérgio Dourado (Em depoimento de César Maia concedido em julho de 2004).

9) Na Baixada Fluminense, a frase-senha entre os membros das juntas apuradoras: se der empate, é da banca, remete ao bicheiro Anísio Abraão Davi, da Beija Flor de Nilópolis. Outra delas, emitida entre gargalhadas, pelo seu colega Castor de Andrade, ficaria famosa: "Nunca pensei que fosse tão fácil ganhar eleições!, dita ao mandar servir bandejas de sanduíches e refrigerantes aos integrantes de três juntas apuradoras em Marechal Hermes, Jacarepaguá, Bangu e Campo Grande. No Baixo Rio, os cabos eleitorais do PDS eram legítimos representantes das forças econômicas locais: de banqueiros do bicho, a donos de motéis e proprietários de faculdades que fabricam diplomas. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h37
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10) Boni, o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que comandava a TV Globo, liga para Homero Icaza Sánchez . Diz-lhe que todas as rádios dão Moreira na frente. Diz que em São Paulo davam como certa a vitória do candidato do PDS. Ele estava na capital paulista, onde a Globo montou amplo esquema, com computadores e tudo o mais para O Show das Eleições, sob o comando de Armando Nogueira inclusive frente às câmeras. Homero diz-lhe para não embarcar nessa. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

11) O senador Saturnino Braga recebe telefonema de um assessor do senador Amaral Peixoto, o presidente do PDS fluminense, insinuando que a contagem dos votos poderia complicar-se, ressalvando que o chefe não tem nada com isso". (Em Isto É de 8/12/82, O escândalo do Rio).

12) O senador Amaral Peixoto renuncia à chefia do PDS do Rio, alegando não se sentir à vontade no cargo dado o seu parentesco com Moreira Franco (Em Isto É de 8/12/82, texto citado).

13) Na redação do Jornal do Brasil, um sufoco: o sistema de computação não conseguia digerir os resultados que chegavam. Até as 19 horas e 21 minutos, das 111 urnas, apenas nove haviam sido processadas. Decide-se que, no dia seguinte, o jornal sairia com os dados da rádio e que o sistema de apuração de resultado seria modificado, limitando-se a governador, senador e total de legendas, tal como fora concebido o esquema de apuração da Rádio. (Em Jornal do Brasil de 27/11/1982. Proconsult quis influir na apuração do JB e da RJB).

14) Tília de Andrade, funcionária do Ministério das Relações Exteriores, requisitada em janeiro pelo TRE, trabalhou dez meses lá e acabou sendo responsável pela documentação do PDT na fase de registro dos candidatos. Depois, foi destacada para protocolar mapas e boletins das juntas de apuração a serem totalizados no computador, dentro da Proconsult. Liga para Brizola e recomenda-lhe que colocasse fiscais de computação na Proconsult. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

15) A Rádio JB, ao final da noite, emite seu último boletim: Brizola ganhava de Moreira Franco por 10.723 votos.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h36
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17 de novembro, quarta-feira

1) Às 2 horas da manhã, Joaquim Arcádio Vieira Filho, vice-presidente da Proconsult, liga para o chefe de redação da Rádio JB, Procópio Mineiro. É o primeiro de uma série de telefonemas para alertá-lo de que, ao não computar os votos nulos e em brancos, as projeções da Rádio resultavam erradas, indicando a vitória de Brizola. Já a da empresa de processamento de dados computava e previa uma vitória de 60 a 70 mil votos para Moreira Franco.

O sócio da Proconsult expôs ainda, ao jornalista, a teoria do diferencial Delta, uma porcentagem de 30% _ o que levou Mineiro a concluir que esse era o grande eleitor que decidiria as eleições no Rio de Janeiro. (Em Arquive-se, documentário citado)

2) O Jornal do Brasil, em manchete: PDT lidera primeiras urnas do Rio. Levantamento da Rádio JB em 477 urnas (343 no Rio e 104 no interior) dá 53.071 votos para Brizola e 27.318 votos para MF.

O jornalista Carlos Castello Branco, em sua coluna, afirma: as urnas estão sendo abertas e registra-se, de modo geral, confiança nos índices apresentados, apesar de continuarem os órgãos coletores de informação do Governo a duvidar da vitória de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. O candidato do PDT seria prejudicado por decisão do TSE que manda que não se computem votos para candidatos de partidos nos municípios em que não tenham apresentado candidatos a todos os postos.

No caderno Eleições, o jornal informa que o senador Amaral Peixoto deixou a chefia do PDS, substituído interinamente pelo deputado Léo Simões, íntimo do Planalto e originário do MDB onde integrou a facção de Chagas Freitas. Amaral alegou que não pode presidir o partido com seu genro governador e, caso Wellington Moreira Franco perca, o partido precisaria reformular sua direção.

O secretário particular de Figueiredo, Heitor Aquino Ferreira, apurava boletins com dados fornecidos pela Empresa Brasileira de Notícias com base em números da Justiça Eleitoral. Brizola estava vencendo por pouco no Rio, segundo essas informações.

Até as 20 horas, o Centro de Processamento de Dados do TRE, instalado na Proconsult, não tinha recebido sequer um boletim digitado das urnas do Estado. Com isso, o primeiro resultado oficial foi adiado das 22 horas para as 10 horas do dia 17. A Datacred digitava as urnas do Rio. A Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios-Beneficientes dos Militares, Capemi, as de Niterói e da Região dos Lagos.

Télio de Barros, auxiliar de apuração e juiz, atribuiu o atraso inclusive, a dificuldades nos preenchimento de boletins. O Rio é o único estado a totalizar prefeito e vereador do interior na apuração feita na sua capital. As digitadoras detectam erros nos boletins. O TRE informa que, faltando três zonas eleitorais, na capital, a abstenção foi de 13,12%.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h35
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3) O Globo, em manchete: Brizola lidera no Rio e Moreira no interior. Em outra edição, do mesmo dia, troca a manchete: Brizola lidera no Rio e na Baixada. Informa que dados extra-oficiais relativos a 176 urnas apontam Brizola com 25.850 votos e Moreira Franco com 21.092. Não diz se tais números são ou não de sua própria computação.

Texto interno diz que Brizola tem as melhores condições de vitória. A única ameaça teórica é o candidato do PDS, escreveu o jornalista. Constatou surpresa com a votação de Brizola, ao confirmar as pesquisas. Isso não justificava, porém, a euforia de militantes que esperavam um desempenho sem contrastes nas urnas, dobrando o voto dos adversários. Em vários pontos, Moreira Franco ficava a apenas cinco ou seis pontos percentuais de Brizola.

A outra surpresa, segundo o jornal, foi Miro Teixeira, na zona Norte, sendo ultrapassado pelo ex-governador pedetista. Já Moreira Franco superava, em muito, a previsão das pesquisas, ao alcançar 29,9% nas escolhas que não consideravam a vinculação do voto.

Por sua vez, a derrota do PDS de Moreira Franco para Brizola, até o final da noite, no Rio e na Baixada, era vista como uma derrota parcial (ao contrário do que se dava com Miro) já que não era irrecorrível aparentemente. Afinal, no interior Moreira Franco deixava longe Brizola que, a certa altura, tinha apenas 5,2% dos votos.

Lembra o texto que, em outubro, o IBOPE previra 12,7% dos votos para Brizola no interior, sem levar a vinculação do voto em conta. Mas as urnas revelavam muito menos do que isso. O candidato do PDT tinha saído em branco, em Campos, Resende e cidades serranas, onde Moreira Franco apresentava um desempenho mais que satisfatório. Se resistisse à má safra de votos no interior, diz o jornal, o PDT teria a maior bancada do Rio tanto no Congresso Federal quanto na Assembléia Legislativa.

Outro texto cita de um mar de denúncias de irregularidades na sede do PDT. O jornal noticia também que o TRE adiou o boletim inicial para as 10 horas do dia 17. O desembargador Jalmir Gonçalves da Fonte, presidente da Comissão de Apuração, atribuía o atraso a muitos erros cometidos em boletins de urna mandados para os centros de digitação e para a totalização por computador.

Ainda nessa edição, o presidente do TRE, Marcelo Santiago Costa, diz que não há atraso na apuração. Uma informação de Cabo Frio surpreendeu a seção de estatística do TRE: na 96 zona eleitoral, todos os 41.027 eleitores votaram _ o que era impossível.

4) A Rádio JB começa a contactar os partidos, disposta a conferir suas projeções, a partir das insistentes alegações de Arcádio. Afinal, os partidos tinham dados oficiais e alguns faziam computação própria. O PMDB aceita a tese da suspeita de fraude na hora, segundo Pery Cotta, em depoimento concedido em julho de 2004.

5) No PDT, os dados ainda não estão somados e Maia segue na Presidente Vargas, onde recebe a visita do pessoal da Rádio JB. Falavam que haviam recebido um telefonema de alguém que apontava a fragilidade das projeções da Rádio, em uma situação na qual os votos nulos e em branco poderiam afetar os resultados. Se falava em uma certa fronteira da vitória: quando a abstenção somada aos votos em branco e nulos alcançassem 24%, Brizola perderia a eleição". Cotta diz que César Maia não aceitou a idéia de fraude na conversa, que durou hora e meia.

Procópio Mineiro, editor chefe da Rádio JB se diz inquieto com a idéia de que esse Delta fosse o grande eleitor, o elemento decisivo nos votos do TER, que seria a voz oficial. (Em Arquive-se, documentário citado e Pery Cotta, depoimento citado .

6) Brizola liga para a casa de Homero Icaza Sánchez. Indaga-lhe o que acha. Acho que vão te roubar a eleição", responde Homero. Ele informa que o telefone de Brizola estava grampeado. Mais tarde, a gravação chegaria às mãos de Roberto Irineu Marinho. Homero aconselha Brizola a pôr a boca no mundo.

O candidato do PDT ainda indaga se deveria ir à TV Globo. Homero responde que lá tudo está sob as ordens do Roberto Irineu, que acredita que pode eleger Moreira Franco à força. (Em Playboy de maio de 1983, texto citado).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h35
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7) Brizola dá sua primeira entrevista para Roberto D´Ávila, na TV Bandeirantes. Pede crédito de confiança aos adversários, diz que não tem inibição para lidar com Figueiredo, lamenta o atraso nas apurações e fala do ambiente de perplexidade criado pelo desencontro de informações em torno dos resultados parciais.

O candidato pergunta: "Por que isso? Afirma que os boletins divulgados por uma emissora de televisão desmerecemdddd o eleitor do Rio. E acrescenta: Peço serenidade a todos que nos acompanham. Que não se deixem inquietar pelas notícias veiculadas porque, ao final, a vontade do povo será soberana e respeitada. Exibe tom conciliatório até quando diz que não teria nenhuma inibição em conversar sobre os problemas com ele (Figueiredo). (Em Playboy de maio de 1983, entrevista citada e IstoÉ de 24/11/1982, Nas urnas e na tela).

8) Os funcionários da TV Globo recebem 3800 telefonemas de pessoas queixando-se da transmissão, normalmente o total diário é de 200. (Em Veja de 24/11/1982, No show das eleições, um pesadelo)

9) Na TV Globo, o noticiário disputa os minutos com as explicações da própria emissora sobre sua cobertura, informa Veja de 24/11/1982 em No show das eleições, um pesadelo. Armando Nogueira, diretor de jornalismo da emissora, telegramas em punho, pergunta no ar aos repórteres sobre as dificuldades para se avançar nas apurações no Rio.

Às 18 horas, Armando Nogueira lê um telex do juiz totalizador Télio Barros, um dos responsáveis pelo CPD do TRE, anunciando outro adiamento no quarto prazo dado para o primeiro boletim do Tribunal. O jornalista explica que não é o computador da Globo que está fazendo corpo mole na apuração em relação ao Rio. O quadro é que a apuração é lenta e penosa. Aos que pensam que ele faz corpo mole, o computador da Rede Globo responderá amanhã, quando receber os dados oficiais, indiscutíveis, das urnas realmente apuradas, com os primeiros mapas do TRE. Ele vai responder melhor do que as especulações, coisa que nós não queremos fazer na Globo, no máximo, ela faz projeções".

O matemático Oswaldo de Souza, incumbido de proceder análises e projeções acerca das apurações para a emissora, diz que, na projeção que pode fazer àquela altura, Brizola ganhará com 29,3 % dos votos e Moreira Franco terá 29,2%. A diferença seria de seis mil votos ou menos de 1%. O resultado é, portanto, imprevisível. Nogueira indaga-lhe se, com as urnas do capital, a projeção não pode mudar. Souza responde que tudo depende se elas forem abertas em currais de Moreira Franco ou em currais de todos os outros candidatos. Lembra que o Rio é repartido entre lideranças políticas locais.

Seis mil votos, calcula o matemático, equivalem a 1,5% dos 400 mil votos que o Rio deve ter de em branco e nulos. Portanto, é muito difícil saber o que acontecerá. Se 2% dos nulos e em branco mudarem para Moreira Franco, ele será governador". (Leia íntegra do discurso do senador Saturnino Braga no Senado em 23/11/1982).

O apresentador Sérgio Chapelin lê informação de Dalpes Monsores, juiz eleitoral, segundo a qual o resultado sai sábado. (Em Arquive-se, documentário citado)

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h34
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10) A TV Bandeirantes, da calçada em frente à Rádio JB, transmite o seguinte resultado: Leonel Brizola com 31,2% e Moreira Franco com 26,1%. (Em Arquive-se, documentário citado).

11) Miro Teixeira na TV Globo diz que Brizola já é o governador. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

12) Um coronel da reserva liga ao senador Saturnino Braga. Pede-lhe um encontro marcado para o dia seguinte na casa do senador. (Em IstoÉ de 8/12/1982 em O escândalo do Rio)

13) Às 23:30, o TRE solta o primeiro boletim de apuração com 52 urnas, 25 do interior, duas de Nova Iguaçu e 25 da capital. Moreira Franco com 4.222 votos e Brizola com 3.914, sem constar do documento os votos nulos e em branco. "Mesmo sem levantamento preciso, estima-se que, a essa hora, 70% das urnas do Estado já haviam sido apuradas pelas juntas, contou a Playboy, em março de 1983, texto citado.

Costa, o presidente do Tribunal, atribui o atraso a problemas técnicos da Proconsult. Na av. Passos, 92, centro do Rio, o velho Univac, modelo de mais de 15 anos de fabricação, rejeitava 90% dos mapas que vinham das juntas do Estado todo. Urnas com mais votos que eleitores e votos para candidatos inexistentes que não batiam com as somas parciais das seis eleições simultâneas.

O índice de rejeição previsto pelo TRE não podia ultrapassar margem de 20% para não entupir o computador, como ocorria. A Proconsult paulista não levou, embora tivesse ganho, a licitação do TRE de São Paulo: uma comissão técnica desaconselhou a contratação. O Tribunal de São Paulo ficou com o Serpro.

14) Na TV Globo, a apuração apontava Moreira Franco na frente com maior parcela de dados vindos do interior. A revista Playboy de março de 1983, no texto citado, atribui a diferença entre os dados da Rádio JB e da TV ao fato de que a TV seguia os dados de O Globo, que trabalhava com um programa de totalização inadequado, semelhante ao do TRE-Proconsult, enquanto que a Rádio JB não precisava de computador para totalizar.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h34
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18 de novembro, quinta-feira

1) Um caminhão tomba logo cedo na avenida Brasil, espalhando pelo asfalto laranjas e uma safra de urnas. (Em Playboy, de março de 1983, texto citado).

2) O Jornal do Brasil sai com a manchete Brizola deve vencer Moreira por 34,1% a 29,5%. Aponta Brizola com 307.991 votos e Moreira Franco. Com 252.664, em 3284 urnas (1903 da capital, 688 da periferia _ Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo _ e 652 do interior). A projeção com base em 18,7% do total de votos dá as porcentagens da manchete. (Faltou 0,1% para Brizola e sobrou 1,1% na votação para Moreira Franco em relação ao resultado final, como se verá adiante).

Miro Teixeira, candidato do PMDB, reconheceu ontem, a derrota. Atribuiu a desestabilização do PMDB ao sistema, que concentrou forças em tal direção.

No caderno Eleições, a projeção do jornal em percentuais é a mesma, mas haviam sido apuradas somente 2001 urnas. Brizola tinha, então, 179.177 votos e Moreira Franco, 137.928. A matéria explica que a projeção se baseava na divisão do eleitorado: metade na capital, 25% na periferia (Baixada, Niterói e São Gonçalo) e 25% no interior.

Brizola vencia na capital por 41,2% contra 25,3% e, na periferia, por 44,5% contra 29,6%. No interior, Moreira Franco vencia por 37,7% contra 9,5% do candidato pedetista que, na capital, ganhava em 21 das 25 zonas, empatava em duas e perdia em três, por margem pequena e crescente na direção da Zona Norte do Rio..

O texto afirma que Brizola confirmara a máxima segundo a qual a "eleição no Rio é ganha entre a Praça da Bandeira e Bangu. Perdera em Copacabana e Ipanema, empatara no Grajaú e vencera na Lagoa, na Rocinha e em Laranjeiras. Também ganhara em Nova Iguaçu (45,18% contra 24,62%) São João do Meriti e Caxias. Não levara por por escassa margem em Nilópolis (38,59% contra 37,36%).

Outro texto sustenta que Vinculação ajudou Brizola a eleger o prefeito de Meriti. Matéria sobre o TRE diz que eleição custou CR$ 178 milhões (equivalentes a cerca de R$ 3.1 milhão, dos quais um terço seriam usados para pagar a computação dos votos. O pedetista Darcy Ribeiro declarou: A apuração no Rio está diferente da do Brasil inteiro. Só começou às 9 horas de ontem e continuou lentamente, somando votos do interior _ que já terminou a apuração porque tem pressa de saber quem são seus prefeitos. O que dá a vitória ao candidato oficial, transmitindo à população uma informação falsa.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h32
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3) O Globo, em manchete, declara que Decisão da eleição só com as últimas urnas. A linha fina, afirma: Diferença será inferior a 60 mil votos, na linha fina. Projeção feita a partir dos dados disponíveis ontem à noite no centro de computação de O Globo antevia ao candidato do PDT, Leonel Brizola, ao final da apuração, vantagem de 57 mil votos sobre Moreira Franco, do PDS. Mas técnicos asseguravam que, concluída a contagem de menos de 20% dos votos, qualquer previsão estava sujeita a ponderável margem de erro.

Na opinião desses técnicos, não se podia detectar antecipadamente algo tão rarefeito como essa diferença teórica, que correspondia a 1% dos votos em jogo. O que se podia prever é que a definição, a favor de um ou de outro, se daria por menos de 60 mil votos.

Texto interno que só 20% dos votos apurados não permitiam projeção sem ponderável margem de erro. A vantagem dada na projeção do CPD era de exatos 57.087 votos, menos de 1% do total de cidadãos que estavam em condições de votar no dia 15.

Conta que Moreira Franco alcançou igualdade com Brizola no início da tarde, com o ingresso de urnas de Niterói e bairros cariocas cujo eleitorado o prefere. Mas às 10 para as 5 da tarde, Brizola melhorou. Enquanto Moreira Franco permanecia na frente, com 130.523, Miro Teixeira vinha em segundo, com 105.662, e Brizola era o terceiro, com 95.186. Só 4% dos votos apurados eram da capital, dona da metade do eleitorado.

A votação de Brizola correspondia a 45% dos votos apurados da capital, 41,2% da periferia e 9,3% do interior. Projetando esses dados com os pesos de 50% do eleitorado para a capital, 25% para a periferia e 25% para o interior, O Globo calculava um total de 1.695.600 votos para Brizola e, nos mesmos critérios, 1.634.200 para Moreira Franco, partindo de 20% alcançados em conjunto por abstenções, votos em branco e nulos. A idéia era que Moreira Franco tinha, nas urnas apuradas, 32,8% dos votos da capital, 38,9% do interior e 35,1% na periferia.

Enfim, o texto reafirma o que diz o Oswaldo de Souza: do ponto de vista político, nenhuma das três regiões do estado é homogênea. Às 19 horas, a penetração dos dois candidatos mudou totalmente no processamento. Onde o PMDB preservava parte de sua força, como subúrbios, redutos da Baixada e cidades serranas, e se elevavam os percentuais de Miro Teixeira, caiam os de Brizola e Moreira Franco.

O candidato do PDT caía para 35,6% na capital, 36,8% na Baixada e ficava atrás de Sandra inclusive, no interior, com 7,2%. O do PDS tinha 26.6% na capital, 29,8% na Baixada e 7,2% no interior. Esses dados levavam a uma projeção de apenas 15.400 votos a favor de Brizola.

Quadro à página 12 informa que, apurados 713.098 em 2.485 urnas do total de 17.528, sendo 563 da capital e 1922 do interior, Moreira Franco liderava com 223.601. Brizola tinha 163.655.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h31
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Outro texto conta que Miro Teixeira reconheceu a derrota e disse que Brizola está eleito. Moreira Franco, porém, diz que ainda é cedo para saber quem vencerá. Ele não acredita na ocorrência de fraudes que mudem o resultado do pleito. Seu comitê, que conta com 2500 fiscais, disse que ele deve conseguir 60% dos votos em Niterói.

Outro texto informa que o TRE estava indeferindo todos os pedidos de recontagem de votos. Carlos Waldemar Rollemberg, procurador regional eleitoral, disse que, no cargo há dez anos, nunca vira um pedido de recontagem ser deferido e que, a última vez que uma eleição fora anulada ocorreu em 1936, no Mato Grosso.

Os pleitos de recontagem derivavam de ônus com erros na impressão da lista oficial de candidatos. Havia erro também na lista que ia para a urna.

O candidato Bené, do PMDB, que se chamava Benedito, conseguiu que um funcionário do TRE telefonasse para as 237 juntas. Mas ele queria pedir recontagem e só poderia fazer isso se enviasse o pedido a 237 juízes ao mesmo tempo. Como o seu partido não tinha fiscal em cada junta para fazer isso, a tarefa era impossível.

Outro texto diz que o juiz aposentado Monsores, que respondia pela apuração no TRE, anunciou que ela acabará sábado. Ninguém se surpreenda se sair na sexta-feira, 19, porque agora vai deslanchar, afirmou. Disse também que, 18 dos 64 municípios tinham concluído totalização. E que hoje, dia 18, 30 a 40 deles encerrariam a apuração. Ignorava quantas urnas tinham sido apuradas até então.

O jornal informa também que PTB e PMDB requereram à Comissão Apuradora que explique porque não cumpriu o preceito legal que determina a publicação dos resultados diários, solicitando a imediata divulgação dos mesmos.

Às 18 horas de ontem, informa ainda o jornal, o juiz Télio de Barros anunciou outro adiamento do boletim, para as 22 horas. Delegados dos partidos que estiveram na Av Passos disseram que o computador da Proconsult não tinha capacidade para processar tanta informação. Segundo eles, havia 1500 urnas digitadas. Mas só 100 tinham sido processadas no computador.

Eles disseram também que o adiamento do boletim oficial do TRE era para que o computador processasse, pelo menos, 240 mil votos, em dois dias de apuração.

Outro texto relata que o PDT denunciou preenchimento irregular de mapas oficiais de apuração em juntas de Niterói e Deodoro. Nelas, o partido registrou a presença de pessoas estranhas, que estariam pressionando os escrutinadores.

Outra matéria afirma que abstenção na capital foi de 14,22%, segundo o TRE. Votaram 2.570.862 eleitores. (O percentual é quase o dobro do efetivamente registrado na eleição para governador em 1982).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h31
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4) Marcello Alencar, ex-senador, cassado em 1969 pelo MDB e coordenador do PDT na Baixada, recebe um recado para ir a Nova Iguaçu. Avisa a Brizola: governador, aconteceu o que temíamos". Desde que o Esporte Clube Iguaçu foi invadido, as 217 urnas estavam sendo vigiadas por pedetistas no Colégio Monteiro Lobato, onde seriam apuradas. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

5) Na manhã de quinta-feira, seis urnas de Mesquita, um distrito de Nova Iguaçu, continham mil cédulas corretamente preenchidas com números e nomes do PDT anulados com palavrões inscritos na diagonal. O juiz Carlos Alberto Sanches, da 83 zona eleitoral, pediu a abertura de inquérito. Mas ele não foi aberto e o juiz desmentiu a si mesmo. Por telefone, disse a jornalistas que, "problemas, houve em muitos lugares, Niterói, São Gonçalo, Nilópolis... Que vantagem vai ter isso? Vamos deixar isso passar. Em Magé, a oposição denunciava urnas com votos escritos com a mesma caligrafia favorecendo o PDS. Em Nilópolis, o PDT tinha mais de 45% dos votos para governador, mas não elegeu o prefeito. Miguel Abraão, do PDS, irmão do bicheiro Anísio é quem levou. No mínimo, um fato curioso, pois o voto era vinculado. (Em Playboy de março de 1983, texto citado).

6) O PDT começa a ter resultados de computação de votos em Ipanema. César Maia se muda para Botafogo. Já divulga à imprensa resultados de sua apuração paralela. Na sede do partido, o locutor anuncia à população na rua, que Brizola continua à frente. com mais de 50 mil votos. (Em Arquive-se, documentário citado).

7) Iram Frejat, coordenador das apurações em O Globo, de manhã cedo e no início da tarde , dá novas orientações a seus estagiários. A tentativa era a de obter resultados de boletins da capital com mais rapidez. Muitas horas mais tarde, ele comentaria com seu colega de redação e candidato a vereador pelo PDT, Osvaldo Maneschy, que, apesar de ter injetado naquele dia no computador muitos boletins da Baixada Fluminense, o resultado não se alterava proporcionalmente na totalização. Continuava dando Moreira. Disse-lhe também, que não sabia o que estava acontecendo. (Em O Globo de 25/11/1982, texto citado, e depoimento de Osvaldo Maneschy em agosto de 2004).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h30
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8) Três militares, um dos quais entrevistados pela IstoÉ de 8 de zembro de 1982, em O escândalo no Rio, visitam o senador Saturnino Braga e deixam com ele informações anotadas sob o título Quadro Geral das Apurações, com frases em vermelho, alarmistas. Elas dão conta dos temores de "uma ação previamente montada para conduzir a fraude que impediria a vitória de Brizola". Falava na presença, junto às mesas de apuração, de pessoas estranhas, que se encarregariam da tarefa de produzir essa fraude, segundo a revista. As anotações dos militares encerravam com uma pergunta: Será que a nação vai agüentar outra farsa semelhante à do Riocentro?.

9) Às 15 horas, no Hotel Glória, Brizola dá entrevista à imprensa estrangeira. Os indícios de irregularidades são muitos. 25% dos mapas contêm imperfeições e muitos deles são preenchidos a lápis. Diz que isso está criando um clima de insegurança.

Uma repórter estrangeira lhe pergunta se os indícios de fraude que ele tem poderiam impedir a sua vitória. O ex-governador responde que só a fraude poderá ameaçar sua vitória. (Em Arquive-se, documentário citado).

Brizola divulga telegrama de Miro Teixeira reconhecendo sua vitória. Mais tarde, o candidato do PMDB diria a Playboy que, reivindicava para si "o aborto de um golpe. Tenho a convicção de que evitamos a fraude e a inversão do resultado das eleições com aquela iniciativa.

À IstoÉ, ainda naquele dia de novembro, Miro Teixeira diria que queria mesmo bloquear qualquer tentativa de tumultuar os resultados, contou que fora informado da ocorrência de irregularidades em pelo menos seis juntas apuradoras. Por exemplo, Castor de Andrade, à época presidente do Bangu Esporte Clube e da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense tinha sob suas asas três juntas apuradoras da região e teria dito, às gargalhadas, nunca pensei que fosse tão fácil ganhar eleições.

Quase três meses depois do pleito, Miro Teixeira declararia à revista Playboy: É evidente que setores do PDS estavam a par da fraude na Proconsult. Não quero generalizar, não tenho elementos de prova para generalizar, mas é evidente que havia setores do PDS não só na Proconsult, mas também na apuração. É fato público e notório que o sr. Castor de Andrade assumiu três juntas apuradoras na Zona Oeste do Rio de Janeiro".

No mesmo dia 18, Moreira Franco devolveu-lhe a acusação ao dizer que, se houve fraude, ela só poderia ser chaguista e beneficiar a Miro. O computador favorecia como faria até o quinto boletim do TRE _, tanto ao PMDB quanto ao PDS, segundo a revista.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h30
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10) Às 18 horas, Brizola vencia Moreira Franco por 50 mil votos na Rádio JB: 471.982 a 425.100. Cinco horas depois, às 23 horas, a TV Globo dizia que Moreira Franco vencia por 467.486 contra 401.001. Diz a Veja de 24 de novembro de 1982, no texto citado: É difícil encontrar motivos para a divergência entre os números que durou vários dias. Afinal, desde que saem da urna e são transmitidos ao espectador, os votos percorrem o mesmo caminho para todas as estações de rádio ou TV: são apanhados por um estagiário e encaminhados para a emissora que, fazendo as somas mais depressa que a Justiça Eleitoral, pode anunciar os resultados com antecedência.

11) Luís Carlos Cabral, diretor regional de jornalismo da TV Globo no Rio, em reunião com Roberto Irineu Marinho, lhe diz que é melhor o computador começar a colocar votos da capital na totalização porque a equipe de jornalismo estava quase sem condições de trabalhar na rua. A esse respeito, recorda-se Osvaldo Maneschi que seus colegas, que cobriam a eleição para a TV Globo, os repórteres Sônia Pompeu e Paulo Alceu, chegaram a ter que se disfarçar para poderem andar na rua.

Segundo Cabral, Irineu concordou com sua ponderção. O ex-diretor regional da TV Globo conta que a apuração da emissora fora entregue ao jornal O Globo, que injetava um voto da capital e dois do interior no computador. O que significa que, com isso, ela distorcia o andamento da apuração, mas mentia.

Lembra que o jornalista Samuel Wainer Filho foi quem alertou ao colega Hedyl do Valle Jr., redator-chefe do Jornal do Brasil, e a Procópio Mineiro, editor-chefe da Rádio JB, sobre o que se passava na TV Globo. Cabral ocupava interinamente o cargo que até ali, era do jornalista Alberico Souza Cruz. (Em depoimento de julho de 2004).

12) O Jornal Nacional gasta mais tempo para mostrar como a Globo cuidava dos mapas eleitorais no Rio do que para analisar a eleição carioca. (Em Veja de 24/11/1982, texto citado)

13) Ao final da noite, a TV Globo noticia que Moreira Franco está na frente com 27,4%. Anota a Veja, em 24/11/1982, texto citado, que, quando a Rádio JB apurara 26,8% dos votos, o resultado era oposto. A TV Globo trabalhou com um quadro eleitoral que acabaria sendo distorcido, pois andava mais depressa no interior e mais devagar na capital, completa a revista.

14) Nas ruas, um cidadão comenta: se ele não convoca a imprensa estrangeira também não tomava posse porque ninguém ia saber se ele estava ganhando ou perdendo". (Em Arquive-se, documentário citado).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h30
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15) Às 22h10, Brizola chega à TV Globo e o ator Stepan Nercessian, entre correligionários aglomerados diante da porta da emissora, grita: Vai lá Brizola, vê se faz agora a cabeça do computador.

O candidato, procurado pela TV Globo, impôs três condições para dar a entrevista: que fosse feita no Rio, ao vivo, durasse pelo menos 20 minutos e não começasse depois das 22h 30. Começou às 23h30, mas durou 35 minutos, conta a revista IstoÉ, de 24/11/1982, em Nas urnas e na tela.

Conta também a publicação que o programa representou, com toda certeza, o mais dramático espetáculo político deste recém-nascido Brasil das negociações, como já se pode definir o país gerado pelos votos de 15 de novembro.

Relata ainda que, nas ruas, o boato era de um Riocentro eletrônico, àquela altura. Foi a reação nas urnas que gerou a iniciativa da TV de entrevistar Brizola.

Na TV Globo, um repórter lhe pergunta se teme a fraude. Tememos, tememos, responde o candidato. O repórter diz que o candidato do PDS também afirma que só a fraude lhe tirará a vitória. Retruca o candidato pedetista: Eu não sei no que ele pode se basear, não é verdade? Eu acho que ele está se baseando no noticiário da TV Globo, porque ela está atrasada, não é verdade? Dando enfoques diferentes. Mas, rigorosamente, nós tememos a fraude porque se criou no Rio de Janeiro um ambiente favorável a isso. Estabeleceu-se o conflito entre os meios de comunicação. Uma estrutura aparelhadíssima, imensa, sobretudo contando com profissionais da mais alta categoria, como a Rede Globo e outras organizações, como a Rádio JB, que entraram em conflito de dados. E a população ficou atônita em todo o Brasil... o noticiário caminhava certo e, no Rio de Janeiro, nós para trás, confusos. No recinto das apurações, se criou um quadro de tensões entre os fiscais, por toda parte. Os resultados do interior longínquo chegam logo. Mas, para se saber o que deu numa urna em Bangu, está sendo uma dificuldade...".

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h30
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Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo, de São Paulo cobra de Brizola a acusação de que a emissora era co-responsável pelo atraso nas apurações. Pergunta-lhe se era justo uma equipe de profissionais com passado e quase todos com futuro, em uma hora da paixão, merecer um tratamento tão rigoroso por parte de um homem público por quem a gente tem um apreço. Diz que sua pergunta era quase pessoal, mas falava em nome de 2000 jornalistas.

"Dou essa resposta com a franqueza que me caracteriza. Nós sempre devemos usar o método da franqueza e da lealdade, não é verdade? Registrei o que era real. Não cheguei a entrar no mérito e não cheguei, de forma nenhuma, a considerar que houvesse má-fé. Registrei uma situação real existente no Rio de Janeiro. E também, os meus próprios sentimentos. Eu senti o nosso Rio, no conjunto, desmerecido. Chegava a ser anunciado: Olha, agora,em seguida, vem o Rio de Janeiro! E depois,vinha o Acre, vinha Rondônia, e nada. Então, eu registrei isso. Agora, pode ser que os canais tenham se entupido. Às vezes, o gigantismo é uma doença das organizações. Isso pode ocorrer sem se desmerecer aos profissionais. Muitas vezes, grandes médicos vão fazer uma operação e o doente morre, explicou Brizola.

Nogueira, ao dirigir-se novamente a Brizola, afirma: "O sr. sabe perfeitamente que os números que estão chegando agora, estão chegando porque eles correm um ritmo normal e não o delírio, governador".

O candidato ainda explica, aproveitando para mostrar seu equilíbrio emocional durante o episódio: "As minhas críticas na verdade, é crítica mesmo. No bom sentido. Não têm nada com exaltação. Me desculpa, Armando. Pelo contrário, a cabeça aqui, quando começa a atingir uma temperatura, eu ponho na geladeira. Mas como eu posso me conformar que vocês computem, a toda hora, urnas do interior e deixem as urnas da cidade aqui... Custa muito mais uma viagem de Itaperuna, de Bom Jesus, de Campos, do que uma corrida de automóvel dali, de Bonsucesso, de Campo Grande , na Baixada e isso foi ficando para trás. E eu acho que era conveniente uma idéia parelha dos resultados das eleições. Se foi alguém que teve a intenção de esvaziar a projeção dos resultados do Rio de Janeiro, cometeu um erro porque, ao contrário, isso vai dar um refluxo agora, porque agora toda a nação está acompanhando o que está ocorrendo no Rio de Janeiro.

Brizola isenta de culpa a Justiça Eleitoral. Se alguma dúvida havia, era em relação ao submundo, que passou a se mover durante essa confusão.

Finda a entrevista, Nogueira constata o que nenhum mortal comum imaginaria: o homem é mais rápido do que a máquina. Diz ele: Nosso trabalho se baseia em computadores, na soma de todos os votos, por isso, somos mais lentos.

Homero Icaza Sánchez disse que Armando Nogueira achou que Brizola era boboca. Alguém a quem se poderia exigir uma retratação no vídeo. Mas o ex-governador gaúcho fez do Armando, gato e sapato. Hoje eu digo para você: a credibilidade da Globo ficou afetada a partir dessa entrevista do Brizola, comentou.

"No dia seguinte, estourou o negócio da Proconsult. Aí eu não sabia mais nada", concluiu o ex-executivo das pesquisas na TV Globo.

(Em Arquive-se, documentário citado, Veja de 24/11/1982 e Playboy de março e maio de 1983, textos citados).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h29
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16) Enquanto Brizola fala à TV Globo, Arcádio Vieira, da Proconsult, profetiza a derrota do candidato do PDT, 72 horas depois do início da apuração. Diz que seus cálculos dão 70 mil votos de diferença para Moreira Franco sobre Brizola. Myron Josiano Villanova, colega de profissão de Arcádio na Plan-Rio e delegado do PDT que fiscaliza a totalização na Proconsult não se espanta.

Ele ouve os primeiro contornos do diferencial Delta. Arcádio argumenta que o eleitorado do interior votou melhor que o da capital, onde o número de nulos e em branco será maior. Se a diferença for maior que 20%, Moreira Franco leva, porque sua votação no interior é maior que a de Brizola, sustenta.

Villanova quer conhecer os recursos técnicos da empresa, inspirado pelo conselho da funcionária Tília de Andrade a Brizola, que designara o advogado José Leventhal, especialista em legislação eleitoral, para acompanhar o caso.

Leventhal encontra, então, a petição do PDT ao TRE com doze pedidos, entre os quais o teste de funcionamento do sistema de computação à vista do partido por parte da empresa responsável pela totalização na apuração e a exigência de cópias de listagem dos programas a serem usados como fonte. Só agora, em xerox, com carimbo do protocolo do TRE e tudo, o documento chega às mãos do presidente do Tribunal, Marcelo Costa.

Os analistas do partido são finalmente credenciados para acompanhar a apuração na Proconsult. E Vilanova é informado por Arcádio Vieira que o back up do computador da Proconsult era do Centro de Processamento de dados do I Exército, onde existir o único outro Univac 9480 em todo o Estado do Rio. (Em Arquive-se, documentário citado e Playboy de março de 1982, texto citado).

17) Arcádio Vieira liga para César Maia e repete as mesmas observações feitas a Villanova. César lhe responde que não tinha projeções, mas sim listagens de apuração urna a urna. (Em depoimento de César Maia concedido em julho de 2004).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h29
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19 de novembro, sexta-feira

1) Tília de Andrade, de madrugada, recebe um recado na Proconsult, onde era autorizada a protocolar mapas e boletins das juntas para serem totalizados no computador. É pedido de Luis Brás, delegado do PDS na Proconsult: Por favor, eu não achei o Arcádio, se você encontrá-lo, diga-lhe que o Moreira Franco quer falar com ele.

2) De manhã, a TV Globo põe no ar dados que provinham da apuração de 49,7% de urnas do interior e 26,3% da capital o inverso do eleitorado. Diz a Veja, em 24/11/1982, texto citado, que havia a suspeita de que a emissora estivesse tratando Brizola com parcialidade, já que Roberto Marinho, jamais escondeu ou deixou de se orgulhar de ser antigo inimigo do candidato do PDT".

3) Boni decide acabar com o Show das Eleições, que ia ao ar às 23 horas. O escândalo Proconsult cresce e a apuração continua. O programa noturno da TV Globo se despede com prognósticos eleitorais da divisão de análise e pesquisas, capitaneada por Homero Sánchez, apontando quem venceria em 12 estados. Todas essas projeções se confirmaram. Naquela tarde, a emissora descolou-se dos dados do TRE e já somara 6 mil urnas. (Em IstoÉ, de 24/11/1982 e Playboy de maio de 1983, entrevista citada).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h26
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4) O Jornal do Brasil diz que Tancredo já assegurou vitória em Minas. (A TV Globo dá Elizeu Resende, mas faz ressalva dizendo que pode mudar). Em título de primeira página, publica: Brizola, em 7 mil urnas, tem 40 mil votos à frente.

Seu placar eleitoral ilustra a capa do jornal. Dá Brizola com 694.332 votos ou 32,8% do total e Moreira Franco com 653.619 ou 30,9% dos sufrágios. Os resultados são de 7.467 urnas. O texto diz que faltavam apurar 10.061 urnas, que somavam 1,3 milhão de votos da capital, 970 mil votos na periferia e outros 870 mil no interior. O candidato do PDS refutava tais projeções. Dizia que ganharia por margem de 70 mil votos.

Brizola deu entrevista à imprensa estrangeira e disse que só a fraude ameaçaria sua vitória. A Proconsult afirmou que não tem previsão para acabar seu trabalho. Ontem, só forneceu o resultado de 109 urnas.

O presidente do TRE não soube explicar a morosidade da apuração. Antes, alegara que havia um descompasso técnico.

O caderno Eleições publica em manchete: Governo controlará Colégio Eleitoral. Trabalha com três hipóteses e afasta as chances de que as eleições no país resultassem em dois brasis, um governista ao norte e outro, oposicionista, ao sul.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h25
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O texto sobre a entrevista de Brizola à imprensa estrangeira conta que ele confiava em vitória com 300 mil votos. Os indícios de irregularidades são muitos. Verificamos que 25% dos mapas contêm imperfeições e vários são preenchidos a lápis. Nós do PDT, particularmente, eu, confiamos na lisura dos juízes eleitorais. Mas, nesse clima tumultuado que se criou no Rio, tememos que a fraude venha a se desenvolver, declarou o candidato.

O candidato descartou porém, a possibilidade de o PMDB ter a ver com a fraude, pois os indícios eram de que ela favorecia ao candidato do governo federal. Disse ainda que, em Magé, havia uma urna onde só apareciam votos para Moreira Franco.

Em outro texto, o jornal informa que PDS usa o voto lampião", no qual o eleitor votou só para governador.

Em outra matéria, Moreira Franco se diz pessoalmente cauteloso quanto aos resultados. Não podia dizer quem será o novo governador. Sua assessoria informou que prevê vitória por 70 mil votos de diferença. Às 15 horas, havia um mapa eleitoral sobre a mesa do candiato do PDS. . Com 4.752 votos apurados, dava 421.260 para ele próprio, 335.952 para Miro Teixeira e 332.914 para Brizola.

À apresentadora Cidinha Campos, pelo telefone, no programa Cidinha Livre, da Rádio Tupi, o candidato do PDS afirmou que o Jornal do Brasil estava, com suas projeções, fazendo a campanha de apuração do sr. Leonel Brizola. Em um eleitorado de 6 milhões, é absolutamente parcial, incorreto, se fazer agora uma afirmação, Brizola ou Moreira como vencedor". O candidato do governo federal disse ainda que até aquele momento, estava na frente, com 314 mil contra 230 mil de Brizola. E previu sua vitória por 70 mil votos. Insinuou que o PDT comprou espaço disfarçadamente para sair em matérias no Jornal do Brasil.

Outro texto conta Como o carioca votou para governador. Mostra que, das 25 zonas eleitorais da capital, a que mais deu votos a Brizola foi a 24, que reúne Bangu, Senador Câmara e parte de Campo Grande. A que mais deu votos a Moreira Franco foi a 18, que reúne o eleitorado de Copacabana, da Constante Ramos até Ipanema e Lagoa. Em parte da Tijuca, no Alto da Boa Vista e na Tijuca foi onde Brizola se saiu pior. No total, ele teve 41,3% dos votos e Moreira Franco 26,4%.

O juiz Télio de Barros disse que é impossível ocorrer qualquer incorreção na apuração porque os partidos têm fiscais. Mas os delegados reclamavam que não tinham acesso às salas dos computadores. Apenas recebiam boletins oficiais que não discriminavam zonas eleitorais ou o número de seções cujos votos são apurados, impedindo a conferência com os mapas recebidos das juntas apuradoras. Também reclamavam que não lhes era permitido acompanhar a correção das urnas problemáticas ou "em depuração e não tinham acesso ao fluxograma do sistema de computação.

Outro texto do jornal conta que o delegado do PDT, Wilson Mirza, solicitou medidas estratégicas para que fosse preservada a inviolabilidade e a segurança das urnas nos intervalos das apurações.

A reportagem mostra ainda a divergência nos critérios dos juízes nas juntas: tinha aqueles que aceitavam voto com a inscrição Brizola na cabeça e outros, que aceitavam votos com a inscrição Esse é o bom para Moreira Franco. Tinha juiz que anulava e juiz que aceitava a inscrição esse é o menos pior e, por aí adiante.

Outro texto relata que a Proconsult planejou durante um ano como iria trabalhar nas eleições. Contratualmente, ela tinha que armazenar os dados de 51.500 mapas de 17.513 urnas nos cinco dias seguintes à eleição em seu computador, na Av. Passos. Teria que entregar, também, um boletim diário ao TRE com resultados parciais, totais por uma e por candidato. Também deveria fornecer estatística sócio-política com informações sobre redutos eleitorais, votos nulos e abstenções.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h25
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5) O Globo, em manchete: Brizola mais próximo de Moreira. Acelera-se a apuração na capital, diz a linha fina. Na capa, o quadro Os votos para governador no Rio, dá Moreira Franco na frente, com 517.282 votos, sendo 347.408 no interior. E Brizola com 446.211, dos quais 266.193 na capital. A diferença, portanto é de 71.051 votos. Bem próxima das estimativas que Moreira Franco e Arcádio Vieira faziam àquela altura.

Editorial publicado na capa, sob o título A exploração dos números, diz que tanto o jornal quanto a TV Globo trabalhavam com custoso e complexo sistema de cópia dos mapas de apuração, envolvendo centenas de pessoas, que levavavm aos computadores do Centro de Processamento de Dados da empresa os totais da apuração nas Juntas à medida que ela se realizava. Por essa razão, podiam dar resultados à frente dos oficiais. Mas a sua apuração seguia o ritmo lento da contagem pelo TRE.

O jornal justifica, então, a sua cobertura. Afirma que, nos primeiros dias, a contagem permitia uma soma parcial dos votos, contrastante com a tendência que revelavam. Isto porque o trabalho era mais rápido no interior e mais lento na capital. Cita a edição de quarta-feira, 17, para mostrar que o PDT tinha as maiores possibilidades de vencer o pleito, o que era correto até ali. Mas uma projeção feita no dia seguinte estabelecia diferença de apenas 15 mil votos entre os dois candidatos mais votados _o que acentuava o contraste entre o número de votos contados e o resultado para o qual apontavam. Sugeriam, portanto, indefinição, sustenta o editorialista.

Com a aceleração do trabalho na capital, onde havia menos juntas, ainda que falte metade dos votos para apurar, a indefinição se dissolverá gradualmente, surgindo com nitidez o vencedor, prossegue o editorial. Ate lá, julgava que a opinião pública estaria exposta ao sensacionalismo e à má fé dos que levianamente exploravam a ansiedade do eleitorado fluminense.

Conclui dizendo que qualquer candidato que atribuir a derrota à fraude era um irresponsável, que admitiria apenas a possibilidade de sua própria vitória. Passa assim, recibo à honradez do TRE, dizendo que a premissa de fraude é abominável, principalmente porque atinge deslealmente a Justiça Eleitoral.

Em texto interno, o jornal diz que Brizola ultrapassou Miro Teixeira que era o segundo colocado. E, embora não sejam suficientes os votos apurados para se ter uma sólida definição de tendência, às 20 horas, os dados disponíveis no centro de computação do jornal permitiam uma projeção que daria 60 a 70 mil votos de vantagem para Brizola ao final das apurações, sustentando a projeção feita por O Globo na véspera.

O candidato do PDT teria entre 1,450 milhão e 1,460 milhão. O do PDS, entre 1,390 milhão e 1,4 milhão. A projeção era feita com os pesos de 50/25/25 para as três regiões do estado. Mas o jornal destacava que era uma projeção aproximada, uma vez que não se sabia ainda o peso das abstenções e das oscilações quanto a nulos e em branco. A edição afirma também que as juntas estão mais rápidas e trabalhando melhor. Ainda assim, qualquer dos candidatos poderia mudar o equilíbrio de forças a qualquer momento porque em Niterói e São Gonçalo, território considerado favorável a Moreira Franco, as apurações estavam mais atrasadas do que na Baixada Fluminense, território de Brizola.

A coletiva de Brizola sai publicada com um bom trecho de suas suspeitas quanto à fraude e ao desencontro de informações da maior rede de televisão do país.

Outro texto diz que Moreira se mantinha cauteloso, mas o PDS previa vitória por 70 mil votos com base em projeções dos boletins dos fiscais e da Art-plan.

No terceiro dia de apuração, saiu o segundo boletim do TRE, às 13 horas, com 109 urnas. Moreira Franco estava na frente, com 9.255 votos. Em segundo lugar, vinha Miro Teixeira com 9.198. E Brizola era o terceiro, com 5.716 votos. Costa, o presidente do TRE, disse que o atraso era um problema técnico de computação que ele não sabia explicar.

6) O TRE solta boletim com Brizola em terceiro lugar e Moreira Franco em primeiro. (Em Arquive-se, documentário citado).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h24
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20 de novembro, sábado

1) O Jornal do Brasil em manchete: Vantagem de Brizola é de 119 mil votos. Brizola tem 34,2% dos votos computados pelo jornal, e Moreira Franco, 30,4%. A vantagem se amplia de 1,6 pontos percentuais para 3,8 pontos percentuais em 11.528 urnas de um total de 17.528. Na capital, Brizola vence por 42% a 26,1% para Moreira Franco. Na periferia, a diferença a favor de Brizola é menor de 38,9% a 35,5%.

Texto interno explica que a vinculação não chegou a prejudicar Brizola, como esperavam os pedessistas, pois ele está arrastando com sua votação os prefeitos de Nova Iguaçu e São João do Meriti.

No interior, onde o PDS esperava uma diferença de 50% sobre Brizola, os resultados mostravam que Miro Teixeira é quem vencia nas pequenas e médias: 37,9% para o candidato do PMDB e 36,9% para Moreira Franco. Texto interno aponta várias frustrações nas expectativas do PDS quanto à votação nas regiões.

O jornal informa que o TRE só divulgou até ontem, dia 19, o resultado de 1,4% das urnas. Mais de 80% dos boletins das juntas apuradoras estavam sendo rejeitados pelos computadores da Proconsult. Nesse ritmo, o resultado só sairia em oito meses.

No caderno Eleições, o diário conta que os digitadores espalhados por cinco endereços estavam tendo o trabalho duplicado. Isto porque o computador rejeitava o boletim da junta apuradora, que acabava retornando a ela para correção e, depois, novamente seguia para ser digitado antes de retornar ao computador.

O jornal informa também, que o primeiro boletim do TRE deu conta de 706 urnas em depuração. O segundo, que se referiu a 109 urnas totalizadas pelo computador, acusava 891 votos em depuração. E o terceiro, no qual 250 urnas eram contabilizadas, apontava para 1.903 votos em depuração. De forma que, até sexta-feira, 19, das 2153 urnas recebidas pela Proconsult, só 250 foram liberadas e o índice de rejeição era da 88%.

Cada urna produzia três boletins. Isso foi decidido pelo TRE, não pela Proconsult, relata o jornal. Um boletim se referia à escolha para governador e deputado estadual. O outro, aos cargos de deputado federal e senador e o último, aos de prefeito e vereador.

O boletim do TRE, o terceiro divulgado, apontava Moreira Franco com 21.918 votos, Miro Teixeira com 20.757 e Brizola com 13.135, em 250 urnas.

Outro texto relata que PDT, PMDB e PT pediram ao TRE uma auditoria técnica no trabalho da Proconsult ao presidente da comissão apuradora, Jalmir da Fonte. Informa que só ontem, dia 19, o total de nulos e em branco começou a constar dos boletins do Tribunal, mas com erros, segundo os delegados dos partidos. Da Fonte negou acesso ao processo de depuração por parte dos delegados.

A Associação de Profissionais de Processamento de Dados do Rio apoiou a auditoria solicitada, informa o jornal. Sergio Rosa, que a preside, disse que é falácia atribuir o atraso a inadaptabilidade dos digitadores ao computador. Afirmava que o problema da Proconsult é mais grave que isso.

Outro texto conta que Moreira Franco foi à TV Globo e acusou Brizola de ter feito chantagem sobre a opinião pública, o TRE e o próprio processo democrático, quando disse que só a fraude o impediria de ser governador. Se ele tiver uma prova de fraude que venha a público e a apresente, disse o candidato do PDS, ao sustentar que os números apurados oficiosamente até agora lhe permitiam prever que poderia ganhar por uma margem de 70 mil votos.

O coordenador do programa de apurações de Moreira Franco, o engenheiro Mario Rosencwajg, achava que o candidato do PDS está em ascensão na capital, informa o jornal.

Outro texto diz que a fraude tirou mil votos de Brizola na 83 zona, no colégio Monteiro Lobato, em Nova Iguaçu, urnas de Mesquita, rasurados por caneta e caligrafias iguais. O juiz Alexandre Herculano Varela disse que houve fraude por parte do mesário durante a votação ou então, a urna foi violada posteriormente. O delegado do PDT pediu abertura de inquérito pela Polícia Federal em ofício ao TRE.

Outro texto fala de tumulto na contagem de votos em Niterói.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h22
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2) O Globo ,em manchete: Brizola avança no Rio; interior quase no fim. Diz que os dados no centro de computação do jornal davam a Brizola 40% dos votos da capital. Eram quase onze da noite da véspera quando os dados do jornal indicavam que Moreira Franco ganhava com 812.408 votos e Brizola tinha 762.723, quando já haviam sido computados 46,8% dos votos da capital, 41,3% da periferia e 70,2% do interior.

Esses números são, porém, inferiores aos que o jornal publica em página interna sob o título Apuração no Rio. Mas, igualmente, são proporcionalmente menores no caso de Brizola do que no de outros candidatos, em comparação à votação que, de fato, se configuraria no resultado final.

Texto interno diz que a distância que separava Brizola de Moreira Franco diminuía. Estava em menos de 50 mil votos, num total de perto de 2,8 milhões de votos já contados. Mas às 23 horas, com o fechamento de algumas apurações em pequenos municípios, Brizola havia crescido relativamente no interior e na capital. Chegava a obter vantagem teórica de 100 mil votos na projeção feita a partir dos números recolhidos pelo centro de computação.

Outro texto dá o candidato do PDS julgando declaração lamentável a afirmação de Brizola acerca de fraude. Informa que o PDS esperava vitória por 76 mil votos.

Outro texto relata que o TRE informou que a abstenção deverá ficar em torno de 14%. (Ficou em 7,8%).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h22
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O ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos negou a existência de fraude e disse que Brizola é incendiário, revelando-se convicto da vitória de Moreira Franco. Baseio-me em números. Li no jornal hoje que ele está com cerca de 80 mil votos na frente. O ministro qualificou Brizola dessa forma por conta da declaração que o candidato do PDT deu na coletiva sobre a fraude como única hipótese para sua derrota. Começou a acender uma lamparina para pegar fogo, disse o brigadeiro Mattos, no Clube do Exército, no Rio.

O almirante Maximiano da Fonseca, ministro da Marinha, por sua vez, afirmou que a possibilidade aventada por Brizola é mau sinal para ele. Carlos Átila, porta-voz da Presidência da República, disse, em seu nome pessoal, que a entrevista de Brizola causou má impressão porque deixou evidenciado que ele não mudou nada.

Em outro texto, o jornal titula: Desorganização prossegue e resolução do TSE é violada, referindo-se ao fato de que os boletins não são imediatamente divulgados após a conclusão do trabalho das juntas apuradoras.

Em um box sob o título Atrasar boletim é crime eleitoral, o jornal reclama do atraso na divulgação dos dados oficiais imediatamente após a apuração de cada urna, como requer a legislação. E explica a sua situação: diz que, por conta disso, a Central de Apuração do Globo, que já foi prejudicada no inicio com a falta de boletins da capital e da periferia, dobrou sua carga de trabalho. Passou a usar boletins semelhantes aos do TRE, onde são transcritos rigorosamente os números oficiais apurados para os candidatos em todos os níveis. Sinuoso, o texto se resume a uma justificativa para o atraso da apuração no Centro de Processamento de Dados de O Globo.

Outro texto diz que a Sysun Sistemas e Serviços de Informática, que reunia os profissionais que auxiliavam o PDT, afirmou que é impossível Brizola perder as eleições.

César Maia afirmou que é impossível que os votos fraudados superassem 2%. "Mais do que isso seria coisa de quadrilhas organizadas, envolvendo milhares de pessoas, afirmou. As projeções da Sysin apontavam, informou o pedetista, para uma vitória por 280 mil votos, 14 vereadores no Rio, 26 ou 27 deputados estaduais e 17 federais.

Ele disse também que, das 4449 urnas processadas até a tarde de ontem pela empresa, 1386 tinham os mapas preenchidos com problemas, o que não significava necessariamente fraudes.

Outro texto publica nota dos Jornalistas de TV Globo que protestam conta outra, assinada pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, então presidido pelo pedetista Carlos Alberto de Oliveira, candidato a deputado federal.

A nota do Sindicato fala em "omissão deliberada de dados que informem a opinião pública sobre os resultados do histórico pleito e afirma que a Rede Globo "se esmera em apresentar projeções baseadas em dados colhidos com parcialidade, para assim chegar a conclusão que a opinião pública considera distante do pronunciamento do povo nas urnas. È assinada por Fichel David Chargel, presidente em exercício e empregado do Globo em litígio com a empresa, segundo o jornal.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h21
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Há também textos de repúdio à nota sindical assinados pessoalmente pelos o Woile Guimarães, Dante Matiussi, Luiz Gonzáles e Paulo Gil Soares em apoio a Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo.

Um outro texto informa que o juiz mandou apurar fraude em Nova Iguaçu (o caso de Mesquita).

Em página interna, sob o título Apuração do Estado do Rio, um quadro se refere a dados elaborados pelo centro de computação de O Globo e informa: Moreira Franco com 840.651 votos, Miro Teixeira com 622.556 e Brizola com 794.145. A anulação soma 104.907 sufrágios e os em branco contabilizam 140.740. (A esta altura, portanto, a votação apurada pelo jornal representava percentuais superiores a 50% para Moreira Franco e Miro Teixeira_ respectivamente 54,9% e 57,9% _ em relação àquilo que se verificaria no resultado final anunciado em dezembro pelo TRE. No caso de Brizola porém, não chegava a tanto _ seus votos equivaliam então a 46% do total que teve na eleição. Os votos nulos e em branco também já representavam 56% do total que foi verificado ao final.)

3) A Central de Apuração de O Globo encerra sua apuração, segundo Iram Frejat, seu coordenador. (Em O Globo, 25/11/1982, Editor do Globo envia carta a senador do PDT).

4) IstoÉ sai com matéria Contagem Regressiva em sua edição de 24/11/1982. A revista escreve: o fato é que os votos já contados, pelos funcionários da Globo ou pelos escrutinadores oficiais, não chegavam aos totalizadores.

O jornalista Iram Frejat, responsável pelo esquema de apuração do jornal O Globo, argumenta que há um flagrante desrespeito da lei por parte da maioria dos juízes que retardam de forma inexplicável e estranha a divulgação dos boletins já prontos. Mas a revista acha que isso não justifica totalmente o clima de apreensão que passou a acompanhar a marcha das apurações do Rio e para o qual a Globo, para sua infelicidade, com seu invejável poder de penetração, acabou contribuindo.

A publicação afirma que a cobertura da TV Globo atravessou pelo gigantismo de suas alas, já que 25 mil pessoas no país alimentavam, processavam e analisavam ou reproduziam informações armazenadas em 15 computadores interligados via Embratel a duas centrais _ uma em São Paulo, utilizada pela televisão, e outra no Rio, com sede na redação de O Globo". Teoricamente, o sistema, em dez minutos, responderia a 22 diferentes perguntas sobre a eleição em todo o país.

À revista, Adilson Rodrigues da Silva, gerente de sistemas do CPD de O Globo, responsável pela intrincada rede de apuração eletrônica da Rede Globo, comenta: se estivéssemos apenas interessados em obter os resultados dos cargos de governador e senador, nossos números seriam os mais avançados.

Conta IstoÉ que o terminal paulista encrencou por várias horas logo no primeiro dia de apurações, enquanto a Rádio JB, ocupada apenas com a corrida para governo estadual e Senado, partia na frente com dez maquininhas de calcular.

Em outro texto, intitulado Nas urnas e na tela, IstoÉ conclui: O desfecho do pleito fluminense era, na sexta-feira, 19, uma questão superada: Brizola é o novo governador do Rio e Roberto Saturnino Braga, seu companheiro do PDT, o novo senador.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h21
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5) Bem cedo, Arcádio liga para Pery Cotta pedindo que localizasse com urgência a Tadeu Lanes, gerente de métodos e sistemas do Jornal do Brasil. Pouco antes do meio dia, Lanes convoca uma reunião com a redação do jornal para dizer que os números da Proconsult garantiam a vitória do PDS e que os resultados do jornal estavam errados, pois não consideravam o diferencial Delta. A redação, porém, continuou contando os votos e fazendo suas projeções. (Depoimento de Pedro do Couto, jornalista e especialista em pesquisa de opinião, contratado para fazer projeções eleitorais para o Jornal do Brasil em 1982 e de Pery Cotta, editor de Política da Rádio JB).

6) O telefone de Luís Carlos Cabral toca na TV Globo do Rio, onde ele era, àquela altura, a maior autoridade da emissora no estado. A voz cavernosa que eu só conhecia através das televisões agradecendo a prêmios na maioria recebidos artificialmente estava lá.

__ Quem era o responsável pelo jornalismo da Globo ontem à tarde?

__Pelo jornalismo nacional, Eduardo Simbalista; pelo jornalismo local, eu mesmo, Luis Carlos Cabral.

--É com você mesmo que eu quero falar. Você me desobedeceu.

Confesso, não é vergonha: a mão tremia. Não era medo do desemprego. Era o terror de quem vê desabar sobre si, repentinamente, o próprio Spectro. Jung explica. Mas, sim: a voz era firme.

-Dr. Roberto, se desobedeci foi involuntariamente.

-Você me desobedeceu. Eu disse que não era para projetar e você passou o dia inteiro projetando, dizendo que o Brizola vai ganhar. Você me desobedeceu.

-Mas dr. Roberto, eu não podia desobedecer a ordens que não recebi. Projetei segundo a orientação de meus chefes.

-E quem são os seus chefes?

-Os meus chefes são, pela ordem, Alice Maria, Armando Nogueira e Roberto Irineu.

-Eles não são chefes coisa nenhuma. O chefe aqui sou eu e você me desobedeceu.

-Bem, dr. Roberto, não desobedeci.

-Vai trabalhando ai, que na segunda-feira, a gente conversa. Até logo.

Cabral contou, mais de duas décadas depois, que, em seguida ao telefonema, tratou de procurar seus chefes. Mas eles estavam voando do Rio para São Paulo. Depois de conversar com Adilson Rodrigues da Silva, gerente de sistemas do CPD de O Globo, ligou então, de volta para Roberto Marinho. Queria lhe informar que Brizola era o governador do Rio de Janeiro.

Marinho perguntou-lhe quem é que estava dizendo isso. Cabral respondeu-lhe que eram as urnas. E explicou de onde vinha a informação. De novo, Roberto Marinho disse-lhe para ir trabalhando que ele ia dar uma voltinha e, depois, lhe telefonaria. Nunca mais se falaram. Tempo depois do episódio, Cabral conta que foi promovido à chefia regional porque agiu para defender a empresa. (Ler depoimento em novembro de 1986, escrito por Cabral para o jornal Nacional).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h20
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7) Dalpes Monsores, juiz aposentado, não falou com a imprensa no dia em que disse que anunciaria o resultado. Quando esteve na ativa, chegou a rasurar seu próprio despacho, trocando deferido por indeferido, em um processo judicial onde uma das partes era atendida pelo advogado Bernardo Cabral, em 1973. (Em Playboy, março de 1983, texto citado).

8) Tília de Andrade denuncia, ao conferir e protocolar os mapas que chegavam das juntas para serem totalizados no computador: os mapas vinham com a mesma caligrafia, embora viessem de zonas diferentes. Havia outros que eram fechados sem que se computasse um só voto para governador. Mas, se você quiser anular essa eleição, peça para a Justiça verificar os mapas da 13 zona eleitoral (Realengo, Jacarepaguá e Barra de Tijuca) e recompor os boletins. Não há um que não esteja rasurado pelo menos duas vezes. Os juízes do TRE, dentro da própria Proconsult, reescreviam os mapas para que o computador aceitasse os números. Eu protocolei 14.325 boletins das 17.560 urnas que não poderiam valer porque estavam totalmente ou parcialmente rasurados". (Em Arquive-se, documentário citado)

9) Gilberto Pascoal, assessor técnico pra processamento de dados do juiz Dalpes Monsores, responsável pela apuração no TRE, diz a um juiz eleitoral destacado para corrigir boletins na boca do computador: "acabo de fechar um boletim de urna com 690 eleitores. O interlocutor responde: "não serão duas urnas em um mesmo boletim? Pascoal admite que não sabe e comenta: "Trabalho como bicheiro. Para mim vale o que está escrito. (Em Playboy, março de 1983, texto citado).

10) César Maia conta que a fraude ocorre na hora da contagem e da transcrição dos mapas. "Uma vez o mapa pronto, nós temos uma copia do mapa, um documento oficial. Se o documento for fraudado no processamento, nós temos um serviço de processamento paralelo para constatar a fraude. Então, ninguém vai ser ingênuo de fraudar o processamento. As fraudes já ocorreram. Na contagem e na formação dos mapas". Diz que tem provas, mas que o partido não quer abrir feridas. Calcula que Brizola perdeu 100 mil votos, com fraude em diversas regiões. Oferecemos esses 100 mil votos em nome da democracia e da paz. (Em Arquive-se, documentário citado).

11) O candidato a vereador em Niterói, pelo PDT, Osvaldo Maneschy, repórter de O Globo. Trabalhava para a editoria de bairros, sob a chefia do jornalista Michel Temer e durante muito tempo, escreveu para o Globo Niterói. Mas desde que a campanha compeçou achou por bem mudar para o Globo Méier, porque não faria sentido batalhar votos e matérias ao mesmo tempo em sua própria cidade. Ganharia a suplência, mas naquele sábado, 21, estava tão ansioso como nos dias anteriores para obter informações sobre os resultados eleitorais. A seu lado, na redação, circulava um repórter de mais idade, incumbido, naqueles dias, de transmitir boletins sobre a apuração para a Rádio Globo. Assim como a TV, a Rádio também montara estúdio próximo ao CPD, instalado no segundo andar do prédio da Rua Irineu Marinho. .

No início da noite, o radialista subiu ao segundo andar, onde ficava o CPD do Globo, para apanhar os resultados e poder confeccionar seu boletim. Maneschy nunca perdia chance e sempre lhe perguntava sobre o pleito. Pouco tempo depois, o radialista retornou, lhe chamou e disse:

__Ih! O velho enlouqueceu. Ele mandou parar o computador.

__Parou mesmo?, indagou Maneschy.

__ É, foi ordem do dr. Roberto Marinho!

(Em depoimento de Osvaldo Maneschy em agosto de 2004)

12) Moreira Franco diz à TV Bandeirantes que ainda está com a projeção inicial. Ela lhe dá uma vitória por 70 mil votos sobre o candidato do PDT. (Em Arquive-se, documentário citado)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h20
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21 de novembro, domingo

1) De madrugada, Arcádio Vieira, vice-presidente da Proconsult, liga para Procópio Mineiro, editor-chefe da Rádio JB e diz que, caso a emissora proclamasse Brizola vencedor, um dos dois teria que se mudar para Paris.

Insiste em saber qual o total de brancos e nulos que estavam sendo computados. Lembrando o modelo Proconsult, oferece a Procópio a chance final de passar as informações corretas: o jornalista seria procurado no dia seguinte, segunda-feira de manhã, por uma repórter que não podia ser identificada, cujo codinome seria Rose. Ela lhe transmitiria as informações ditas corretas.

O modelo Proconsult é uma pesquisa que Arcádio mandou fazer antes de ganhar a concorrência do TRE. A pesquisa era montada, basicamente, sobre duas perguntas; quem vai vencer? E se Moreira vencer?

"Ao chamado modelo Proconsult, se agregava também um projeto estatístico que garantia a vitória de Moreira Franco", contou Mineiro. Mais tarde, o jornalista diria a Playboy, garantindo que nunca duvidara de seus próprios dados: Naquele momento, o que eu temia era que me cortassem os telefones, inviabilizando minha cobertura. Não há dúvida de que no Rio foi armado um gigantesco esquema de fraudes das eleições". (Em Jornal do Brasil de 27/11/1982, texto citado e Arquive-se, documentário citado).

2) O Jornal do Brasil, em manchete: Brizola consolida liderança na apuração. O texto diz que, com 33,8% contra 30,4% na apuração computada pelo jornal, Brizola ganha com 1,323718 milhão de votos. Moreira Franco tinha 1,209591 milhão de votos, Apurados até então, 3.682.871 votos, ou 66% do eleitorado, faltando 20,9% dos votos da capital, 42,7% dos votos da periferia e 31,7% do interior. Um quadro exibe os números na capa.

O último caderno Eleições informa que o total de votos nulos e em branco para 12.825 urnas é de 11,5% e que o confronto entre PDS e PDT está limitado a Nilópolis, na Baixada Fluminense.

O PDT deixou um vazio político no interior. Um quadro exibe a votação nos 64 municípios fluminenses.

O TRE, em cinco dias de apuração, não contabilizou 3% dos votos. Incluiu somente 517 urnas. E o quarto boletim oficial, divulgado no sábado, 20, dava Moreira Franco com 45.742, Miro Teixeira com 4.1339 e Brizola com 25.632. O boletim não fazia mais referência a urnas rejeitadas pelo computador. A procedência das urnas passou a ser codificada.

Outro texto conta quem são os "luas pretas" de Miro Teixeira.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h18
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3) O Globo em manchete: Resultado final no Rio ainda indefinido. Na linha fina, Brizola passa à frente por 65 mil votos. No centro de computação de O Globo, Brizola tinha 1,245.426 votos contra 1,179.706 de Moreira Franco, em uma diferença de 65.720 votos que, por corresponder a pouco mais de 1% dos votos do Estado, não implicava definição do resultado eleitoral, de acordo com o jornal.

Editorial na capa do jornal, Respeito às Urnas, invoca o crescimento do eleitorado do PDS no Estado para justificar a frustração de comentaristas que burlam a lei eleitoral e organizações que esperam benesses públicas para resolver problemas administrativos notórios, pois não podem mais falar em consagração popular ao protesto. Por isso, atacam a Justiça Eleitoral, falam em fraudes e golpismos e voltam-se contra as Organizações Globo.

"Não precisamos anunciar que tudo aquilo que noticiamos é verdadeiro. Não temos interesse me cargos públicos.O jornal clama para que não se faça agitação, quaisquer que sejam os resultados das urnas.

Também na capa do jornal, o texto Proconsult rejeita 90% dos mapas por erro, remete ao juiz Télio de Barros. Costa, presidente do TRE, que se reuniu com os delegados do PDS, PDT e PT, mas não anunciou novos planos. Informa que foi reconhecida pelo TRE fraude em Engenheiro Pedreira, Nova Iguaçu _ uma urna tinha mais votos do que constava da ata e 63 cédulas estavam escritas com caligrafia semelhante.

Em texto interno, o jornal afirma que Vinculação derrotou lideranças na Baixada.

4) Arcádio Vieira, o vice-presidente da Proconsult, liga para a Rádio JB. Então, vocês vão proclamar o Brizola governador? Quem vai ganhar é o Moreira. Pery Cotta, editor de política, responde:"Nós vamos dar os números que estão aqui". O interlocutor não desiste:"Mas os números de vocês não são os oficiais! Quem tem os números oficiais sou eu". O jornalista responde: Você está enganado. Quem tem os números oficiais é o TRE, a Justiça Eleitoral. Não é nem a Rádio JB nem a Proconsult.

Na Rádio JB , ao meio dia e meia, é transmitido o resultado final em projeção: vitória de Brizola por 192.000 votos.

Às 16 horas, a emissora põe no ar uma entrevista com os candidatos que estavam à frente na sua apuração, Leonel Brizola e Roberto Saturnino Braga. Faltava ainda a apuração de uma expressiva parte dos votos da capital, onde a vantagem do ex-governador gaúcho vem sendo acentuada. Leonel Brizola, com esses números, como você se posiciona nesse momento? "...um cidadão, até aqui candidato de um partido, apoiado por uma parcela imensa da população, deixa de ser o candidato apoiado e preferido por esses cidadãos e cidadãs para assumir uma investidura que se verifica a partir de agora _ ser o governador de todos". As pressões sobre a Rádio acabaram ali. (Em Arquive-se, documentário citado).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h16
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5) Arcádio Vieira, já naquela tarde, procura Myron Villanova, analista do PDT enviado para acompanhar a apuração na Proconsult. Tenta convencê-lo de que o PDT processava errado os dados recebidos do TRE. Diz que o Jornal do Brasil, que cometia o mesmo erro de ponderação, já aceitara seu modelo matemático. Os dois combinam de se encontrar à noite na residência do empresário, em Vila Isabel.

A reunião termina às duas da madrugada de segunda-feira, 22, depois de Arcádio Vieira ter dito que fora pressionado tanto pelo Jornal do Brasil como por O Globo, antes das eleições, para que vazasse os resultados oficiais, mas resistira. Explicou que sua posição era delicada, como vice-presidente operacional da Proconsult e que sua influência na mudança dos resultados majoritários poderia valer um milhão de dólares.

Em cinco folhas de papel, demonstrou então, sua teoria do diferencial Delta, que dava a vitória a Moreira Franco por, pelo menos, 40 mil votos. Afirmou que nulos e brancos somariam 30% dos votos, o que garantiria a vitória do PDS. E que a Baixada Fluminense votaria em Brizola, Marcio Braga e Xuxa.

Arcádio Vieira queria que Villanova convencesse o PDT a deixar que pessoa da confiança da Proconsult corrigisse o programa de processamento do partido, compatibilizando os resultados de ambos. Lembrou que seu amigo Tadeu Lanes já tinha imposto, na chefia do processamento de dados do JB, o seu modelo: o do diferencial Delta.

O Jornal do Brasil diz que Villanova é amigo de Arcádio Vieira. Ele entrega o bilhete a César Maia. Na primeira folha, Arcádio lembrava quão importante era pegar a tabela do computador. Mostrava que o mapa do Jornal do Brasil associava número de urnas por município. Um gráfico se referia ao número de urnas de Angra dos Reis. Com a ressalva do número provável de eleitores e de votos em branco e nulos.

Na segunda folha, ele fez projeções indicando a vitória de Moreira Franco, chamando atenção para os votos em branco e nulos e observando que, em cada município, tal tendência devia ser considerada.

Na terceira folha de caderno, Arcádio Vieira escreveu que os dados do Jornal do Brasil eram estimados e, por essa razão, seria necessário comparar o modelo da Proconsult com o do jornal. Em observação, ele afirma que o que fez, não tem prévia. Deu Moreira com 40 mil votos a mais. Aos integrantes do PDT, ele escreveu: Lanes, do Jornal do Brasil, já se convenceu de que o modelo está certo. Sugeria que o partido procurasse o professor Morgado, conhecido matemático cujo nome está na mesma folha. Ele demonstraria a correção de seus dados.

Na quarta folha, nova projeção, após dividir os números em Rio, interior e Baixada Fluminense, apontando a vitória de Moreira Franco. Considerava também nas suas projeções, os indecisos.

Na quinta e última folha, Arcádio Vieira falava em 20% de votos nulos e em branco. E apresentava o resultado _ um ponto de interrogação _ indefinidos". Insistia, de novo, que tudo depende dos nulos e em banco. (Em Jornal do Brasil, de 27/11/1982, Empresa também pressionou o PDT)

6) Sai o quinto boletim do TRE dando, pela primeira vez, os votos nulos e em branco. Refere-se a 804 urnas, com Moreira Franco somando 72.163 votos contra 36.349 de Brizola e 74.270 para Miro Teixeira.

O Globo exulta na primeira página da edição do dia seguinte porque o boletim confirma o que o jornal deu quando seu centro de computação trabalhava com o mesmo número de urnas. Para incluir os brancos e nulos, a Proconsult resistiu muito, mas teve que mudar o programa do computador e alterar, até mesmo, o lay out dos resultados parciais. Os votos nulos e em branco foram a caveira de burro do processamento eletrônico. (Em Playboy de março de 1982, texto citado).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h14
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22 de novembro, segunda-feira

1) O Jornal do Brasil abre manchete: Brizola se diz eleito e elogia Figueiredo. No placar eleitoral, o candidato do PDT tem 1.408.030 votos e Moreira Franco 1.301.146 em 14791 urnas. A vantagem é de 106. 886 votos. No escritório do candidato do PDS, instalado na Casa da Agricultura, no centro do Rio, tudo foi desmobilizado. Do elevador, ele afirmou ao repórter que nada tinha a dizer porque não tinha mais dados.

2) O Globo, em manchete: Projeção das urnas apuradas dá a vitória a Brizola por 144 mil votos. No texto, o jornal informa que Brizola tem 1.722.423 votos na projeção do resultado. Moreira Franco alcançaria 1.578.123. A diferença, portanto, seria de 144.300 votos. "Uma projeção de valor relativo, funciona como simples especulação matemática e não como antecipação do resultado, pois os números finais. que o TRE divulgará poderão ser diferentes. Informa que, para armar a projeção, foram levados em conta 80% dos votos recolhidos no Estado, ponderando-se o desempenho dos candidatos na capital, interior e periferia. Mas na página 11, o jornal publica dados oficiais, sob o título Novo boletim do TRE confirma os dados de O Globo; Moreira Franco tinha 79.108 votos, Miro Teixeira 68.414 e Brizola segue sendo o terceiro colocado, com 40.702.

3) Na reunião da vice-presidência de Operações da TV Globo, chefiada por Boni, um colega avisa a Homero que a tentativa de fraude não acabou". Roberto Irineu pergunta a Homero o que ele faria agora, em sua área, uma semana depois das eleições. O mesmo colega pisca o olho para Homero, que responde nesta mesa, você será o primeiro a saber se o Moreira ganhou. Você tem íntimo contacto com os órgãos de segurança, segundo o que você disse, e, como vice-presidente da empresa, tem íntimo contacto com políticos. Então, será o primeiro a saber. A única coisa que lhe peço é que, se souber isso com dois dias de antecedência, me ligue e diga: Homero, Moreira ganha daqui a dois dias. Perguntam-lhe porque ele queria isso. Homero responde que era para poder pegar seu carro, "ir para casa, ficar dois dias em retiro literário e, depois, pegar de novo o carro, passar em frente à TV Globo para saber o que sobrou do incêndio, se a sala do Irineu se incendiou, se o Roberto ainda tinha uma mesa aí em cima ou não. Enfim, ver o que sobrou.

Homero achava que, diante de sua resposta, foi a primeira vez que eles levaram tal possibilidade a sério. Àquela, conta, já tinha havido episódios de caminhonetes da Globo apedrejadas e jornalistas agredidos na rua.

No dia seguinte, Homero recebeu telefonema do irmão dizendo que o pai estava à morte e embarcou para o Panamá. (Em Playboy de maio de 1983, entrevista citada)

4) De manhã, Arcádio conversa com César Maia por telefone. O responsável pela apuração paralela do PDT intermediou o encontro da noite anterior, enquanto esperava de Villanova, ao final da conversa, o diferencial Delta. Arcádio diz a Maia que o coordenador do PDT estava cometendo um erro muito grande. Fala sobre o modelo matemático e a idoneidade de sua empresa. Insiste que Maia precisa levar em conta os votos em bancos e os nulos. Maia discorda.

Arcádio Vieira fala da possibilidade de manipulação de dados. Estranha a precariedade do sistema de computação do PDT e sugere a contratação de Arnaldo Coogan, porque ele saberia corrigir o erro. E também, sugere que Maia procure o professor Morgado, um grande matemático, que não é como Oswaldo de Souza, que pouco sabe, Morgado, a seu ver, é quem poderia fazer as projeções corretas. Pede também uma reunião com Cibillis Viana . Quem decide a coisa somos nós mesmos, mas encaminharemos a sugestão ao governador. (Em Arquive-se, documentário citado e Jornal do Brasil de 27/11/1982, texto citado).

5) Brizola responda à Maia irritado dsobre a sugestão de Arcádio: esse senhor tem que somar, ele não tem que projetar nada. Eles são contratados para não se envolver". (Veja depoimento de Brizola a Osvaldo Maneschy sobre o episódio). (Em Arquive-se, documentário citado).

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h12
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6) Às 20 horas, no restaurante Rio´s, em pleno aterro do Flamengo, Arcádio se reúne com Cibilis Viana, secretário-geral do PDT, e Carlos Franco, conhecido como Juca Franco e amigo pessoal de Brizola, nascido em Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul. Comendo coquetéis de camarão, Arcádio sugere a demissão da equipe por incompetência. Diz que tinha falado com Tadeu Lanes, o gerente de sistemas do Jornal do Brasil. E que ele se convencera dos erros da computação já que votos em branco e nulos haviam sido desprezados. Indica alguns analistas seus, entre os quais Myron Villanova, que estava a serviço do PDT na Proconsult. Juca desconfiou de Villanova. Comunicou sua desconfiança a Maia e Brizola. A conversa termina com Arcádio vangloriando-se de sua honestidade, pois não estava ali pedindo a presidência do Banerj, embora estivesse em suas mãos a eleição de Brizola ou não". Juca Franco passou a ameaçá-lo de morte se entrasse nessa. (Veja depoimento de Brizola a Osvaldo Maneschy sobre o pedisódio) (Em Playboy de março de 1983, texto citado e Jornal do Brasil de 27/11-1982, texto citado)

7) César Maia recebe a listagem da Proconsult, com 1324 urnas. Nesse momento, as coisas começavam a encaixar". O Jornal do Brasil de 27/11/1982, (texto citado) conta que foi assim que o PDT teve a confirmação de que os mapas de apuração com erros, rejeitados pelo computador da Proconsult, haviam sido corrigidos tão somente nos números concernentes às legendas e não aos votos dados a governador e senador. A fonte de tal informação teria sido um digitador da Datamec. Ele mandou ao PDT uma computação feita pelos digitadores, paralelamente à da Proconsult, que apontava Brizola como vencedor.

O partido resolveu verificar os mapas oficiais, mesmo sem ter as seções apuradas pela Proconsult, que divulgava só os números computados, sem identificar as urnas. Constatou, já na madrugada da terça-feira, 23, que havia um crescimento de votos nulos e votos em branco com base na multiplicação de votos dados a Moreira Franco e Brizola por urna em alguns municípios, em detrimento ao número de votos de Brizola, que caiam em 15%. Já os números de Moreira Franco batiam com os computados pelo PDT.

Para Maia, as coisas começavam a bater porque, nas conversas que teve com o Jornal do Brasil, percebera também que os resultados de votos em branco e os nulos estavam acima do normal.

A chegada da última listagem, indicando que os votos em branco e os nulos cresciam de 14,2% para 14,4%, já não deixava margem à dúvida: o que tinha aumentado naquele momento era o voto da capital. Não havia razão para um acréscimo e sim, para uma redução. (Em Arquive-se, documentário citado).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h12
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23 de novembro, terça-feira

1) O Jornal do Brasil no texto da manchete Tancredo anuncia que procurará Figueiredo informa que Brizola tem 1.408.397 votos (33,6%) contra 1.283.682 (30,6%) de Moreira Franco em 4.646.792 votos apurados pelo jornal. A diferença é de 124.715 votos.

O juiz Jalmir Da Fonte, que preside a comissão de apuração do TRE, considera perfeitamente confiáveis as projeções extra-oficiais das eleições do Rio que apontam Brizola como vencedor. A eleição já está apurada. Quem calcula é a Proconsult e o que falta é a totalização, explicou.

No texto interno, o jornal diz que encerrou sua apuração, mas mantém suas equipes de coleta de informações agora diretamente nos cartórios das zonas eleitorais a fim de obter dados não registrados com as juntas de apuração. Reduz a votação de Moreira Franco devido a erro de lançamento nas zonas 85 e 45.

O general Euclydes Figueiredo, irmão do presidente da República comparou Brizola a um sapo que a gente engole, digere e, na hora certa, expele.

Outro texto sobre a expectativa do PDT diz que a apuração do partido dava a vitória de Brizola com diferença de 200 mil votos sobre o candidato do PDS, contabilizadas 15.632 urnas.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h10
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2) O Globo em manchete: TRE: Números oficiais devem confirmar os que a imprensa já divulgou. Conta no texto que o presidente da Comissão de Apuração do TRE, Jalmir da Fonte, disse que eles devem corresponder muito aproximadamente ao que o TRE divulgará em data que ele não quis prever.

O juiz Paulo Panza, que atua na Proconsult, disse que o resultado sai até quinta-feira, 25. pois já estão sendo processados na empresa mapas encaminhados ao TRE pelos juízes de todas as zonas eleitorais da capital e do interior.

O analista Villanova, que acompanhava pelo PDT a totalização na Proconsult, dizia que ela se encerraria no sábado, 27. O jornal considera indício de que o otimismo possa ser procedente, o fato de que, na Proconsult não havia mais nenhum boletim a ser corrigido.

3) O PDT, seus analistas e advogados, bem como os do PT, PMDB e PTB se reúnem com o presidente do TRE, Marcelo Santiago Costa, e enumeram os erros que estavam sendo cometidos pela empresa contratada pelo Tribunal. Conta César Maia, ao recordar o fruto da checagem com os digitadores: "Hoje de manhã, o nosso advogado. Vivaldo Barbosa chegou acompanhado desses jornalistas (Haroldo Dias e Ronald Carvalho do Jornal do Brasil ). Eles conseguiram um pequeno processamento dos dados digitados por essa empresa que batia exatamente com os nossos resultados. Então, a gente ficou tranqüilo. Não são os mapas. Não é a digitação. O problema está no programa".

"Entregamos o dossiê ao dr. Vivaldo Barbosa, que foi ao TRE e o apresentou ao presidente. Ele reagiu estupefato, pôs a mão na cabeça:. "Meu Deus, o que está acontecendo! Nós dizíamos claramente qual era a nossa suspeição e que, para nós, o programa tinha desvios. Nós pedíamos para ter acesso às fitas e às listagens por município e seção. O presidente do TRE pediu ao dr. Arcádio que fizesse um comentário. Ele enumerou os títulos de seu currículo e falou que nem o nosso partido, nem a imprensa, tinham qualquer competência para discutir o assunto, etc..."

"O presidente do Tribunal arguiu que ele não deveria se envolver em projeções. Arcádio replicou dizendo que tinha se envolvido como pessoa física e não como pessoa jurídica. O presidente do Tribunal se dirigiu ao Cíblis Viana e disse: o que vocês querem? Nós queremos que se cumpra a lei. O edital das eleições no anexo 7 diz que os partidos têm direito a receber o resultado urna a urna. E nós queremos receber isso para controlar".

A imagem do desembargador Costa, desesperado, não saiu da retina de César Maia. Em julho de 2004 ele ainda a recordava: _A expressão do desembargador Costa me ficou marcada... Ele falando: Meu Deus! Não pode ser! Tão angustiado... É expressão de quem foi surpreendido. Não sei se o pessoal abaixo dele também foi porque lá há vários órgãos técnicos.... (Em Arquive-se, documentário citado e depoimento de Maia em julho de 2004).

4) Homero Icaza Sánchez recebe um telefonema informando-o de que seu pai está à morte no Panamá. (Em Playboy de maio de 1983, entrevista citada)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h10
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24 de novembro, quarta-feira

1) O Jornal do Brasil, em manchete: Moreira Franco reconhece vitória de Brizola. Ele deu a declaração na casa do sogro, o senador Amaral Peixoto. Disse que, agora, é hora de Figueiredo falar.

Brizola já descansava no interior. Tinha vantagem de 130.116 votos sobre Moreira Franco em um total de 4.205.855 votos processados pelo Jornal do Brasil.

Com 83,6% das urnas processadas, o jornal encerra sua apuração paralela e projeta uma diferença final de 173. 567 votos a favor de Brizola com 34,5% dos votos e Moreira Franco com 31,1%. O resultado final anunciado pelo TER daria uma diferença de 178.536 votos, Brizola com 34,2% dos sufrágios e Moreira Franco com 30,6%.(Três dias depois de O Globo, portanto, o JB termina a apuração).

"A nação está percebendo bem de onde vem a serenidade e de onde vem a provocação, afirmou ontem o senador Roberto Saturnino Braga, no Senado Federal, em resposta ao general Euclydes Figueiredo. Mencionou as tentativas de fraude, "por vezes bem sucedidas, que nos levaram boa parcela dos votos. Disse que tem elementos de convicção e faz afirmação assumindo a responsabilidade. Afirmou que em Nova Iguaçu, houve fraude com cobertura da polícia. Denunciou a manipulação da apresentação dos resultados. (leia anexa a íntegra do discurso.)

O Jornal do Brasil publica o editorial Respeito ao voto".

2) O Globo, em linha fina no alto da capa: Moreira Franco reconhece vitória eleitoral de Brizola.

Em textos internos, noticia que o TRE pediu à Proconsult que apresse o processamento dos votos. Informa também que o candidato do PDT reconheceu a vitória de Brizola e o partido se disse tranqüilo com o trabalho do TRE. Quem afirmou foi o Cibilis Vianna, secretário-geral do PDT. Na declaração, ele destacou o esforço do Tribunal em fornecer, no menor tempo possível, o resultado oficial das eleições.

3) À noite, o repórter da Rádio JB, Francisco Teixeira, encontra no lixo da Proconsult, com ajuda da iluminação provida pelos cineastas Guy van de Beuque e Ângela Mascelani, autores do documentário Arquive-se, um rascunho do programa-fonte do computador Univac da empresa, datado do dia 20. Era uma alteração que pretendia ser aceita pelo computador _ um bacalhau, na gíria dos técnicos. Um elo perdido do programa fonte que desapareceria dentro da empresa quando a auditoria do Serpro é pedida pelo TRE.

Teixeira e o editor de política da Rádio, Pery Cotta julgam o achado não conclusivo. (Em Arquive-se, documentário citado, e depoimento de Cotta em julho de 2004).

4) O gerente de métodos e sistemas do Jornal do Brasil, Tadeu Lanes, é demitido. (Em O Globo de 28/11/1982, O vencedor da eleição estava indefinido)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h08
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25 de novembro, quinta-feira

1) O Jornal do Brasil, em texto interno: TRE-RJ divulga cerca de 10% do total de votos. Refere-se a 1721 urnas, das quais só 45,4% são da capital e da periferia. Moreira Franco à frente tinha 153.045 votos. Miro Teixeira em segundo estava com 122.085 e Brizola com 107.937.

O PDT divulgou ontem o resultado de 16.602 urnas com 5.414.019 votos. Brizola tinha 1.639.722 e Moreira Franco 1.434.114, equivalentes a 35% e 30,6%. O resultdo final anunciado pelo TRE posteriormente contabilizou 1.709.264 votos para Brizola e 1.530.728 para Moreira Franco.

 

2) O Globo responde em editorial na capa ao senador Saturnino Braga. O título é O acusador desnudo. Diz que o senador não tem consistência ideológica, oscilando entre o capitalismo de Estado e o populismo, caracterizando uma nova forma de subdesenvolvimento intelectual que é a tecnodemagogia.

O jornal cita o trecho em que o senador diz que havia um propósito na campanha de desinformação da Rede Globo , que se frustrou. E também outro, em que o senador argumenta que ficou diante da tevê assistindo à Globo, dias seguidos, percebendo que os jornalistas "computavam só os resultados que favoreciam dos aos candidatos do PDS". E, mais ainda, observando que os mesmos guardavam nas gavetas os boletins que favoreciam aos candidatos do PDT para que o candidato do PDS pudesse ser apresentado na frente.... (veja discursos de Saturnino Braga em anexo).

O jornal responde que a audiência da TV sempre foi testemunha de que, ao final de cada noticiário sobre as eleições do Rio, sempre foram apresentadas projeções apontando a vitória do candidato do PDT. Só não tomaram conhecimento disto, aqueles que, aturdidos pela surpreendente pujança da votação do PDS, quando esperavam uma esmagadora consagração do protesto , sentiram-se frustrados, tentando formular as justificativas mais extravagantes.

O Editorial acusa os detratores de estarem convencidos de que não adiantava lutar contra o poder da Globo, através de tentar difundir informações distorcidas por outros meios de comunicação". E, por essa razão,se voltarem contra os profissionais de imprensa que trabalham na Organização Globo, que atuaram dentro do mais elevado padrão jornalístico".

Acusa Saturnino Braga de revirar o lixo dos restos da campanha eleitoral, "onde foi parar a tentativa fracassada diante dos fatos e de os detratores não conseguirem definir o propósito que atribuíam à rede de comunicação, para ressuscitá-lo sem definir novamente o propósito. Isso merece as penas da lei", escreve o editorialista. Para ele, Saturnino deveria se mirar em seus correligionários, como Aguinaldo Timóteo e o Cacique Juruna, cujo bom senso não lhe faria mal absorver.

Não fica por aí: à pág.3, o jornal publica um Comunicado, no qual desafia o senador Saturnino Braga a apresentar uma única prova da acusação que fez. Caso não o fizesse, o fato valeria como confissão pública de mentira.

Aguinaldo Timóteo diz que não há dúvida sobre a lisura do Globo na apuração. Outro texto diz que a Proconsult não deve acabar a apuração esta semana.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h03
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Iram Frejat, o editor de Cidade de O Globo, é apresentado como irmão de José Frejat, deputado e secretário-geral do PDT. É ele que responde a Saturnino Braga em nome do jornal, na qualidade de eleitor do senador. (Leia íntegra anexa) Explica que tomou medidas para superar a falta de boletins provenientes da capital, decorrente da falha dos juízes ao não afixarem os documentos imediatamente após a apuração, conforme manda a legislação eleitoral. Porém, o texto é pouco esclarecedor, Não se entende o que havia de diferente no procedimento adotado pelos estagiários de O GLOBO a partir da quarta-feira, 17 , em relação ao que faziam antes. O que faziam, afinal? Depois de quarta, passaram a entrar no recinto da mesa apuradora e pegar o resultado que estava impresso, mas não afixado? Se assim é, tratava-se de um procedimento legal?

3) Em Brasília, o senador Saturnino Braga responde ao editorial de O Globo da tribuna do Senado (leia o discurso em anexo). Afirma que os resultados da apuração foram distorcidos para mostrar ao povo que a eleição ainda estava indefinida, que havia uma hipótese de vitória para o candidato do PDS, quando todo mundo já sabia que aquilo não era verdade. Sobre

Com ironia, nota que seu nome voltou às páginas de O Globo depois de longo boicote e recorda que foi ele quem presidiu uma CPI na Câmara para investigar operações do contrato Globo-Time-Life, condição na qual foi assediado por Roberto Marinho para procastinar os trabalhos da Comissão. Marinho queria que a sessão legislativa se encerrasse sem conclusões. Mas como o parlamentar não cedeu, ganhou o boicote de O Globo.

O senador Saturnino Braga, ainda hoje senador pelo PT e até então duas vezes eleito pelo Rio, diz que aceita que Frejat tenha sido iludido pelos seus superiores, que lhe traziam aqueles dados, mas não aceita que não tenha havido a intenção de deformar.

"A mim não me convence", arremata. (Em Jornal do Brasil de 26/11/1982, Saturnino mantém acusações feitas ao Sistema Globo.)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h02
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26 de novembro, sexta-feira

1) O Jornal do Brasil, em manchete: TRE admite que errou boletins e vai reprogramar computador, conta que o presidente do Tribunal, Marcelo Santiago Costa, reconheceu que os boletins oficiais estão errados.

O tenente-coronel Haroldo Lobão Barroso, responsável técnico da Proconsult assumiu responsabilidade pelo erro e admitiu que o programa que fez está misturando votos brancos e nulos nos diversos cargos.

Ao repórter Heraldo Dias, Lobão Barroso disse: o senhor está falando com a pessoa que errou (Lobão Barroso era ligado ao SNI, como se lerá adiante).

O jornal diz que, ao comparar o boletim do dia 22, de número sete, com o do dia 23, de número oito, detectou crescimento do número de urnas no caso de governador de um para o outro. A diferença a mais era de 1721 urnas. Porém, sumiram 3.716 votos nulos e 13718 em brancos na sucessão dos boletins.

Lobão Barroso reconheceu que os em branco e nulos para deputado estadual apareciam, no relatório oficial, na votação para governador. Os nulos e em branco de governador iam para os deputados estaduais, os de senador para deputados federais e os de deputados federais para senador.

Lobão Barroso e Marcelo Costa garantiram que, desde ontem, 25, a contagem foi consertada. O presidente do Tribunal disse que os partidos, a partir de hoje, receberão um relatório de cada urna apurada (17.560 no total) apenas com a votação para Governador, para conferir e acompanhar as totalizações.

Na pág 8, o jornal exibe o boletim oficial do TRE divulgou no dia 22 que existiam 37.041 votos em branco e 18.415 nulos em 1324 urnas apuradas. No dia seguinte, em 1721 urnas, os votos em branco caíram para 23.325 e os nulos para 15.324", conforme a legenda da foto dos documentos oficiais.

Um texto de Heraldo Dias e António Luís diz que Costa, do TRE, os levou até o Centro de Processamento de Dados da Proconsult, onde Lobão Barroso assumiu o erro na frente dos três, do juiz Dalpes Monsores, e do vice-presidente da empresa, David Wharsager.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h01
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Os jornalistas lembram que os brancos e nulos só começaram a aparecer a partir do quinto boletim,

Costa agradeceu aos repórteres do Jornal do Brasil a informação do erro, que desconhecia. Mas o TRE não suspendeu a edição de novo boletim.

Na sede da Proconsult, onde só se entrava depois de passar por três barreiras da PMs, Monsores afirmou que, o boletim de número 9, já estava certo.

Lobão Barroso chegou a pedir a presença de um técnico em computação para poder explicar ao Jornal do Brasil o que aconteceu. Só explicou o erro aos repórteres quando Monsores lhe ordenou. Invocou o contrato para dizer que a empresa deveria ter soltado boletins em ordem decrescente de votos para cada cargo. E, sem os nulos e em branco. A pedido dos partidos, teve que incluir os votos em branco e os nulos. Fizera, então, um programa errado que começou a misturar os nulos e em branco de cada cargo.

A essa altura de seu esclarecimento, ditou aos jornalistas: os votos nulos e em branco para deputado estadual apareciam, no relatório, na votação para Governador. Os em branco e os nulos de governador, por sua vez, eram lançados nas listagens para deputados estaduais. Além disso, os em branco e os nulos para senador passaram para a contabilidade de votos para deputado federal. E os votos em branco e nulos dos deputados federais foram para a contagem relativa ao cargo de senador. E assim, deu-se o mesmo com a contabilidade dos votos para prefeitos e vereadores".

Lobão Barroso ressaltou que o registro de entrada da votação estava correto. O erro fora do programa.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h01
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Um box explica que a Proconsult nasceu em março de 1981 da associação entre a sua irmã paulista, também batizada de Proconsult, que prestava serviços e programas para computadores, e a Racimec, que fabricava Terminais eletrônicos para a loteria Esportiva do Rio, dona também de uma indústria mecânica em São Paulo.

Juntas, elas detinham 35% do capital da empresa carioca. Individualmente, Joaquim Arcádio Viana Filho e Davi Wharsager possuíam 15% de participação cada um.

Criada a Proconsult carioca, a empresa adquiriu o controle da Prumodata, do grupo Alma, ligado à loja maçônica Abraham Lincoln. Mas a Prumodata foi desativada e a Proconsult Racimec continuou com sua carteira de clientes: um rol de 80, entre eles o Banerj. Tinha 80 funcionários. Prestava serviços como folha de pagamento ou contabilidade.

O jornal relata que só a Datamec, além da Proconsult, permaneceram na disputa pela licitação. Mas a Datamec, que participara das eleições de 1974 e 1978 desistiu. O TRE ainda pediu que o Serpro apresentasse um projeto. Mas o programa do Serpro não podia dar conta das eleições municipais _ só das majoritárias para o governo estadual e o Senado, além das proporcionais para Assembléia Legislativa e Câmara Federal.

Um quadro, sem informar a votações, dá a vitória do PDS e da Oposição em todo o país. O Rio é incluído.

Um outro box, "Tribunal distribuirá cópias de boletins" conta que Costa do TRE, receava que todos os partidos fizessem pedidos de verificação para os demais cargos, o que seria muito difícil de atender pelo volume extra de trabalho que acarretaria.

Os juízes do Tribunal explicaram o problema do "voto inexistente", que misturava vereadores e prefeitos de cidades distintas votados com o mesmo número. E disseram que, a partir daquele dia, os boletins incluiriam o total de votos inexistentes. Lobão Barroso, rindo, disse que o computador não podia identificar quem votou no número de candidato de uma cidade na urna de outro município.

David, da Proconsult, informou que terminou a digitação de 17.589 urnas, anteontem. A apuração nas Juntas Apuradoras foi encerrada domingo. Mas o problema era que seus boletins continham erros. E, enquanto seus vários totais e subtotais não estivessem corretos, a urna não poderia ser totalizada.

Rejeitado o boletim, ele voltava ao TRE para correção. Costa e Monsores disseram que corrigiam apenas os subtotais e os totais. David, da Proconsult, disse que, até sábado da próxima semana, o resultado sairia.

Outro texto diz que Brizola descansa em Muri, no interior fluminense.

Um texto transcrito de O Globo de 25/11/82 vem a seguir: é a carta de Frejat ao PDT.

"Saturnino mantém acusações feitas ao Sistema Globo" é o texto ao lado da carta, já mencionado na cronologia relativa a 25 de novembro.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 13h00
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2) O Globo, em manchete, diz que Brizola já prepara equipe de transição. Editorial intitulado Pá de Cal considera definitiva a carta do editor Iram Frejat ao senador Saturnino Braga. Invoca a condição do autor de partidário de Brizola para demonstrar o grau de isenção do jornal, que entregou a ele a coordenação da cobertura das eleições.

Diz que o jornal teve que superar o tumultuário e moroso desempenho das Juntas Apuradoras e as providências corretivas do TRE.As informações transmitidas pelo Globo e Rede Globo sempre refletiram um quadro verdadeiro de apurações, com sua desequilibrada dosagem na capital, na periferia e no interior do Estado. (o jornal briga com os fatos e reclama deles).

Fora desse contexto de fiel prestação de contas a quantos nos merecem esse cuidado, só existe a obsessão dos mentirosos e dos detratores, os mesmos do passado, que continuaremos a desprezar".

Outro texto diz que a digitação dos mapas acabou ontem, quinta-feira, 25. E que o resultado pode sair hoje, 26, graças também ao fato de que os votos inexistentes não atingem os votos para governador e senador.

"O pessoal da Justiça Eleitoral foi informado por funcionários da Proconsult de que, tecnicamente, seria possível extrair imediatamente o resultado final da eleição para governador, enquanto se prosseguia à crítica dos boletins digitados. Bastava, para isso, que fosse feita pequena alteração no programa do computador".

Funcionários que trabalhavam com Monsores disseram que o assunto do adiantamento do resultado para governador foi discutido. Na pior das hipóteses, os boletins trariam o resultado mais adiantado para o governo do Estado.

TRE e Proconsult tentavam dar prioridade a encerrar eleições de municípios pequenos, como Rio das Flores, que só tinha 14 urnas. Mas somente duas delas estavam prontas na digitação para o computador _ as demais tinham erros.

O jornal relata que os juízes Costa e da Fonte, do TRE, foram acompanhar de perto os trabalhos na Proconsult. Da Fonte diz que seu colega, Dalpes Monsores, foi otimista demais ao falar em encerrar a apuração domingo.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h59
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Outro texto, Projeção do PDT dá diferença de 220 mil em favor de Brizola, conta que o partido no dia 25, quinta-feira, fez uma projeção onde Brizola terá 1.720.000 votos (35%) e Moreira Franco 1.500.000 (30,4%). A previsão era de que o partido elegeria 16 deputados federais, 24 ou 23 estaduais e 14 vereadores no Rio. O PDT ainda prometeu encerrar, naquele mesmo dia 26, sua apuração paralela.

Em box, o jornal informa que a Proconsult tem 12 horas para anunciar o resultado final das eleições após apurá-lo. Como não se sabia quando os juízes eleitorais de plantão na Proconsult liberarão o último boletim, pois todos estão sendo revisados e digitados novamente até eliminar-se todas hipóteses de erro na totalização, não dava para prever quando será o final.

Se não cumprisse a regra, rezava o contrato de licitação, que a empresa pagaria CR$ 1,2 milhão _ algo como R$ 21.148,60_ por dia de atraso.

Mas, o contrato condicionava a multa ao cumprimento dos prazos de entrega do material a ser digitado (todos os boletins de urna) ou, até o quinto dia de apuração. A tarefa, porém, já levava sete dias.

O contrato também dizia que a empresa estava proibida de oferecer resultados a terceiros até a proclamação oficial, incorrendo nas sanções previstas no Código Eleitoral.

O texto descreve ainda, o equipamento integral da Proconsult e diz que o back up estava na Superdata S A Processamento de Dados, este sim, considerado de grande porte porque era um IBM 370/ 148, com dois milhões de posições de memória.

Informa que a Proconsult apresentou proposta de CR$ 3.459,00 (equivalentes a R$ 60,32 ou US$ 18,25) por boletim, enquanto que o Serpro cobrava Cr$ 2.899,00 (equivalentes a R$ 50,51 ou US$ 15,28) somando boletins para eleição municipal e as demais.

Na pág. 6, TRE divulga novo boletim com Moreira na frente refere-se a 2.547 urnas, nas quais Moreira Franco obteve 225.654 votos, Miro Teixeira alcançou 179.904 e Brizola auferiu 169.256. A despeito de, desde o quinto boletim, divulgado no dia 21, domingo, a Proconsult incluir o total de sufrágios em branco e nulos nos seus boletins, este não inclui tal votação. Ao menos segundo o quadro publicado no jornal.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h59
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27 de novembro, sábado

1) O Jornal do Brasil, em manchete: Proconsult pressionou apuração do Jornal do Brasil conta que, da madrugada do dia 17 até as 7 horas do domingo, 21, o jornal e a Rádio foram pressionados a mudar os resultados que divulgavam. Arcádio Vieira, citado como diretor da empresa de processamento de dados, tentara impor, por telefone e contacto pessoal, o seu próprio modelo de projeção.

Tratava-se de um modelo de projeção que pressupunha o crescimento dos votos brancos e nulos, ingrediente que ele batizou como "diferencial Delta". Com ele, se chegaria ao resultado que dava a vitória ao candidato do PDS.

O jornal relata a frase de Arcádio Vieira, segundo a qual, se seus interlocutores dessem os números do Jornal do Brasil, ele ou Procópio Mineiro teriam que fugir para Paris.

Conta que, desde domingo, a pressão de Arcádio Vieira passou a ser feita sobre o PDT. Então, alegava preocupação com os reflexos sobre a opinião pública de uma projeção errada, pois tinha certeza que Moreira Franco ganharia.

Arcádio pediu para fazer uma auditoria (negada) nos computadores do PDT. E sugeriu a Cibilis Viana que demitisse toda a equipe, alegando que eram incompetentes e insinuando que tinha profissionais altamente capacitados para pôr no lugar.

Em outro texto, o jornal informa que o PMDB queria do TRE os totais de votos em branco, nulos e na legenda para todos os cargos (exatamente aquilo que o presidente do TRE, Marcelo Costa, não queria que pedissem).

Já o PT queria explicações sobre o atraso e os erros nos boletins. No PDS, Luís Brás, secretário-geral da seção fluminense, diz que não tomará providências e indaga: a quem favorecerá o erro?"

O jornal publica o Editorial Pasmo e Indignação". O título se refere ao sentimento diante da inépcia operacional da Proconsult. Sobre a discrepância e o recuo dos nulos e brancos entre o sétimo e o oitavo boletim descritos afirma: "não há explicação racional nem eletrônica para o salto atrás". A dupla de repórteres do Jornal do Brasil percebera uma anomalia que nem o TRE tinha notado.

O jornal ironiza a solução dada pelo Tribunal para os "votos inexistentes": "A Proconsult totalizará os votos inexistentes como se existissem e, depois, numa segunda etapa, emitirá em separado um relatório a respeito dos fantasmas que fizeram ato de presença nos resultados". Ressalta o fato de a tarefa ter sido dada a uma empresa inexperiente e que o Rio fora o único estado que partiu para computar todas as eleições, adotando um nível de complexidade que nem empresas experientes, como o Serpro, tinham condições de efetuar.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h58
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"Os dados relativos às eleições já estão no computador e são reais. Logo, esses erros se transferem ao relatório que o TRE elabora. O relatório, como se sabe, será incumbido de dizer quem é quem nas eleições de 15 de novembro". Com a frase, passa a idéia de que o erro possa subsistir.

Em texto interno, o jornal informa que o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, em solenidade de comemoração da derrota da Intentona Comunista, afirmou que, "quem ganhou, leva não somente a glória, mas também e, principalmente, a responsabilidade por tudo que possa acontecer". Fez menção à falta de sobriedade de quem procura votos para exóticos como o cacique Juruna e um seresteiro como Timóteo.

O jornalista Carlos Castello Branco em sua coluna afirma que a cédula não atrapalhou, como demonstrava o percentual de nulos nas eleições do país. Nota que o PT e o PDT se consolidaram enquanto partidos nesta eleição.

No texto principal, Proconsult quis influir na apuração do JB , o jornal conta o primeiro contacto da Proconsult com a Rádio. Ao mesmo tempo, diz a matéria, o Jornal do Brasil preparava seu sistema de apuração. Originalmente, todos os dados, candidato a candidato, seriam processados. Relata os fatos que envolveram o jornal até 13 de novembro _ anotados nos antecedentes desta cronologia.

Em Nota da Redação, o jornal diz que decidiu publicar essa reportagem quando apurou que havia erros nos boletins oficiais do TRE. E acrescenta: Como foi publicado no Jornal do Brasil de ontem, 26". Menciona a comparação dos boletins dos dias 22 e 23.

Em outro texto, Empresa também pressionou o PDT, conta que Arcádio Vieira procurou o PDT pela primeira vez no domingo, 21.

Em Vitória de Moreira é projetada, relata que ela constava dos manuscritos de Arcádio entregues ao PDT, como já foi registrado nesta cronologia, no dia 22, segunda-feira.

Em outro texto, PDT não acredita em erro e acha que houve desvio, César Maia declarou: "Para nós é um estranho desvio de programação e não erro. A sinalização estava errada no computador. Não há erro de programação".

O coordenador da apuração do PDT afirmou que os resultados do TRE têm 95% de chances de ser estes: PDT com 1.626.659 votos iguais a 31,1%, PDS com 1.455.561 iguais a 28% e PMDB com 1.014.961 iguais a 19,5%. Em um total de 17.007 urnas. Nas urnas que faltavam _ 553 _, mesmo que Moreira conseguisse todos os votos, ele não ganharia.

Maia disse que 553 boletins não puderam ser computados por estarem em branco ou serem ilegíveis. O PDT, como se sabe, ficava com uma da cinco cópias produzidas pelo TRE.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h57
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Em Computação errada não abala PDS, Luís Brás, secretário geral do PDS, disse que o PDS não tomará providência, pois não há o que fazer, senão reparar o erro e seguir as apurações. A quem favorecia o erro? A ninguém. Não se pode saber quem seria o favorecido. O TRE tem magistrados da maior qualidade e não há dúvidas sobre a honestidade das apurações, emendou.

Em outro texto, TRE promete corrigir erro, Costa, o presidente do TRE, emitiu nota oficial admitindo os erros. O juiz Télio de Barros ligou para a Proconsult e afirmou que já estava tudo acertado. Ainda assim, não saiu o boletim das duas.

Na nota, além do erro admitido e descrito, Costa afirmava que a Proconsult estava corrigindo o erro através da análise do programa que extrai os dados para os relatórios. A finalidade era a de expô-los corretamente, sem, entretanto, afetar os dados existentes no cadastro, referentes aos votos registrados para candidatos. Estes precisavam permanecer permanecem inalterados. Na conclusão, pedia urgência para apressar o resultado final.

Outro texto diz que o TRE passou o dia em reunião. Carlos Rollemberg, procurador regional eleitoral, saiu da sala de sessões dizendo o seguinte: "Mesmo que eles saiam daqui a dois meses, o governador será mesmo Brizola e Saturnino, o senador".

A imprensa não pode acompanhar a sessão, até que Rollemberg convenceu do contrário aos policiais que impediam o acesso a mudarem de idéia.

O juiz corregedor do TRE, José Rodrigues Lema, revelou aos jornalistas que o Tribunal fora totalmente surpreendido com os erros da Proconsult. Veja só. No interior, em municípios pequenos, tivemos urnas que foram transportadas em lombo de burro. Nessa fase, difícil e delicada, não houve nenhum problema. Isso foi ocorrer numa fase em que a expectativa de erros era bem menor.

Em texto de pé de página, o promotor Ekel Souza, que atuava no 4 Tribunal do Júri e se candidatou a deputado estadual pelo PDS, perplexo com o noticiário sobre as apurações, acreditava que "Saturnino está com a razão. Dizia-se diz chocado com o desplante da firma contratada ao declarar que realmente votos nulos e em branco vinham sendo carreados das eleições majoritárias para as proporcionais, nas barbas do presidente do TRE. Chama a esses fatos de crime de lesa majestade".

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h57
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Rogério Coelho Neto, em Coisas da Política, escreve Os pontas-de-lança de Brizola, salientando a importância de Timóteo na eleição. O PDS sonhou com a vitória, escudado na idéia de que haveria um equilíbrio de forças na Baixada. Errou, e diante dos problemas de computação de votos ainda não esclarecidos, por falhas das empresas encarregadas do serviço, foi bom que tivesse errado. Uma vantagem apertada, não definida nos primeiros dias da apuração, para um ou outro candidato, poderia suscitar especulações das mais desagradáveis, afirma.

2) O Globo conta que a Proconsult passou para a Racimec, sua associada, a apuração. Na Racimec eram feitos os jogos da Loteria Esportiva do Rio e da Loto. Simão Brayer assumiu o controle da empresa e mandou 33 pessoas da Método _amigos nossos, diz ele para prosseguir a apuração. O grupo era dirigido por Herbert Reis, diretor da empresa amiga, que participou das eleições de 1978 e 1976 dentro da Datamec.

Brayer disse que o atraso se deu porque 90% dos boletins tinham erro. Prometeu finalizar a tarefa na próxima quarta-feira, 1 de dezembro. Disse que o programa foi alterado. Mas agora tudo estava sendo corrigido _ a tarefa de digitar novamente os boletins já fora encerrada e os erros a corrigir só se referiam a eleições proporcionais.

Portanto, seria possível dar o resultado de governador, amanhã, dia 28, se o TRE quisesse. Confirma que, na quinta-feira, o Univac sofreu pane durante cinco horas.

Outro texto se intitula TRE: Votos dos candidatos estão certos.

Um outro texto afirma que oPDT encerrou sua contagem com diferença de 3,3% para Brizola. Os resultados eram os seguintes: Brizola com 1.626.659 votos (31,03%), Moreira Franco com 1.455.561 (28%) e Miro Teixeira com 1.014.961 (19,5%). Tanto a votação de Brizola como a de Moreira neste caso, revelaram-se inferiores ao efetivamente aferido na eleição, segundo o TRE anunciaria posteriormente.

Na capital, informou o PDT, Brizola obteve 1.029.864 votos (41,2%), Moreira Franco 586.273 (23,4%) e Miro Teixeira, 441.028 (13,6%).

Na Baixada, Niterói e São Gonçalo, Brizola angariou 351.291 votos (41,7%) e Moreira Franco 194.796 (23,1%) e Miro Teixeira 129.302 (15,3%).

No interior, Miro Teixeira teve 494.702 votos (35%), Moreira Franco 467.750 (33,3%) e Brizola 140.626 (10%).

Em TRE e Proconsult: relações tensas , o jornal diz que Monsores discutiu com Arcádio Vieira na frente de Costa, o presidente do TRE, acusando o empresário de estar contratando gente incompetente para fazer a conferência dos boletins de urna já digitados.

Costa, por sua vez, disse que os técnicos da Proconsult passaram a noite atrás do erro do programa e o detectaram. Mas ainda não o tinham corrigido. Um funcionário do TRE informou que, de cada grupo de 200 boletins inteiramente corrigidos, apenas 20 voltavam corretos da nova digitação. Diziam-se em um círculo vicioso, dado o volume de erros de digitação, sem data para acabar.

 

3) À noite, um relatório de apuração relativa a 4.723 urnas, expedido pela Proconsult, não batia com os anteriores nos totais de votos brancos e nulos por cargos. Permitia estimar uma diferença dea mais de 500 mil eleitores entre os que tinham votado para deputado estadual e para governador. (Em Arquive-se, documentário citado).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h56
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28 de novembro, domingo

1) O Jornal do Brasil, em manchete: TRE faz auditoria na Proconsult e pede ao DPF que apure as denúncias conta que a Polícia Federal ia apurar a tentativa de Arcádio Vieira de alterar os resultados das apurações do Jornal do Brasil. O pedido veio do TRE que determinou a paralisação dos trabalhos da Proconsult, onde pretendia fazer uma auditoria.

O jornal recebeu uma carta de Arcádio Vieira, o vice-presidente da Proconsult negando que ele tenha querido alterar resultados nos contatos que teve com o Jornal do Brasil.

Indagado sobre os erros, o tenente-coronel Haroldo Lobão Barroso, responsável técnico da Proconsult, limitou-se a ameaçar o repórter do Jornal do Brasil.

O presidente do TRE, Marcelo Costa disse que solicitou ajuda ao Serpro para computar as eleições do Rio.

Em sua coluna, Carlos Castello Branco atribuiu a tentativa de fraudar os resultados, não a Figueiredo, mas a "bolsões radicais". Disse que tal tentativa é comparável aos cadáveres de Geisel em São Paulo e ao Riocentro de Figueiredo. E que cabia à Justiça diligenciar no tocante às denúncias feitas pelo Jornal do Brasil ontem, dia 27.

 

2) O Globo em manchete TRE fará auditoria da apuração no Rio conta que as duas propostas _ solicitação ao DPF para abertura de inquérito que apure as denúncias de irregularidades da apuração das eleições pela Proconsult e auditoria técnica na empresa _ foram do juiz corregedor José Rodrigues Lema. Ele afirmou constituírem crime eleitoral as irregularidades que têm sido apontadas.

No segundo texto, ainda na capa, o título é: Juiz: Só O Globo denunciou proposta da Proconsult. Conta que o magistrado aposentado Dalpes Monsores fora comunicado pelo jornal, quatro dias antes das eleições, que Arcádio Vieira, vice-presidente da Proconsult, havia oferecido ao jornal fitas magnéticas com os resultados das apurações.

Monsores disse que O Globo foi o único jornal que comunicou ao TRE a proposta da Proconsult. Acrescentou que foi em conseqüência dessa denúncia, que tomou providências para evitar o desvio de qualquer material referente à apuração.

Arcádio Vieira diz a O Globo que o Jornal do Brasil tentou comprar as fitas magnéticas da Proconsult. O texto acrescenta que Monsores, ao saber da tentativa de Arcádio Vieira através de O Globo, mandou lacrar as janelas da sede da Proconsult. E revistar todo mundo que saísse com um pacote da empresa.

Em box, o jornal mostra que contratualmente a Proconsult não podia vender os dados que computava para o TRE.

Outro texto diz que a auditoria técnica do TRE seria feita por cinco especialistas e acompanhada por cinco representantes dos partidos políticos, segundo Marcello Alencar. Ele acrescentou que "durante a intervenção, cujo prazo não foi fixado, é possível, que a Proconsult continue o processamento dos dados oficiais do TRE sem prejuízo para a apuração. Se ficar constatado que houve má fé, a Proconsult será responsabilizada criminalmente e uma outra empresa fará a computação".

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h55
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O jornal conta ainda que a decisão foi fruto da pressão dos partidos, que queriam cópias dos boletins, urna por urna, cópias das fitas processadas, assim como o acesso a todas as fases do processamento.

O juiz Da Fonte chegara a alegar que o contrato não obrigava permitir o acesso. Mas os integrantes dos partidos exibiram cópia do edital e ameaçaram ir ao TSE.

Em Juiz eleitoral afasta qualquer possibilidade de fraude no Rio, o juiz Monsores disse que, se houvesse fraude no processamento dos resultados, a Justiça Eleitoral tinha condições de ter detectado imediatamente.

Em TRE sabia das insinuações de fraude, o jornal recupera a reunião do dia 23, no Tribunal, entre os juízes, a Proconsult e com os partidos. Diz que o primeiro erro da Proconsult (boletins sétimo e oitavo) foi escondido até do presidente do TRE.

Editorial de página interna intitula-se Quem não denunciou . O jornal retoma a informação que deu origem à matéria onde foram denunciadas as pressões de Arcádio Vieira, ocasião em que ele teria dito que um jornal e uma emissora de televisão tinham combinado de utilizar os números da Proconsult".

A publicação se defende com a notícia de que O Globo foi o único a informar ao TRE acerca da proposta da empresa. E acusa o Jornal do Brasil de não ter cumprido o dever de informar ao TRE o crime da Proconsult, a respeito do que será julgado pela opinião pública.

A edição publica ainda uma entrevista de Arcádio Vieira, onde o empresário disse que o Jornal do Brasil tentou comprar sua fita porque não dispunha dos dados a respeito das votações para deputados, vereador e prefeito.

Na pág. 10, pela primeira vez o boletim do TRE publicado pelo jornal mostra Brizola em segundo lugar. A apuração contabilizada é de 4.723 urnas. Moreira Franco segue na liderança, com 427.825 votos. Brizola tem 387.435. Não há nulos nem votos em branco totalizados. Este seria o último boletim divulgado antes da interrupção da totalização ordenada pelo Tribunal à Proconsult.

O jornal publica ainda uma longa entrevista com Antônio Tadeu Lisboa Perazzo Lanes, que acabara de ser demitido do cargo de gerente de métodos e sistemas do Jornal do Brasil, depois de trabalhar lá durante um ano e oito meses. Ele diz que o vencedor estava indefinido quando o jornal publicou que Brizola venceria.

César Maia dá entrevista ao jornal, afirmando que houve má-fé da Proconsult.

3) A Proconsult corrige rapidamente seus resultados (Em Arquive-se, documentário citado.)

4) O diretor-presidente do Serpro, José Dion de Melo Teles, informa o presidente do TRE que seus funcionários farão a auditoria nos programas e erros da Proconsult. (Em Playboy, março de 1983, texto citado).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h55
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29 de novembro, segunda-feira

1) O Jornal do Brasil em manchete informa: Serpro contesta sistema da Proconsult. Relata que a conclusão preliminar é de que o sistema da empresa não era confiável.

Marcelo Costa, o presidnete do TRE disse que o Serpro não vai assumir o controle da totalização dos votos.

Um novo boletim foi divulgado, desta vez pela Proconsult, relativo a 5.259 urnas. O anterior tinha 4723 e, de novo, surgiram divergências: uma candidata do PT perdeu votos embora liderasse a votação do partido e caiu para o décimo quinto lugar, a despeito do aumento dos votos apurados de um boletim para o outro.

Simão Brayer, o sócio que agora comandava a Proconsult, garantiu que o resultado sai até dia 1 de dezembro. Afirmou que o Lobão Barroso consertara os erros dos programas.

Em texto interno, o jornal relata que, até o final da tarde de ontem, 28, a Polícia Federal não recebera o requerimento de inquérito do TRE.

Em outro texto, Emilio do Carmo, juiz do TRE, manifestou-se ansieso para que o Serpro resolva todos os problemas e revelou temer "o pesadelo que seria anular uma eleição".

No Informe JB, o jornal responde ao O Globo dizendo que não tem que dar satisfações a ninguém. E que não entra em polêmicas estéreis. Mas escreve nota de mais de uma coluna explicando o que fez durante a apuração.

Vivaldo Barbosa, advogado do PDT, em texto interno, isenta o TRE de culpa.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h54
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2) O Globo sai com manchete diametralmente oposta: Sócio da Proconsult promete: Erros corrigidos, apuração termina quarta-feira. A fonte do otimismo do jornal é Brayer, da Proconsult Racimec. No segundo parágrafo, um boletim do TRE referente a 5259 urnas, dá Moreira Franco com 461.350 votos contra 434.169 de Brizola.

Em página interna o jornal titula: Brizola se aproxima de Moreira em 5.259 urnas.

Texto interno conta que Brizola telefonou a Vivaldo Barbosa e recomendou-lhe que o partido desse todo o respaldo ao TRE, entendendo que a Justiça Eleitoral é tão vítima dessa trama quanto os partidos e candidatos. Conta também que ArcádioVieira foi proibido de entrar na Proconsult, segundo um juiz.

A edição informa também que a Polícia Federal ainda não recebeu o requerimento do TRE solicitando abertura de inquérito.

Em outro texto, o coordenador de comunicação social do Serpro, Jorge Luiz de Lira Lima, informou que, na hipótese de o Serpro auxiliar o TRE fluminense na contagem, seria necessário digitar novamente 17 mil boletins eleitorais ou fazer uma conversão de sistemas.

3) Carlos Alvarez e Fernando Porto, técnicos do Serpro, começam, com o presidente do TRE, Marcelo Costa, o trabalho de auditoria na Proconsult. Fazem uma entrevista, que Alvarez grava, com os tenentes-coronéis Lobão e Manoel de Carvalho, ambos da arma da artilharia, reformados e contratados para trabalhara naa Univac 9480. Um prestou serviço e o outro era funcionário da Capemi.

Eles disseram que não mais existia o programa-fonte (as instruções em fluxograma, dadas inicialmente ao computador para realizar o trabalho e que costumam ficar arquivadas para correção em caso de erro).

E que apenas possuíam o 11 boletim, editado quando todos os erros já localizados por eles no processo haviam sido corrigidos.

O TRE suspendeu os trabalhos entre o 10 e o 11 boletins.

O tenente-coronel Carvalho disse a Alvarez, na gravação, que fora contrário à divulgação do 10 boletim. Costa perguntou-lhe quem deu a ordem para divulgar o boletim errado. Carvalho, então, apontou para Herbert Reis, da Método, amigo de Simão Brayer, agora à frente da Proconsult.

Costa, então, insistiu com Reis: Quem deu a ordem? Dalpes! (Monsores, o juiz aposentado que comandava a apuração no TRE) respondeu Reis

Ao corrigir o décimo boletim, a Proconsult reprocessou todos os dados da eleição até ali, transformando a memória do 11 boletim em um verdadeiro programa-fonte, saneado. O Serpro não pode concluir se havia fraude ou não, por não ter conseguido reconstituir os erros dos dez primeiros boletins. A Proconsult nunca entregou ao Serpro a relação de urnas do segundo e quinto boletins. (Em Playboy, março de 1982, texto citado).



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h53
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30 de novembro, terça-feira

1) O Jornal do Brasil , em manchete, TRE suspende trabalho da Proconsult , diz que, somadas 5.259 urnas _ um terço do Estado _ a suspensão da totalização foi determinada até que se encerre a auditoria na empresa.

A Polícia Federal abriu inquérito (sindicância, na verdade) para apurar denúncias de que a empresa pressionou o Jornal do Brasil.

Nos corredores do TRE, o que mais se ouvia era Cadê os meus votos?, da boca dos candidatos que só podiam falar com o segundo escalão, pois o primeiro estava fora ou em reunião.

O Informe JB clama por mudanças legislativas para impedir novos casos como esse.

Em texto interno, o jornal conta que a suspensão dos trabalhos da Proconsult foi confirmada às 13 horas por Lobão Barroso. Ele explicou que os números dos boletins de anteontem já estavam corrigidos, o que, na sua avaliação, justificava a divergência com outros mapas distribuídos anteriormente à imprensa. Mas não quis responder às mesmas perguntas quando entrevistado pela TV Globo. Eu não posso dizer nada. Só o TRE.

2) O Globo, em manchete: Já começaram a auditoria e o inquérito da apuração TRE suspende boletins. Relata que o superintendente do DPF do Rio, Waldir Silveira Zacarias, determinou abertura de inquérito para apurar denúncias de irregularidades na Proconsult.

Na auditoria do Serpro, a primeira medida solicitada foi o preenchimento de 20 boletins de urna para que fossem testados no sistema do Serpro.

Bayer, da Proconsult, assegurou que os erros na programação já foram corrigidos e adiou para sexta-feira a divulgação dos resultados.

O PMDB entrou com recurso junto ao TRE pedindo recontagem em todas as urnas do Estado e Vivaldo Barbosa, do PDT,considerou a medida desnecessária.

Texto interno diz no título que TRE ainda não deu apuração ao Serpro.

Em outro texto, Vivaldo Barbosa, do PDT, disse que os problemas havidos, aqui e ali, nas Juntas Apuradoras, não justificavam recontagem total dos votos.

Dalpes Monsores atacou Lema, o juiz corregedor, por ter desabafado contra a apuração informatizada no dia anterior. Acusou-o de ter querido fazê-la por teleprocessamento: a urna era apurada em Campos e os resultados seriam projetados em tela no Rio.

Texto legenda informa: Moreira visita Roberto Marinho.

3) A Polícia Federal e um promotor solicitado pelo TRE (Celso Fernando de Barros) acompanham a auditoria do Serpro. A PF diz que só indiciará a Proconsult se a fraude for evidenciada. (Em Arquive-se, documentário citado).

4) O promotor Celso Fernando de Barros, de volta de Corumbá, é chamado pelo procurador da Justiça, Nerval Ferreira, que o designou para acompanhar o escândalo Proconsult. Agradeceu e disse que ia apurar a verdade dos fatos. Não pedi para entrar, não pedirei para ficar, nem para sair. Se meu procedimento se tornar inconveniente, o senhor retire a designação".

Rollemberg, procurador do TRE, foi quem solicitou um promotor de Justiça para acompanhar o caso.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h52
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1 de dezembro a 13 de dezembro, o final da apuração

Brizola levou. Mas no dia 14 de dezembro, seguinte à tarde daquela segunda-feira, 13, O Globo optou por noticiar na manchete apenas que a apuração fluminense terminara. Talvez por emoção, talvez por nervosismo, quem digitou o resultado ou colheu a informação a respeito do resultado anunciado pelo Tribunal Regional Eleitoral extraiu 464 votos de Wellington Moreira Franco, o candidato do PDS. Ao divulgar a diferença de votos que deu a vitória a Leonel Brizola, o candidato do PDT, encolheu-a em 10 mil votos.

Ironia do destino ou não, quem conferir os dados verá que O Globo repetiu os algarismos da milhar da votação de Brizola na de Moreira Franco. E trocou 7 por 6 ao inscrever a diferença de sufrágios obtidos pelos dois candidatos.

Já o Jornal do Brasil, ao informar corretamente, encerrou 29 dias de controvérsias sobre sua apuração paralela. Ela não acertou na mosca: o desvio foi inferior a 1%. Por conta disso, tratou de fazer seu marketing, com o anúncio: Correções.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h50
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O quadro abaixo exibe o resultado divulgado da eleição para o governador do Rio pelo Tribunal Regional Eleitoral em 13 de dezembro de 1982, pelo Jornal do Brasil _ correto _ e por O Globo _ com os enganos supracitados.

 

JB

GLOBO

Brizola

1.709.264

1.709.264

Moreira

1.530.728

1.530.264

Diferença

178.536

168.536

 

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h49
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Brizola teve, portanto, 34,2% dos votos válidos e Moreira Franco 30,6%. Miro Teixeira, do PMDB, ficou com 21,5% dos sufrágios, Sandra Cavalcanti, do PTB, com 10,7% e Lisâneas Maciel, do PT, com 3%.

Os votos em branco somaram 243.286 e os anulados, 194.913. A soma de ambos atingiu 6,9%, infinitamente menos do que Arcádio Vieira.

Igualmente, a abstenção ficou em 7,8% do eleitorado, muito menos do que o Tribunal Regional Eleitoral cansou-se de prever.

Mais: no total de 5.992.279 eleitores do Estado do Rio, votaram 5.440.666. Mas, bem ao contrário do que Moreira Franco e os sócios da Proconsult proclamaram, os votantes preferiram dar a Brizola uma diferença de 178.536 votos, pouco abaixo dos 173.588 votos que a Rádio JB projetou em 21 de novembro e, sobretudo, ligeiramente inferior ao que o Jornal do Brasil previra em 24 de novembro, o nono dia de apuração. O jornal não acertou por exatos 4.948 votos, ou 0,08%.

A vantagem de Brizola, igual a 3,6%, foi maior àquela que os candidatos vencedores ao governo estadual obtiveram em Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Outros estados, que não o do Rio de Janeiro, também conviveram com fraudes, jamais tão significativas quanto a que quase empossou Moreira Franco no Palácio das Laranjeiras.

Nos treze dias que antecederam à apuração, o Serpro encerrou a auditoria na Proconsult, que voltou a apurar os dados em 6 de dezembro, a segunda-feira anterior ao anúncio do resultado do pleito pelo TRE.

A Polícia Federal ouviu testemunhas da Rádio JB e do Jornal do Brasil, do PDT e da Proconsult, não deixou o promotor fazer perguntas e, como se verá adiante, concluiu que não havia razão para se instaurar inquérito policial. Ele acabou acontecendo, mas pouco esclareceu como se verá no capítulo adiante.

A esta altura, César Maia já havia dito a O Globo que a apuração do jornal fora "corretíssima", para gáudio dos editores do jornal e desgosto de Brizola.

O fato é que, com a vitória assegurada, o PDT foi se desinteressando cada vez mais em esclarecer o que, de fato, houve no caso Proconsult. Melhor para todos aqueles que preferiam ver a verdade ocultada para sempre. Não eram poucos.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h49
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O jornalista Luis Carlos Cabral, diretor regional da TV Globo no Rio em 1982, escreveu, quatro anos depois da eleição de Leonel Brizola para governador do Rio, o seguinte texto, que publicou no jornal "O Nacional", em novembro de 1986:

 "A voz cavernosa que eu só conhecia através das televisões agradecendo a prêmios na maioria recebidos artificialmente estava lá.

__ Quem era o responsável pelo jornalismo da Globo ontem à tarde?

__Pelo jornalismo nacional, Eduardo Simbalista; pelo jornalismo local, eu mesmo, Luis Carlos Cabral.

--É com você mesmo que eu quero falar. Você me desobedeceu.

Confesso, não é vergonha: a mão tremia. Não era medo do desemprego. Era o terror de quem vê desabar sobre si, repentinamente, o próprio Spectro. Jung explica. Mas, sim: a voz era firme.

-Dr. Roberto, se desobedeci foi involuntariamente.

-Você me desobedeceu. Eu disse que não era para projetar e você passou o dia inteiro projetando, dizendo que o Brizola vai ganhar. Você me desobedeceu.

-Mas dr. Roberto, eu não podia desobedecer a ordens que não recebi. Projetei segundo a orientação de meus chefes.

-E quem são os seus chefes?

-Os meus chefes são, pela ordem, Alice Maria, Armando Nogueira e Roberto Irineu.

-Eles não são chefes coisa nenhuma. O chefe aqui sou eu e você me desobedeceu.

-Bem, dr. Roberto, não desobedeci.

-Vai trabalhando ai, que na segunda-feira, a gente conversa. Até logo.

 "O papel da Rede Globo de Televisão no Caso Proconsult, nas eleições de 1982, era apenas o de preparar a opinião pública para o que iria acontecer: o roubo, por Moreira Franco, dos votos de Leonel Brizola. Aliás, dos votos do povo.

"Na época, eu era o responsável por todo o jornalismo da emissora no Rio. O comando da Central Globo de jornalismo-Armando Nogueira, Alice Maria, Alberico Souza Cruz e Woile Guimarães-estava em São Paulo, dirigindo o programa Show das Eleições.

Quem estava no fogo era eu. E Antonio Henrique Lago, hoje (novembro de 1986) curiosamente envolvido na campanha de Moreira Franco, envolvido em mais uma tentativa de se ganhar as eleições através do amortecimento da opinião pública.

"Eu ficava na emissora, em contato direto com a alta direção e Lago, praticamente dormia na sala de computação de O Globo. Era lá que as distorções aconteciam".

"O método correto de se computar as eleições no Rio é o seguinte: injeta-se dois votos da capital, um voto do interior e um voto da periferia. Essa mecânica permite a formação de um universo correto. Em 1982, como hoje, o processo de alimentação dos computadores era distorcido. Injetava-se, digamos, dois votos do interior, onde Moreira Franco tinha sabida maioria, nenhum voto da baixada e um da capital."

"Não posso dizer, embora intuíssemos todos, de quem partiam as ordens para que se trabalhasse assim. Ao Lago, foi dito que havia problemas estruturais. O sistema havia sido montado. Tratava-se, enfim, de uma questão de incompetência. A desculpa é, logo se verá, esfarrapada".

"Se há alguma coisa competente no Brasil, esta é, reconheça-se, o Globo e a TV Globo. Roberto Marinho sabe fazer o que quer."

"Na emissora, eu e os jornalistas que convoquei para me auxiliarem Mônica Labarth, Claudio Nogueira, Johnson dos Santos, Renato Kloss _ , todos profissionais corretos, íamos ficando assustados."

"Primeiro, sim, com a incompetência. E depois, com as evidências. De todo lado, estouravam denuncias de fraudes eleitorais. Começamos a cobrir. Era a brecha do jornalismo. Mas nada pôde ir ao ar. Ordens de cima proibiram que noticiássemos as fraudes."

"Lembro-me bem de que houve um caso de roubo de urnas em Bangu que não pôde ir ao ar. Tornou-se inútil, desgastante, cobrir. As proibições, como é evidente, eram obedecidas.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h46
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"O velho enlouqueceu"

Depoimento do jornalista Osvaldo Maneschy, que trabalhava em "O Globo" em 1982

Osvaldo Maneschy disputou uma eleição pela primeira vez em 1982. Acabou como suplente de vereador em Niterói. Jornalista, trabalhava em O Globo em 1982, contratado por Milton Temer para a editoria de bairros. Escrevia para o Globo Niterói, mas pediu para trocar quando se candidatou à Câmara Municipal da cidade. Passou a escrever para o Globo Méier, enquanto fazia campanha.

Hoje, ele trabalha na Instituto Alberto Pasqualini, do PDT. Tentou mais duas vezes ser vereador, mas não se elegeu. Foi assessor de imprensa de Saturnino Braga. E até hoje se lembra com clareza do que viveu nos dias de apuração da eleição de Brizola para o governo do Estado do Rio.

Eu rondava sempre que podia para saber os resultados eleitorais no Centro de Computação que o jornal instalou no segundo andar da Rua Irineu Marinho. Lá havia um estúdio para o pessoal da televisão e da rádio. Me lembro que o Paulo Alceu e a Sonia Pompeu, que cobriram as eleições, tiveram que andar disfarçados na rua por causa da reação da população à cobertura da televisão.

O Iram Frejat (*), coordenador da apuração do jornal, era meu colega. Um dia, me lembro que foi no final da semana, quarto ou quinto dia de apuração, ele me disse que não sabia o que estava acontecendo. Tinha colocado um monte de boletins da Baixada Fluminense no computador, mas o resultado não mudava. Continuava dando Moreira.

No sábado, quinto dia de apuração, a redação estava vazia. Já era noite e eu estava escrevendo matéria. Do meu lado, um colega da Rádio Globo, já coroa, preparava, como sempre fazia, o seu boletim sobre o resultado das eleições. Ele subiu e foi ver os dados lá no CPD. Quando voltou, ele me chamou:

 

__ Ih! O velho enlouqueceu. Ele mandou parar o computador.

__Parou mesmo?

__ É, parou! Por ordem do dr. Roberto Marinho!

(*) falecido jornalista que era irmão do deputado pedetista José Frejat.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h43
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h41
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h41
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Veja a seguir reprodução de páginas do Jornal do Brasil com reportagem sobre perícia que mostrou os erros da Proconsult:

 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h40
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h39
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h39
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h39
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h38
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h38
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h38
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h37
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h37
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h37
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h37
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h36
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h36
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h36
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h35
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h35
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h34
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h34
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h33
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h33
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Veja a seguir o anúncio "Correções", publicado pelo Jornal do Brasil

 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h32
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 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h31
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Depoimento de Leonel Brizola em 2000

Candidato a prefeito do Rio em 2000, em entrevista ao jornalista Oswaldo Maneschy, fala sobre o caso Proconsult.

"Brizola lembra que as tentativas de fraude começaram, com a Proconsult, em 1982.

O candidato do PDT à Prefeitura do Rio, Leonel Brizola participou de um ato social, na noite de segunda-feira, 11 de setembro, no clube Monte Líbano, que foi organizado pelo Movimento Nacionalista Leonel Brizola, integrado por trabalhistas históricos.

Brizola lembrou as tentativas da direita para derrotá-lo após sua volta do exílio, que recrudesceram em 1982, quando foi eleito, pela primeira vez, para o governo do Rio de Janeiro.


" Eu lembro quando, um dia, o professor Cibilis Viana me procurou, alertando para o esquema que estavam montando. O Cibilis me telefonou e disse que nós teríamos um almoço com um cidadão ligado à empresa, que faria a totalização de votos, Proconsult, o Arcádio (Vieira).

Eu lembro que ele tinha uma carinha de... todo arrumadinho, engomadinho... Pois bem, eles tomaram vinho: vocês
sabem que o vinho traz a verdade, e, dali a um pouco, o Cibilis saiu, me chamou e disse: "Comandante, ele abriu o bico e disse que o processo lá permite que ele faça ganhar quem ele queira".

Brizola, falando aos participantes do encontro acusou o executivo da
Proconsult:

"Ele ainda disse que se nós lhe déssemos o Banerj e uma participação na Secretaria da Fazenda, ela garantia a vitória. Eu disse ao Cibilis que nós não podíamos entrar naquela promiscuidade. Alertei para que o partido fosse ao Tribunal, falar com o desembargador presidente e com o corregedor, contando a história e pedindo garantias de fiscalização, porque aquilo nos causava uma profunda suspeita do que poderia ocorrer. Nossos companheiros quase foram colocados fora do Tribunal, porque, diziam lá no tribunal, que não havia razão para desconfiar de um processo que, segundo eles, corria normalmente.

O Cibilis, nervoso, disse ao juiz : "Vossa Excelência vive num outro mundo, no mundo da dignidade, da respeitabilidade e não concebe que existe gente capaz de fraudar uma apuração e roubar uma eleição".

O fato é que o corregedor se sensibilizou, mas quando as autoridades do Tribunal chegaram na sala de apuração montada pela tal empresa, encontraram um mar de papéis desordenados, rasgados, aqueles papéis de computador. Mas não encontraram nenhum programa de computador! Conseguiram prender um cidadão num elevador.


Era um coronel reformado que foi encaminhado à Polícia Militar e nunca mais se teve notícia dele.

E o processo acabou sendo arquivado, anos depois."

Falando sobre sua candidatura a prefeito, Brizola disse que sua inspiração, no primeiro momento, foi de no sentido de defender a unidade no partido:

"O trabalhismo é a força histórica mais importante do país. O PT, por
exemplo, com todo o seu charme, ainda anda de calça curta. Força histórica somos nós, um partido de massa. E somos, por isto, facilmente infiltráveis. Volta e meia encosta um contrabando entre nós. Eles crescem o olho com a nossa massa, com nossos companheiros, mas acabam se perdendo".

Dirigindo-se a seus companheiros do Movimento Nacionalista, Leonel Brizola, o candidato pedetista disse que não é um visionário:

"Estou cumprindo meu dever. Eu quero empregar os anos que ainda tenho em favor de nosso povo, até por uma questão de honra, de honestidade. Estou vendo tanta coisa que não posso abrir mão de minhas responsabilidades. Antes, eu queria apenas salvar a unidade partidária. Um outro que governasse a cidade..., nosso partido continuaria unido, mas agora estou convencido de que
vou ganhar, porque eles não se agüentam numa discussão comigo, em igualdade de tempo, como será no segundo turno".



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h29
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A investigação que não deu em nada

 Cuidado! Quem procura, pode achar

 Por Maria Helena Passos *

Em quase cinco anos de investigação nem a Justiça ou a Polícia Federal aferiram algo mais sobre o caso Proconsult do que a vitória de Leonel Brizola nas eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982.

O resultado da eleição foi oficialmente anunciado somente em 13 de dezembro daquele ano, quase um mês depois do pleito. O Serpro concluíra sua auditoria na Proconsult. Brizola seria proclamado governador no início de 1983, mas o episódio eleitoral que poderia ter lhe custado a derrota jamais foi totalmente esclarecido.

Velho ditado, muito usado quando se trata de combater a preguiça ou a negligência, diz que quem procura, acha.

Muito poucos foram atrás, de fato, entre aqueles a quem competia encontrar a verdade sobre o caso, diante de tantos erros e atitudes suspeitas, presenciadas por órgãos de imprensa e cidadãos que participaram da apuração do pleito fluminense.

O então promotor Celso Fernando de Barros, designado para acompanhar a sindicância aberta pela Polícia Federal em 28 de novembro de 1982, atualmente um dos quatro sub-procuradores da Justiça do Rio de Janeiro, foi exceção. Empenhou-se arduamente para que o Tribunal Regional Eleitoral assumisse a tarefa de investigar o que de fato houve nos serviços de digitação e totalização dos votos prestados pela sua contratada, a Proconsult.

Mas Barros teve todos seus requerimentos rejeitados por unanimidade pelos juízes do TRE, como relatou em entrevista que me concedeu recentemente, cujo teor pode ser lido em anexo.

Ainda assim, o então promotor seguiu tentando investigar o caso, por vários anos. Esbarrou na impossibilidade de obter perícias oficiais. Não conseguiu mais do que nomear como perito oficial a um abnegado cidadão, o analista de sistemas Glauco Antonio Prado Lima.

Sem recursos, Lima fez a conferência dos boletins iniciais. Concluiu que a soma dos votos para governador no resultado final da apuração anunciada pelo TRE em 13 de dezembro, estava correta.

O trabalho de Lima é exemplo legítimo de cidadania. (Leia texto anexo) Foi feito gratuitamente, nas horas vagas que seu emprego na estatal Cobra lhe permitia ter. Custou-lhe caro, porém: foi demitido quando seus empregadores descobriram qual era a investigação-cidadã que fazia.

Nela, conforme relatou por telefone, o analista de sistemas encontrou impresso sobre mapas de urnas o carimbo da Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios-Beneficientes dos Militares, a Capemi, protagonista de um dos maiores escândalos da época.

A firma agropecuária do grupo previdenciário ganhara concorrência sem adversários para extrair 88 mil hectares de floresta no Pará, com direito a comercialização da madeira, na construção da represa de Tucuruí. Embolsou pela tarefa US$ 80 milhões entre 1980 e 1983, parcialmente gastos no pagamento a empreiteiras que contratou para executarem serviços que nunca existiram.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h26
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Um dos responsáveis pela revelação do caso foi morto em seguida _ o jornalista Alexandre von Baungartem, dono de O Cruzeiro, revista que deveria receber ajuda da Capemi em troca da concorrência ganha graças ao Serviço Nacional de Informações _ como aliás, informou a revista Veja em 26/1/1983.

O escândalo foi pródigo no envolvimento de generais e ministros do regime militar.

O fruto dos esforços de Lima, no entanto, não chegou a ser útil ao promotor Barros: ele foi promovido a procurador de Justiça, no início de 1987, e afastado do caso Proconsult. Quem o substituiu foi o promotor Ângelo Glioche, atual desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Antes que 1987 se encerrasse, o novo promotor solicitou o arquivamento do caso, concedido pelo juiz Roberto Wider, da 1 Zona Eleitoral do Rio.

Assim, aspectos cruciais do caso Proconsult jamais foram esclarecidos pela Polícia ou pela Justiça. Como por exemplo, a razão pela qual, durante tantos dias, o eleitorado fluminense conviveu com a intranqüilidade provocada por informações contraditórias.

Advindas de boletins contabilizados com erros pela empresa e divulgados pelo TRE, elas incluíam quase que somente a votação extraída das urnas do interior.

A investigação da tentativa de fraude no caso Proconsult não passou igualmente, de uma tentativa. Seu estopim foi duplo: além dos requerimentos entregues pelo PDT ao TRE, solicitando acesso aos mapas das juntas apuradoras, urna a urna, conforme relatou recentemente César Maia, atual prefeito do Rio de Janeiro pelo PFL e então coordenador da apuração paralela do partido, foi capital a observação dos repórteres Heraldo Dias e Antero Luís, no Jornal do Brasil, em 25 de novembro, nove dias depois de iniciada a apuração do pleito.

 

A cabeça não era de Lobão

 

Eles detectaram o sumiço de votos nulos e em branco de um boletim para outro (o sétimo e o oitavo) do TRE, na contramão da evolução do total de votos apurados. Viu-se, então, obrigado a confessar-se como responsável pelo erro, o homem que concebeu o programa do computador Univac da Proconsult para apurar a eleição de 1982 (Em Jornal do Brasil de 26/11/1982, TRE do Rio reconhece erro na computação).

Tratava-se do tenente-coronel da reserva Haroldo Lobão Barroso, contratado especialmente pela Proconsult para a tarefa, graças a seu robusto currículo.

Lobão Barroso se formou em 1956 na Academia Militar de Agulhas Negras, na cidade fluminense de Resende, servindo na infantaria do Exército, onde foi condecorado com medalha de prata por vinte anos de bons serviços.

Durante anos, trabalhou como analista de sistemas do Centro de Processamento de Dados do I Exército, setor ligado ao Serviço Nacional de Informações, informa a revista IstoÉ, de 8/12/1982, na reportagem O escândalo do Rio.

O militar trabalhou também na Datamec, uma das empresas contratadas para digitação dos boletins das juntas apuradoras em 1982, ligada á Caixa Econômica Federal. E ajudou a elaborar o Plano de Informática do Estado do Rio no Centro de Processamento de Dados estadual durante o governo Chagas Freitas.

O contraste entre o currículo de Lobão, então com 48 anos de idade, com o erro primário que assumiu ter cometido nas apurações em 1982 se tornou muito mais instigante em 31 de janeiro, quando o Jornal do Brasil revelou que o tenente-coronel da reserva também prestava serviços para a Capemi.

Lobão Barroso possuía uma empresa, a Exec, dedicada a processamento de dados, junto com seu braço direito, o tenente-coronel Manoel de Carvalho, que também trabalhava na Capemi. Igualmente, ambos foram parceiros nos campos de basquete da Academia Militar das Agulhas Negras. Tinham a mesma idade.

Tal como Lobão Barroso, Carvalho também foi promovido por antiguidade e obteve medalha por duas décadas de serviços prestados ao Exército. Mas a cabeça da dupla, apurou a revista IstoÉ junto a um ex-colega de ambos no CPD do I Exército, não era Lobão Barroso. Era Carvalho.

A Capemi digitou para a Proconsult os dados relativos às zonas eleitorais de Niterói, onde Wellington Moreira Franco, o candidato do PDS, fora prefeito e tinha seu principal reduto eleitoral. O mesmo se deu com os resultados das urnas da região dos Lagos, segundo conta o Jornal do Brasil de 31/1/1983 no texto Lobão Barroso era da Proconsult e da Capemi. Lima afirma que a empresa não fazia parte do elenco de companhias pré-selecionadas para a tarefa.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h25
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Muito barulho para nada

A discrepância entre o sétimo e o oitavo boletins levou o presidente do TRE, Marcelo Santiago Costa, a solicitar uma auditoria ao Serpro e a abertura de sindicância pela Polícia Federal. A segunda iniciativa só se deu porque, instado pelo candidato a deputado estadual pelo PDS e promotor de Justiça, Ekel Sérvio de Souza, o procurador regional eleitoral, Carlos Rollemberg, a requereu ao Tribunal.

Rollemberg pediu também que um promotor acompanhasse o caso, tarefa que acabou sendo destinada a Celso Fernando Barros. (Em O Globo de 1/12/1982, Inquérito da Proconsult vai ser acompanhado por promotor especial).

Em cinco dias, o Serpro produziu seu relatório de auditoria sobre os trabalhos da Proconsult na apuração das eleições. Em Conclusões da perícia do Serpro, o Jornal do Brasil, de 5 de dezembro de 1982, informa que a estatal de processamento de dados admitira que erros de programação causaram confusão nos dados divulgados nos dez primeiros boletins do TRE. Igualmente, afirmara que identificou e corrigiu outras falhas, que reduziam a votação de candidatos entre o décimo e o décimo primeiro boletim. E ainda, que fizera testes comprovando a eficácia das correções.

O Serpro constatara também que a conferência realizada pelos juízes do TRE, no confronto visual dos mapas de urnas expedido pelas juntas eleitorais com as listagens dos arquivos do computador da Proconsult, não demonstrara discrepâncias. Testes nos arquivos magnéticos, por sua vez, atestaram que o décimo primeiro boletim estava correto, devendo-se desconsiderar apenas os anteriores.

É bizarro e preocupante o teor das recomendações que o Serpro faz para que a Proconsult pudesse seguir executando providências antes de retomar a totalização e divulgação de boletins com o TRE. Uma delas é o controle do uso de canetas dentro de empresa, como se lê em 6 de dezembro de 1982, em Recomendação dos auditores: Proconsult sob a vigilância mais rigorosa. A outra é a proteção dos boletins de urnas, dos arquivos magnéticos e dos programas do computador e a conferência visual mesmo dos boletins considerados corretos pelo computador.

 (continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h24
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No mesmo dia, diante dos juízes do Tribunal e representantes dos partidos, os técnicos do Serpro _ Carlos Eduardo Oberlaender Alvarez e Fernando de Abreu Porto _ informaram que não tiveram acesso ao programa do computador da Proconsult original. Aquele que estava errado.

Apenas, os técnicos do Serpro, viram o programa que Lobão Barroso corrigira. Logo em seguida, no mesmo dia, o Tribunal rejeitou por unanimidade um outro pedido de Ekel de Souza, do PDS. Desta vez, era a rescisão do contrato com a Proconsult o teor da solicitação.

Instado por um repórter que lhe pedia explicação para tal decisão aos seis milhões de eleitores fluminenses, Emilio do Carmo, juiz do Tribunal que participara da formatação do edital de licitação para escolher a empresa que computaria os votos, respondeu assim: Mas você não sabe? Claro que o governador é Leonel Brizola!. (Em Jornal do Brasil de 7 de dezembro de 1982, Proconsult volta a totalizar votos).

Faltava uma semana para que o candidato do PDT fosse proclamado vencedor pelo TRE.

Quando isso se deu, o promotor Barros entregou ao Tribunal mais um requerimento, repetindo pedido antigo: uma perícia técnica por técnicos em computação do programa original. Algo que a Justiça Eleitoral poderia fazer sem custos, pois tinha poder para requerer gratuitamente tal serviço. Mas Marcelo Santiago Costa, o presidente do Tribunal, negou. (Em Veja de 5/1/1983, Luta solitária)

Descrente quanto ao rumo das investigações na Polícia, Barros, impedido de fazer perguntas, desligou-se em 20 de dezembro do acompanhamento da investigação policial. Ele solicitou ao Tribunal as cópias dos boletins emitidos no início da apuração para compará-los com os da Proconsult. Queria averiguar se o computador errava a esmo ou em direção prefixada. O relatório da PF sequer tinha isso, informa a Veja, na citada matéria.

A Proconsult se safou de pagar multas contratuais e de não mais receber o valor acertado. Prosseguiu contabilizando a eleição fluminense. Se o relatório do Serpro não entrou no mérito da intenção dos erros, tampouco esclareceu qualquer coisa a sindicância feita pela Polícia Federal sobre a empresa carioca, provocada pela denúncia divulgada no Jornal do Brasil em 27 de novembro de 1982, Proconsult pressionou apuração do JB.

Na antevéspera do Ano Novo, como informa O Globo, o delegado Carlos Toschi enviou relatório pedindo que o procurador eleitoral, Carlos Rollemberg arquivasse o caso. O texto integral só veio a público com exclusividade nas páginas de O Globo de 8 de janeiro de 1983.

Barros estréia 1983 requerendo a abertura de um inquérito a ser conduzido pela corregedoria do Tribunal que, em última análise era o contratante da empresa suspeita de irregularidades no serviço prestado. Mas o juiz corregedor José Rodrigues Lema, rechaça seu pleito. Alegava que os funcionários da Proconsult não respondiam diretamente à sua seara, a Corregedoria do TRE, que sequer dispunha de especialistas em processamento de dados.

Mês após o anúncio da vitória de Brizola, Rollemberg recusou o arquivamento solicitado pela PF. Determinou abertura de inquérito policial: agora, para arquivar, só mesmo a Justiça poderia fazê-lo. (Em Jornal do Brasil de 13/1/1983, Decisão de Procurador frustra Promotor). (continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h23
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Jornalistas em perícia

Ainda faltava um bom tempo para que a Justiça arquivasse a investigação, em 1987, quando o Jornal do Brasil fez sua própria perícia sobre os dez primeiros boletins do Tribunal, elaborados pela Proconsult, publicada em 30 de janeiro de 1983.

Dois dos boletins aliás, chegaram a desaparecer do TRE, que só pode recuperá-los graças ao auxílio do PTB e do PDT.

Em Perícia do JB mostra erros da Proconsult, o jornalista Ronald Carvalho exibe o fruto do trabalho de 18 pessoas, durante 29 dias.

Elas reconstituíram cada boletim com a relação das urnas que geraram, colhidos junto ao Tribunal e de gavetas de candidatos e técnicos que trabalharam na apuração oficial. Outras quatro pessoas anotaram os resultados urna a urna, em formulário especial, para que não houvesse erros de digitação. Em 36 horas, programadores e analistas de sistemas montaram um programa de totalização. A cada vez que os totais por cargo não batiam, anotava-se um erro. A totalização seguiu o critério do Tribunal: as mesmas urnas para cada boletim.

Comparou-se então, os boletins da apuração do jornal e os oficiais. Não batiam, o total de votantes com o dos votos, até o décimo boletim. Nada menos do que 341.621 sufrágios a mais apareceram nas urnas sem que eleitores os tivessem nelas depositado. Urnas cuja grande maioria era da capital, onde Brizola tinha um eleitorado proporcionalmente maior que o de seus adversários. No interior, onde Moreira Franco era mais forte, sugiram apenas 781 votos sobressalentes.

Fraude ou acidente? A perícia do Jornal do Brasil não pôde comprovar a má-fé, mas também não julgou as discrepâncias mero engano. O fato é que nos documentos chamados totalização por seção, também distribuídos pelo TRE aos partidos, de novo não batiam o número de votos apurados e o de eleitores que compareceram ao pleito. Era motivo suficiente para impugnação, segundo a lei eleitoral.

No quinto boletim, quando o TRE finalmente passou a incluir na divulgação os votos em branco e nulos, a perícia do jornal encontrou 20.863 em branco e 10.291 anulados _ bem mais do que os 12.706 brancos e 7486 nulos contabilizados na verificação. No sétimo boletim, tal discrepância atingia 23.226 votos. Também eram enormes as diferenças para todos os outros cargos.

As coisas mudavam a partir do oitavo boletim, quando o total de brancos e nulos caiu de 55.456 para 38.649, uma redução de quase 44%. Os novos números, agora, conferiam com os da perícia do Jornal do Brasil, na tentativa de corrigir o erro, ainda que implicitamente o revelando.

Outro pulo do gato estava nos totais da votação dos cargos em disputa _ de governador a vereador. Não coincidiam, quando somados aos seus correspondentes votos em branco e anulados. Isso revelava um erro perigoso de programação, já que o computador não o detectou.

Questão técnica, desvio intencional de votos para candidatos beneficiários ou quem sabe, tentativa de provocar a anulação da apuração em determinadas zonas eleitorais, sobretudo na capital fluminense? São hipóteses que a reportagem levantou. Neste último caso, se a Proconsult tivesse podido continuar com esse erro _ mais votos que eleitores _, a impugnação de urnas ou recontagem de votos seria fatal, mais dia menos dia. Bastaria o PDT apresentar as cópias dos mapas como justificativa.

(continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h22
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Siga o programa-fonte!

A Proconsult embolsou os Cr$ 60,481950 milhões (equivalentes hoje a R$ 1,057 milhão ou cerca de US$300.000) contratuais e implodiu: as denúncias semearam a cizânia entre seus sócios.

No âmbito do inquérito policial, agora presidido pelo delegado Mateus Casado Martins, o promotor ouvia agora, os depoimentos de César Maia, pelo PDT, de Joaquim Arcádio Vieira Filho, da Proconsult, dos juízes eleitorais Paulo César Dias Panza e Augusto de Barros e do responsável pela coordenação da apuração eleitoral no TRE, o magistrado aposentado Dalpes Monsores.

Por duas vezes, sem sucesso, o promotor requereu perícia ao Serpro. A estatal alegava que era impossível reconstituir os primeiros boletins da Proconsult porque as listas das urnas apuradas computavam mais de uma vez algumas delas, como explicou O Globo de 5/2/1983 em Listas de urnas incertas, causa da recusa do Serpro.

A última negativa do Serpro ao promotor Barros foi inclusive, reafirmada em parecer pelo sub-procurador geral da República, Francisco de Assis Toledo. Seu superior, o Procurador Geral Inocêncio Mártires Coelho aprovou. Dizia: Se o Serpro reputa impossível e não conclusiva a perícia que lhe requer solicitar, não vemos como obrigá-lo ou como tentar convencê-lo a realizá-la. (Em Jornal do Brasil, 4/3/1983, Procurador quer Serpro investigando Proconsult).

O corpo fora não era tudo. Afora o absurdo de que o Jornal do Brasil já reconstituíra esses boletins, há outro. Meses depois que, em 24 de março, Coelho, o Procurador Geral, decide acabar o inquérito sobre a Proconsult apoiando-se nas negativas do Serpro, o promotor Barros é apresentado ao analista de sistemas Glauco Lima, cuja perícia encontrou muito mais do que os primeiros boletins.

Lima achou nada menos do que o programa-fonte que César Maia, ex-coordenador da apuração paralela do PDT supõe deletado, embora tenha dito em entrevista ao Pasquim (edição número 701) que eles estavam no cofre-forte do TRE.

Sabe onde estavam? Com Carvalho e Lobão.

· Colaborou Alexandre Gajardoni Neto.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h21
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NADA ESTÁ CLARO

 

Por Maria Helena Passos

O mato-grossense Celso Fernando de Barros é hoje um dos quatro sub-procuradores gerais do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Em 1982, ele votou em Corumbá, sua cidade natal. Ao retornar para casa, no Rio, foi destacado para acompanhar a sindicância aberta no Departamento de Polícia Federal do Rio de Janeiro a respeito de irregularidades ocorridas na Proconsult e denunciadas pelo Jornal do Brasil, no início de dezembro daquele ano.

Há 38 anos no Ministério Público, ele conta nesta entrevista, concedida em seu gabinete, o que se recorda daquele episódio, que se tornou a maior frustração de sua carreira: não conseguir apurar o que houve. E relata como a investigação foi parar em mãos erradas _ as da Polícia Federal.

 

MHP _ A Polícia Federal era o foro adequado para a investigação do caso Proconsult?

CFB _ Em novembro de 1982, quando o Tribunal chamou o Serpro para fazer auditoria na Proconsult também oficiou à Polícia Federal pedindo a instauração de uma sindicância. E o Procurador Regional Eleitoral da época pediu ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro que indicasse um promotor para acompanhar essas providências. Indicado, eu achei que essas providências de verificação, pela sua complexidade uma vez que era matéria técnica sobre a qual naquela época não se tinha quase conhecimento, deveria ser feita pelo TRE. Afinal de contas, as suspeitas de irregularidades referiam-se a um serviço seu.

MHP _ O sr. requereu a abertura de investigação nesse sentido ao TRE, não foi?

CFB _ Sim. Mas, o Tribunal indeferiu todos os pedidos para que assumisse a responsabilidade de apurar esses fatos. Requeri de várias formas e sempre perdi por unanimidade de votos. Então, o que restou foi uma sindicância na Polícia Federal, depois transformada em inquérito. Nessa sindicância, houve um momento em que o delegado me impediu de formular perguntas. Eu representei contra o delegado e me retirei da sindicância. Quando essa sindicância foi transformada em inquérito policial, um outro delegado a presidiu e eu acompanhei o inquérito na primeira fase.

MHP _ O que foi possível esclarecer, então?

CFB _ Ficou claro que aquela matéria tinha que ser resolvida através de uma perícia. Não havia o que apurar através de testemunhas, senão alguns dados muito ocasionais. Pois o fulcro da dúvida era técnico e seu contexto também. Mas a Polícia Federal não contava com peritos nesse âmbito. Então, eu pedi ao Serpro que nos fornecesse respaldo técnico para uma perícia aprofundada sobre o que, afinal de contas, tinha acontecido na Proconsult. Mas o Serpro se negou. Estávamos em 1983.

MHP _ Nada mais foi feito?CFB _ Com a negativa do Serpro, o inquérito ficou paralisado, enquanto tentávamos obter uma solução para isso. Até que apelamos para o recurso da cidadania. Um técnico muito correto, que nos pareceu muito sério, se dispôs a fazer essa perícia com seus próprios recursos. Não era dono de empresa, nada disso... Sem qualquer respaldo oficial, Glauco Antonio Prado Lima fez um belo trabalho. Era um pioneiro da informática no Brasil. Mas aí, me aconteceu um fato novo: fui promovido a Procurador de Justiça do Rio de Janeiro. Por essa razão, foi designado para prosseguir no acompanhamento do inquérito, o promotor de Justiça Ângelo Glioche, atualmente desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em 1987. (continua...)



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h19
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MHP _No que resultou a perícia?

CFB _ Concluiu que o erro de contagem de votos não havia ocorrido. Aquilo que se pensava sobre a contagem de votos para governador não havia ocorrido. Com essa prova pericial e outras, que o dr. Ângelo Glioche fez, ele requereu e obteve junto ao juiz da Primeira Zona Eleitoral, o arquivamento da investigação.

MHP _ O perito Lima trabalhou sobre os programas de totalização da Proconsult?

CFB _ Trabalhou sobre os mapas do Tribunal e chegou à conclusão de que o erro de soma dos votos para governador não existiu. O que, sim, houve, mas não se teve recursos na perícia para apurar, foi o retardamento da Proconsult na informação dos votos da capital. Os primeiros boletins da Proconsult, durante muitos dias _ não foi um dia nem dois, não... _ , que davam a vitória a Moreira Franco, computavam os votos do interior. Mas os votos da capital, por alguma razão, não chegavam aos totalizadores, e os boletins continuavam dando a vitória ao candidato Moreira Franco, quando já havia votos que deixavam clara a superioridade do candidato Leonel Brizola. Por que razão os boletins do interior é que foram divulgados e contabilizados e os da capital ficaram aguardando, é uma matéria que, ao que eu saiba, não ficou esclarecida.

MHP _ Testemunhas não esclareceriam isso?

CFB _ Não, porque ninguém viu isso. Isso teria que ser técnico. Quais as dificuldades técnicas que impediram que os boletins da capital fossem computados concomitantemente com os do interior?

MHP _ Supondo-se que seriam dificuldades técnicas.

CFB_ Ou, se não houve dificuldades técnicas, supondo-se que não foram dificuldades técnicas, foram de outra ordem. Mas isso também se teria que ver.

MHP _ Isso nunca foi visto em investigação?

CFB _Que eu saiba, não.

MHP _ A Proconsult cumpriu as normas de licitação e contratuais com o TRE?

CFB __ Quem teria que averiguar essa matéria era o TRE.

MHP __ A Proconsult jamais foi avaliada seja pela Polícia o pela Justiça, então?

CFB __Nem julgada, nem punida, nem absolvida, nem nada.

MHP __ Nos quatro primeiros boletins do TRE não apareciam os votos em branco nem os nulos.

CFB _ Mas eles foram computados. E a certa altura, davam um resultado muito maior do que deveriam dar. Essa dúvida permaneceu irresolvida até que, um dia, eu percebi que, por um erro que nunca soube explicar, estavam sendo somados aos votos brancos e nulos, os votos dados ao candidato Miro Teixeira. De tal maneira que os votos em branco e anulados apareciam com um resultado completamente estapafúrdio. Mas eu verifiquei _ e isso fui eu que descobri _ que esses números estapafúrdios eram originados de uma soma de brancos e nulos aos dos votos do candidato Miro Teixeira.

MHP _ Algum órgão de imprensa registrou isso?

CFB _ Em dezembro de 1982, houve uma reportagem feita pelo Jornal do Brasil, sob a responsabilidade de um jornalista que se chamava Ronald Carvalho, (leia em anexo, JB 30/1/1982) em que se reconstituiu os boletins, um a um. E chegou-se à conclusão de que não tinha havido erros nos resultados dos votos para governador. Constatou erros nos resultados brancos e nulos, mas não constatou erros nas votações nominais para governador do estado. Chegou à mesma conclusão a que depois chegou o técnico Glauco Lima.

MHP _ Ele mostra que a conta dos votos para governador estava correta ?

CFB _ Estava aritmeticamente correta. O que não se sabe dizer é se as parcelas que eram levadas correspondiam às parcelas que a Proconsult tinha, ou se haviam parcelas que a Proconsult tinha, mas não levava à totalização, por algum outro motivo.

MHP _ O sr. certamente se recorda que funcionários da da Proconsult tinham sido funcionários do SNI através da Capemi. Hoje, sabe-se de declarações, como a do próprio ex-chefe da Casa Civil na época, Golbery do Couto e Silva, assumindo que o caso Proconsult foi uma tentativa do Serviço Nacional de Informações de alterar os resultados eleitorais, feita de forma muito incompetente. Tanto tempo depois, o que ficou disso tudo para o senhor que, com tanto empenho, tentou elucidar o caso?

CFB _ O cidadão Celso de Barros não tem nenhuma importância. Mas o promotor Celso de Barros tem. Como profissional e como funcionário público, o que me ficou foi a frustração de que essa apuração não tivesse sido assumida pelo Tribunal para fazê-la sob sua responsabilidade e, depois de um trabalho feito com todos os recursos necessários para o aprofundamento, esclarecer o que houve e o que não houve, se há culpados ou se não há culpados.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h18
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A cidadania frustrada

 

Por Alexandre Gajardoni Neto *

Ao investigar a totalização da Proconsult, o analista de sistemas carioca Glauco Antônio Prado Lima, nomeado perito pelo promotor Celso Fernando de Barros na investigação sobre apuração das eleições de 1982 no Rio, fez descobertas que poderiam ter mudado o rumo das averiguações, se o caso não tivesse sido arquivado em 1987, pelo juiz Roberto Wider, da Primeira Zona Eleitoral do Rio de Janeiro, a pedido do promotor Ângelo Glioche.

Lima descobriu que os programas e boletins de urna estavam escondidos com os tenentes coronéis Haroldo Lobão Barroso e Manoel de Carvalho, responsáveis pela concepção dos programas de computador utilizados pela Proconsult na totalização dos votos. Esses boletins foram carimbados pela Capemi, empresa que fez a totalização dessas urnas, rejeitadas pelo computador por apresentarem diferença nos números de votos e de votantes.

A Capemi, segundo Glauco, não fazia parte do rol de empresas contratado para o trabalho na apuração e, portanto, não poderia ter totalizado tais urnas. Quando o analista incumbido da perícia refez a totalização dos primeiros boletins, descobriu que a maioria das urnas apuradas provinha do interior, onde Moreira levava vantagem. Já as urnas da capital, em muitos casos, não fechavam _ havia nelas mais votos do que votantes relacionados. E foram exatamente essas urnas as totalizadas, novamente, pela Capemi.

A Capemi, diz ele, tinha fortes laços com o SNI. Os dois militares, ambos na reserva, eram funcionários da Capemi e também da Proconsult. Lima não tem dúvidas de que o carimbo da empresa nos boletins de urna era um forte indício de irregularidade na totalização.

No entanto, quando finalmente conseguiu tais provas, o promotor Barros foi substituído, uma vez que fora promovido a procurador. Antonio Glioche, o substituto de Barros, acabou seguindo a opinião do perito que acompanhava Lima, um advogado que julgava não haver indícios suficientes para se afirmar nada e negou-se a assinar o laudo.

Demitido da empresa onde trabalhava _ a estatal Cobra _ tão logo seus superiores descobriram que o que fazia nas horas vagas era investigar o caso Proconsult. Lima levou mais de dois anos na perícia. Discordou totalmente da conclusão do advogado. Hoje, sempre na profissão, ele se mostra frustrado por não ter visto seu trabalho ser útil para esclarecer definitivamente o caso Proconsult.

Lima também atestou que os primeiros boletins, aparentemente suspeitos, estavam corretos. O fato de os boletins apresentarem apenas resultados de urnas do interior, a seu ver, tinha o propósito de fazer crer à população que Moreira seria o vencedor. Assim, a fiscalização por parte do PDT esmoreceria e uma possível fraude poderia ter seu caminho facilitado.

No relatório da perícia que elaborou, Lima deixou tudo isso muito claro. Não recebeu nenhum tostão por seu trabalho, feito em nome da cidadania. Ficou apenas com a frustração.

* Colaborou Maria Helena Passos



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h13
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Citação de Golbery do Couto e Silva no livro "Ditadura Envergonhada"

 

“Em 1982, quando o SNI estava desmoralizado pelos escândalos políticos, criminais e financeiros em que se metera, Golbery ironizava as trapalhadas de seus discípulos. Eles haviam se metido até mesmo num plano destinado a fraudar a eleição para governador dório de Janeiro através dos computadores da empresa Proconsult, contratada para totalizar os votos. Cáustico como um professor que repreende alunos ineptos, Golbery dizia:”

 

Há determinadas cousas que não se devem fazer, mas não quero me fazer de santo. Se num determinado momento elas são úteis, é razoável que se pense em fazê-las. Eu não critico todas essa bobageira que essa gente fez porque eram cousas condenáveis em si. O que eu critico é o fato deles terem se metido a fazer cousas condenáveis sem saber fazê-las. Então você acha que roubar uma eleição através do sistema de computação é coisa fácil? Eles simplesmente não sabem fazer isso. Nós não devemos tentar fazer o que não sabemos”.

 

De Ditadura Envergonhada, pág. 173, Companhia das Letras, 2003.

 

Elio Gaspari

 

Citação: Golbery do Couto e Silva em 1982.



 Escrito por Paulo Henrique Amorim às 12h06
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